13 julho 2026

O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história

No dia 13 de julho de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou nosso artigo "O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história - 1".

O texto original encontra-se disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/o-brasil-da-rejeicao-do-ocidente-a-ilusao-do-reinicio-da-historia-1/.

O artigo pode ser lido abaixo.

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Mapa Múndi (foto de Leandro Barreto na Unsplash).

O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história – 1

Nos afastamos de nossa ocidentalidade. Esse afastamento, ou essa rejeição, são graves e muito ruins. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Um dos traços mais notáveis da política brasileira no último século é a nossa insistente dificuldade, ou nossa franca rejeição, de conjugarmos (1) a filiação à civilização ocidental com (2) a autonomia nacional e perspectivas universalistas. Essa conjugação não tem nada de excepcional e não é em si mesma contraditória, mas sua realização exige vontade e esforços conscientes. Cada vez mais o que se vê é que tais vontade e esforços não ocorrem – bem ao contrário, aliás.

Genericamente e a princípio, as perspectivas universalistas são o respeito a todas as culturas e civilizações existentes, bem como a abertura e o bom relacionamento com elas, a partir de critérios aplicáveis a todas, com dignidade e uniformidade.

A autonomia nacional corresponde à capacidade de decidirmos o que desejamos fazer, com quem desejamos relacionar-nos, quais os valores que nos orientam – o que tem um aspecto interno e outro externo.

Já a filiação à civilização ocidental corresponde ao fato de que o Brasil surgiu a partir dos esforços expansionistas europeus, sob a orientação política, cultural e moral portuguesa, com diversas modalidades de interação com as populações autóctones e de outras áreas nesse esforço.

Muitas vezes os europeus foram brutais, mesmo criminosos, gerando situações que se tornaram problemáticas; ainda assim, daí surgiram novas sociedades, sob a orientação do que posteriormente se ampliou para a concepção de “Ocidente” – e que não se reduz aos seus aspectos problemáticos, apresentando muitos e importantes aspectos positivos.

A autonomia nacional brasileira é um valor que mais ou menos não se discute, pelo menos ao afirmar-se internamente a originalidade de nossa sociedade e, em decorrência, as nossas preocupações externas específicas. Mas – e é esse o começo do problema que desejamos comentar – essa autonomia (interna e externa) é entendida como rejeição do pertencimento ao Ocidente, o que, por sua vez, conduz a um universalismo no mínimo claudicante.

Não se pode fingir que o Ocidente teve ao longo da história um comportamento exemplar. A própria noção de “Ocidente” com frequência é manipulada para induzir, ou impor, comportamentos que beneficiam apenas alguns países em particular; além disso, em inúmeros períodos ela justificou práticas odiosas, como a escravidão e/ou extermínio de outros povos.

A expressão “fardo do homem branco” (white man’s burden) resume isso muito bem, em termos de colonialismo imperialista ou de restrição do próprio “Ocidente” a alguns países (em particular Alemanha, Inglaterra e, mais recentemente, Estados Unidos).

Os problemas ligados ao “Ocidente” não são poucos e muitos deles são realmente graves: isso explica e às vezes justifica inúmeras reações, começando pela descolonização, passando por distanciamentos variados e chegando à franca rejeição. Depois de 1945, isso assumiu as formas do Movimento dos Países Não-Alinhados, do Movimento do Terceiro Mundo e atualmente do Sul Global. Esses movimentos transitam entre o distanciamento e a rejeição, com a crítica ao (ou a um) falso universalismo e eventualmente com a defesa de particularismos supostamente virtuosos.

Mas, em contraposição aos problemas acima, o Ocidente é o fundamento efetivo da identidade de dezenas de países, tanto na Europa quanto nas Américas e em outras partes. Além disso, concepções fundamentais da vida contemporânea têm origem no Ocidente, em particular o universalismo secular, a tolerância e a atividade pacífica e cooperativa. Essas concepções fundamentam várias das mais importantes instituições atuais, organizadas no sistema da Organização das Nações Unidas, mas não somente nele.

Por outro lado, muitas das demandas não-ocidentais valem-se explicitamente das concepções ocidentais, como o uso sistemático da “crítica”, a exigência de tolerância, autonomia e soberania nacionais etc. Essas concepções são usadas por países não-ocidentais mesmo quando as concepções próprias a esses países são diametralmente opostas às ocidentais; muitos dos países que criticam o Ocidente adotam, eles mesmos, comportamentos criticáveis: imperialismo, colonialismo, falso universalismo etc., resultando em hipocrisias múltiplas e cruzadas.

Esse comportamento, que de maneira suave podemos chamar apenas de “ambíguo”, é compartilhado por intelectuais, em particular pelos intelectuais “críticos”. Assim como vários países, muitos intelectuais frequentes vezes usam o universalismo criado pelo Ocidente para sabotar esse mesmo universalismo, em favor de concepções e práticas que muitas vezes são particularistas, autoritárias, discriminatórias etc.

Essa conduta dos intelectuais é ainda estimulada pela teoria e prática do identitarismo; no fundo, ele é apenas uma variedade de etnocentrismo e, portanto, potencialmente “universal”, mas a sua forma específica, em voga desde há algumas décadas, é estadunidense (logo, plenamente ocidental). O identitarismo sistematiza e estimula os ressentimentos de grupos sociais e políticos que são minoritários ou que se vêem assim, enfatizando de maneira agressiva os particularismos e os facciosismos: é claro que as ambiguidades do Ocidente são um campo fértil para o identitarismo.

É nesse intrincado ambiente que se inclui a situação brasileira, que é muito específica, em múltiplos sentidos. Somos um país de dimensões continentais, o que nem sempre percebemos com clareza e que nos conduz a concentrar-nos em demasia em nossos problemas internos, ignorando o ambiente externo e a dependência de todos os países em relação a isso.

Também somos o único país lusofalante nas Américas, cercado por sete países hispanofalantes; além disso, em um continente republicano, nossa independência manteve a monarquia, para garantir a escravidão e o território gigantesco. Mas fomos colonizados por um povo ibérico, cuja plasticidade social é universalmente reconhecida. Além disso, compartilhamos também os aspectos positivos do Ocidente, herdando o racionalismo universalista, a trilha para a atividade livre e cooperativa, o estímulo à tolerância etc.

Retornamos aqui à afirmação inicial deste artigo: nós, brasileiros, lidamos muito mal com nosso caráter ocidental. Certamente que os problemas próprios ao Ocidente (e que, lamentavelmente, não são exclusivos do Ocidente) não ajudam nessa relação, como nos casos dos valores compartilhados e dos falsos universalismos usados externamente como pretextos para a dominação e a exploração, ou, internamente, para degradações étnicas.

Esses aspectos negativos estimulam a rejeição dos nossos aspectos ocidentais; a agressividade identitária de origem estadunidense dá uma camada extra à problemática relação que mantemos com nossa identidade nacional.

O resultado disso tudo é que nos afastamos de nossa ocidentalidade – e, no limite, tendemos a rejeitá-la. Deveria ser evidente que esse afastamento, ou essa rejeição, são graves e muito ruins. Ainda assim, uma série de práticas daí derivadas deixa claro que essa evidência, infelizmente, não é tão evidente assim, o que justifica as presentes reflexões.

Desenvolveremos essas questões em nosso próximo artigo.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.

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