16 março 2026

Darcy Ribeiro e positivistas indigenistas

Darcy Ribeiro (in: Cândido Mariano da Silva Rondon, Rio de Janeiro, Global, 2017, p. 29-30) faz o seguinte comentário indicando os positivistas – militares e civis – que, inspirando-se no belíssimo exemplo de Rondon, dedicaram-se a estabelecer e manter as melhores relações entre a civilização ocidental e os índios brasileiros, seguindo sempre a fórmula rondoniana “Morrer se for preciso, matar nunca”. (Aliás, a respeito dessa fórmula, Darcy Ribeiro comenta que se trata do “ponto mais alto do humanismo brasileiro”). 

Muitos oficiais do exército, depois de participarem das missões comandadas por Rondon no interior do país, orientaram-se para a carreira indigenista.

Queremos destacar os nomes de Antônio Martins Estigarríbia, capitão de engenharia que abandonou a carreira militar para dedicar-se inteiramente ao Serviço de Proteção aos Índios, no qual exerceu todas as funções. Vicente de Paula Teixeira da Fonseca Vasconcelos, que dirigiu durante vários anos o SPI e a quem coube reorganizá-lo depois do colapso que sofreu em 1930. Nicolau Bueno Horta Barbosa, que foi um dos principais auxiliares de campo de Rondon e, numa das expedições, tendo o pulmão vazado por uma flecha, ainda conseguiu manter o controle sobre a tropa para impedir que revidassem ao ataque. Mais tarde devotou-se inteiramente aos índios do sul de Mato Grosso como chefe da Inspetoria local do SPI. Alípio Bandeira, que se tornaria a mais eloquente expressão literária da causa indígena e que, em colaboração com Manoel Miranda, procedeu aos estudos preliminares para a elaboração da legislação indigenista brasileira. Júlio Caetano Horta Barbosa, que teve os primeiros contatos amistosos com os índios Nambikuara. Boanerges Lopes de Souza, um dos colaboradores mais assíduos de Rondon, tanto na construção das linhas telegráficas de Mato Grosso (1910-1922) como na Inspetoria de Fronteiras, e Manoel Rabelo, organizador dos planos de pacificação dos índios Kaingang, de São Paulo – foram todos, mais tarde, membros do Conselho Nacional de Proteção aos Índios.

Aos militares se juntaram desde a primeira hora colaboradores civis como o dr. José Bezerra Cavalcanti, que respondeu pela direção executiva do SPI desde sua criação até 1933, quando faleceu. O professor Luiz Bueno Horta Barbosa, que abandonou a cátedra da Escola Politécnica para dedicar-se exclusivamente ao Serviço de Proteção aos Índios e que foi o principal formulador dos princípios básicos da política indigenista brasileira. O dr. José Maria de Paula, que, ingressando no SPI quando de sua criação, nele exerceu todos os cargos, desde a chefia das inspetorias de índios dos estados do Sul até a diretoria. José Maria da Gama Malcher, que serviu ao SPI com invulgar devotamento e capacidade, tanto chefiando as inspeções do Pará e Maranhão como na função de diretor, de 1950 a 1954.



11 março 2026

"O Brasil no espelho", Dia das Mulheres, Castilhismo não é fascismo

No dia 13 de Aristóteles de 172 (10.3.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - Postura dos positivistas em relação aos retrógrados).

Comentamos também o livro de Felipe Nunes, O Brasil no espelho - livro que, apesar de trazer dados estatísticos interessantes sobre os brasileiros, comete erros primários, grosseiros e preconceituosos em termos conceituais e filosóficos, especialmente a respeito do Positivismo.

Além disso, reafirmamos a campanha O castilhismo não é fascista, que lançamos em virtude de um movimento fascista baseado no Rio Grande do Sul pretender usar a figura de Júlio de Castilhos para justificar o fascismo.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Leitura do Apelo aos conservadores

(13 de Aristóteles de 172/10.3.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações:

2.1.   Dia 11 de Aristóteles (8 de março): Dia Internacional das Mulheres

3.     Algumas manifestações públicas:

3.1.   Mensagens trocadas com a Fundação Darcy Ribeiro, a propósito da ausência de positivistas na sua “Biblioteca Básica Brasileira”, apesar da presença simultânea de monarquistas, liberais, escravistas etc.

3.1.1. O mesmo pode ser dito a respeito da sua “Biblioteca Básica Latino-Americana”, mas em menor grau

3.1.2. Recebemos resposta sem assinatura da diretoria da Fundação reconhecendo essa limitação (embora não a justificando) e pedindo nosso apoio em futuras publicações

3.2.   Lançamento do cartaz “O castilhismo não é fascista!

3.2.1. Pretensão de um movimento fascista gaúcho de basear-se em Júlio de Castilhos para justificar o seu fascismo

3.3.   Ausência completa de resposta do Deputado Chico Alencar, a propósito do projeto de lei que altera a bandeira nacional (PL n. 5883/2025)

4.     Comentários sobre o livro O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo, 2025), de Felipe Nunes

4.1.   Esse livro foi publicado em 2025 e apresenta os resultados de uma pesquisa sobre hábitos e opiniões da população brasileira a respeito das mais variadas questões: importância da família, preferências político-partidárias, confiança nas instituições etc.

4.1.1. É um livro pequeno, com menos de 200 páginas, de leitura fácil e rápida, com muitos e muitos gráficos e a maior parte do texto escrito correspondendo à descrição e à interpretação desses gráficos

4.1.2. Como é um livro publicado, ele é orientado para o grande consumo popular, de modo que não há as reflexões metodológicas que sempre aparecem em pesquisas estritamente acadêmicas; além disso, o estilo de escrita é bastante acessível; por fim, pode-se conjecturar que algumas questões foram suprimidas dessa versão publicada, a fim de manter (ou garantir) o acesso popular dos resultados da pesquisa

4.2.   Além das classificações em termos de gênero e região do país, o autor considerou também a “raça” e, principalmente, as faixas etárias

4.2.1. Em termos de faixas etárias, já indicando alguns dos vícios desse livro, o autor agrupou os respondentes em quatro grupos, nomeados conforme o período de nascimento e de sociabilização básica: grupo “Bossa Nova” (nascidos entre 1945 e 1965); grupo “Ordem e Progresso” (1965-1985); grupo “Redemocratização” (1985-2005); grupo “Geração.Com” (2005-2020)

4.3.   A fórmula “Ordem e Progresso” é usada para descrever o período autoritário; em outras palavras, o autor associa direta e conscientemente o “Ordem e Progresso” – e, por extensão, o Positivismo – aos militares e ao autoritarismo

4.3.1. Mesmo que, por hipótese, possa-se argumentar que tal vinculação foi inocente, o fato é que ela com certeza foi superficial e irresponsável; esse “erro inocente” o autor não comete a respeito de outros aspectos e, de qualquer maneira, o título “Ordem e Progresso” foi empregado em um procedimento a posteriori e que, de qualquer maneira, pode(ria) ser alterado a posteriori: em outras palavras, o autor decidiu conscientemente adotar a expressão “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário, vinculando a expressão ao autoritarismo

4.3.2. A irresponsabilidade e a superficialidade intelectual, teórica e metodológica do autor estende-se também ao âmbito moral, na medida em que o “Ordem e Progresso”, à parte a sua origem positivista, integra o mais importante símbolo do país, que é a bandeira nacional; dessa forma, ao vincular o “Ordem e Progresso” ao autoritarismo militarista, o que o autor faz é vincular a bandeira nacional a esse autoritarismo militarista, corroborando os preconceitos da esquerda e da direita a respeito

4.3.3. Embora tenha degradado o “Ordem e Progresso” e a bandeira nacional a partir de preconceitos políticos, o autor poderia com enorme facilidade usar outros títulos para descrever a geração nascida entre 1964 e 1985; por exemplo, “Anos de Chumbo”, “Autoritarismo”, “Regime Militar” – ou mesmo “Segurança e Desenvolvimento”: o autor não o fez porque não quis

4.4.   Esse tipo de vício teórico está presente em todo o livro e reflete um problema que acomete com enorme freqüência cientistas sociais dedicados a pesquisas empíricas, especialmente as quantitativas: são muito bons com números e com a manipulação estatística, mas são péssimos em termos conceituais

4.4.1. Por “péssimos em termos conceituais” o que queremos dizer é que esses pesquisadores lidam mal com os conceitos, não raras vezes sendo superficiais a esse respeito

4.5.   As questões expostas no livro refletem com clareza tal superficialidade conceitual, ou melhor, tal superficialidade teórica: o autor opõe “conservadores” a “progressistas”, em que os conservadores são definidos como tais a partir do que a esquerda considera-o, da mesma forma que os progressistas; assim, não apenas o autor adota sem maiores cuidados uma classificação que é elaborada por um dos grupos sociais que ele pesquisa (e que é elaborada contra um outro grupo que ele também pesquisa), como o autor esposa essa classificação da esquerda

4.5.1. O primarismo conceitual do autor, bem como sua adesão acrítica aos valores da esquerda, fica evidente tanto nas categorias utilizadas por ele para estruturar a pesquisa quanto nas interpretações que ele faz dos dados obtidos

4.5.1.1.          Em termos de categorias empregadas, por exemplo, ele adota o conceito de “raças” e leva a sério essa categoria

4.5.1.2.          Em termos de interpretações, o autor afirma que valorizar a família é um traço de conservadorismo (!)

4.5.2. O autor não é explícito a respeito – ou seja, ele não assume, em momento nenhum, tais características e, inversamente, ele assume um certo objetivismo ligado ao seu quantitativismo –, mas a leitura atenta do livro evidencia com grande facilidade esses vícios

4.6.   A vinculação cínica e ligeira do “Ordem e Progresso” ao militarismo e ao autoritarismo, então, evidencia de maneira exemplar esses vícios intelectuais e metodológicos do autor

4.6.1. Além disso, como vimos, o autor opõe de maneira simplista “conservadores” a “progressistas”: mais que apenas aderir de maneira indesculpável às disputas políticas contemporâneas e transferi-las para sua pesquisa, o que o autor faz é rejeitar qualquer possibilidade efetiva de superar essa oposição e de realizar a união proposta pela máxima “Ordem e Progresso” (que o autor, sem dúvida, não entende)

4.7.   Em textos de promoção comercial das obras do autor, afirma-se que ele é um “grande” pesquisador, com uma carreira de sucesso no Brasil e no exterior, tendo desenvolvido muitas pesquisas e elaborado um índice que é vendido para governos e empresas

4.7.1. À parte o exercício comercial desse tipo de comentário, o êxito acadêmico do autor deixa claro que não há motivo nenhum para ele cometer os erros e os vícios que comete – e ele de fato comete-os: sua habilidade estatística e empírica poderia com enorme facilidade evitar todos os problemas devidos ao seu primarismo teórico

4.8.   Há outros aspectos em que o livro é superficial

4.8.1. Certamente não seria possível o autor abordar com profundidade todos os aspectos implicados pela pesquisa; entretanto, o autor dá certo destaque para algumas questões, sugere algumas conseqüências a respeito dessas questões e de algumas outras, mas silencia a propósito de outras que mereceriam (ou exigiriam) comentários e aprofundamento

4.8.2. Um exemplo de questão a respeito da qual o autor silencia é a chamada laicidade do Estado: o autor apresenta previamente vários resultados importantes – que a população brasileira acredita majoritariamente em divindades (monoteístas e politeístas) e que a população acredita no “poder da fé” –, para em seguida afirmar que isso tem relevância para políticas públicas, especialmente as que mobilizam mais diretamente a ciência (como as políticas de saúde e, indiretamente, de educação), e afirmar que se “deve levar a sério o peso das crenças populares, sob risco de as políticas públicas darem errado”: ora, o que se quer dizer com “levar a sério as crenças populares”? O autor silencia a respeito, mas sua omissão dá a impressão de que ele considera que governo e Estado devem incluir nas políticas públicas essas crenças – logo, o Estado deve deixar de lado a laicidade, o que deveria ser evidentemente inaceitável

4.9.   Em suma, é difícil não se ficar com grande irritação e má vontade com um livro e um pesquisador que comete erros tão grandes e superficiais, de maneira consciente e sistemática

5.     Exortações

5.1.   Sejamos altruístas!

5.2.   Façamos orações!

5.2.1. Hoje, em favor das orações positivistas, leremos alguns trechos da “Introdução” ao Ensaio sobre a oração, de José Lonchampt (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165; páginas 11-14; ortografia atualizada):

[...]

A Humanidade não é a espécie humana, e não compreende a universalidade dos homens: a Humanidade é a memória dos mortos inspirando e guiando os vivos; é a suma de todos os altos pensamentos, de todos os nobres sentimentos, de todos os grandes esforços, referidos a um só e mesmo Ente, cuja alma é formada por esse conjunto, e cujo vasto corpo é constituído pelos vivos. Esta influência incessante do passado sobre o presente é tão salutar quanto necessária. Suponhamos, com efeito, uma geração humana inteiramente subtraída à influência das gerações anteriores: seria apenas uma cabilda[1] de rudes selvagens, tremendo diante de cada novo fenômeno da natureza, e levando a ferocidade ao ponto de comer carne humana; em uma palavra, essa geração reproduziria o estado primitivo de onde a Humanidade partiu para efetuar a sua gloriosa evolução. Assim, é a esse Grande-Ser que devemos tudo quanto suaviza, eleva, nobilita e deleita nossa vida: conhecê-lo, é portanto amá-lo.

A Humanidade, tão boa para nós, tão benfazeja em relação a nós, vive no presente por meio de homens como nós: destes servidores vivos dependem sobretudo a velocidade e a segurança de sua marcha. O amor que sentimos pela Humanidade nos incitará, pois, a servi-la com zelo, a fim de apressar, tanto quanto caiba em nós, a sua progressão para esse feliz estado social, em cujo limiar as gerações atuais podem prelibar[2] os seus mais delicados eflúvios[3].

[...]

Um dos meios mais seguros de consagrarmos todos os nossos esforços ao serviço do novo Ser Supremo consiste na prática quotidiana da oração. Rezar à Humanidade não será pedir ao seu poder uma mudança imediata na economia real, ou implorar de sua bondade um auxílio direto no infortúnio; semelhante prece seria contrária ao conhecimento que a ciência nos ministra a respeito da suprema existência, a qual acha-se submetida, como a nossa, a leis invariáveis: a Humanidade modifica, é verdade, os fenômenos da natureza, porém de um modo lento e regular; a Humanidade vem em auxílio dos sofrimentos humanos, porém somente melhorando cada vez mais as condições de nossa existência.

Rezar é expandir nosso reconhecimento e nosso amor para com a Humanidade: é também pedir nobres progressos para a nossa alma. Este pedido é sempre satisfeito: porque a sincera confissão de nossos defeitos e de nossas faltas, e o ardente desejo de melhorar e purificar o nosso coração, são os penhores[4] de um êxito infalível.

A oração quotidiana nos tornará, pois, melhores, e aperfeiçoando-nos, ela será útil à Humanidade, porque este novo Grande Ser precisa do nosso concurso; e como a reza consolida e acrisola[5] esse concurso, ele aproveita com as nossas orações. O Deus criador do Universo podia prescindir das preces e das ações de graças de suas criaturas; bastavam-lhe sua onipotência e majestade. A prece do Cristão, como a do Muçulmano, só era útil a ele próprio; ao passo que a nossa oração é não só proveitosa para nós, mas ainda para a Humanidade.Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

[...]

5.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

6.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

6.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

6.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

6.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

6.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

6.2.   Outras observações:

6.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

6.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

6.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

7.     Término da prédica 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Felipe Nunes (port.): O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo, 2025).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] Tribo.

[2] Sentir antecipadamente um prazer.

[3] Emanações sutis, perfumes.

[4] Garantias.

[5] Protege.

10 março 2026

8 de Março, Dia das Mulheres (II)




Dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada

O jornal carioca Monitor Mercantil publicou em 9.3.2026 o nosso artigo "A dificuldade brasielira de lidar com a existência compartilhada".

O texto está reproduzido abaixo; o original pode ser lido aqui: https://monitormercantil.com.br/a-dificuldade-brasileira-de-lidar-com-a-existencia-compartilhada/.

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A dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada

Entre a submissão ao exterior e o nacionalismo exagerado, os extremos da existência compartilhada. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Cerimônia da troca de bandeiras do Brasil (foto de Fábio Pozzebom, ABr).

Nos anos 1930, Stefan Zweig afirmou que o Brasil seria o “país do futuro”. Ao mesmo tempo, muitos sociólogos e historiadores europeus e brasileiros afirmaram que o Brasil é um país “jovem”. Além disso, sempre ouvimos que o Brasil é um país continental.

A juventude do país pode ser avaliada não apenas pela sua história relativamente curta (a colonização sistemática do território tem apenas cerca de cinco séculos), mas principalmente devido aos desafios de infraestrutura (faltam estradas, falta integração) e de respeito à população (falta instrução, saúde etc.).

Sendo um país continental, o Brasil tem uma tendência fortíssima a concentrar-se em seus problemas internos, preocupando-se com o ambiente externo apenas e no máximo na medida em que esse ambiente externo influencia o interno.

Também temos uma preocupação imensa com as grandes potências de cada momento, em termos político-econômicos e culturais, a ponto de fazermos questão de sermos colonizados intelectual e moralmente. Nossas elites, com gosto, fazem questão de exibir seus gastos em Miami e na Europa, esnobando a produção nacional e dando a entender que quem consome produtos brasileiros vale menos ou que é um tipo pior de pessoa.

Por outro lado, desde os anos 1960, em face da mestiçagem e da miscigenação cultural brasileiras, Darcy Ribeiro propôs que o Brasil seja entendido e realize-se como uma “nova Roma”.

Por fim, em 2018, o prédio do Museu Nacional (que começou a ser construído em 1808), no Rio de Janeiro, sofreu um incêndio que o reduziu quase totalmente às cinzas. Já em 2019 a Catedral de Notre Dame (que começou a ser construído em 1163), em Paris, sofreu um incêndio; entretanto, ela não foi tão danificada quanto o nosso Palácio de São Cristóvão. Houve intelectuais de renome que disseram que a queima do Museu Nacional era muito pior que a de Notre Dame: a cultura nacional seria mais importante – e que os franceses que se danassem!

Os vários casos acima exemplificam diferentes formas de entender-se o Brasil e suas relações com a história e com outros povos. Nessa multiplicidade de situações, o que surge para nós são formas da incapacidade brasileira de lidar com a existência compartilhada – e, em particular, duas formas gerais dessa incapacidade.

A expressão “dificuldade em lidar com existência compartilhada” denota um problema mais facilmente compreensível em termos dos desvios e das degradações do nacionalismo, em que se rejeita o convívio com os outros países (e/ou outros povos, e/ou outras culturas). Mas ele é um problema não somente com os desvios do sentimento nacional, mas também com a sua ausência. Afinal de contas, não valorizar a si mesmo é um problema tão real quanto negar os outros (devido ou não à própria sobrevalorização).

A primeira modalidade, mais própria das elites, é a submissão, ou melhor, o servilismo aos outros países. Por certo que ela se baseia nos valores compartilhados, mas desconsidera, quando não despreza, a preocupação com o próprio país.

Como esse comportamento é mais próprio às elites, e elas têm grande facilidade de trânsito internacional, elas furtam-se às suas responsabilidades coletivas, produzindo resultados bastante negativos. Esta incapacidade de lidar com a existência compartilhada rejeita o próprio país; não se pode falar aí em “existência compartilhada”, na medida em que o compartilhamento pressupõe a existência do próprio país – e este comportamento despreza ou desdenha do próprio país.

A segunda forma de incapacidade de lidar com a existência compartilhada reconhece e afirma o próprio país, mas exagera tal afirmação. É claro que a força do nacionalismo depende da situação de cada país; um povo que lute por sua independência terá um nacionalismo intenso; mas um país que deseje dominar (ou conquistar) outro também será nacionalista.

Nesses casos, o problema não está em afirmar o próprio país, mas em reconhecer como legítimos os outros países (e/ou outros povos, e/ou outras culturas). Enquanto a modalidade cosmopolita de não saber lidar com a existência compartilhada baseia-se na ausência de sentimento nacional, a xenofobia e/ou o imperialismo consiste na degradação do sentimento nacional.

Em reação necessária à irresponsabilidade “cosmopolita” das elites, o nacionalismo afirma os valores e o interesse nacional. Sem tal afirmação, é impossível qualquer projeto efetivo de melhoria no país. A afirmação do sentimento nacional, portanto, é ao mesmo tempo necessária e legítima. Entretanto, com facilidade ele pode degradar-se em rejeição aos outros povos e xenofobia explícitas ou, de outra forma, na pretensão de que seríamos o renascimento da civilização.

A ideia de um país como renascimento da civilização é mais pacífica e mais generosa que a xenofobia; mas, ainda assim, o renascimento da civilização implica também a rejeição das outras sociedades, sejam as que vieram antes, sejam as que agora convivem conosco. Devemos lembrar que, no caso do Brasil, essas concepções têm o elemento adicional do ensimesmamento devido às dimensões continentais.

À primeira vista, a solução para o cínico cosmopolitismo seria o nacionalismo; mas, desenvolvido o sentimento nacional, os problemas próprios a ele com facilidade podem surgir. A solução para ambas as dificuldades para lidar com a existência compartilhada é e deve ser uma única. Aliás, o nome que estamos dando para o problema – dificuldade em lidar com a existência compartilhada – já sugere a solução necessária.

Para lidar com a degradação do sentimento nacional, não faz sentido, nem é possível, negar tal sentimento; o que deve ocorrer é sua modificação. De maneira direta, trata-se de afirmar que nenhum país existe sozinho no mundo e que todos os países do mundo desenvolvem-se ao longo do tempo, em um processo histórico que se iniciou há centenas de milhares de anos.

Em outras palavras, trata-se de afirmar com clareza e vigor a submissão moral (mas não submissão política) dos vários países à noção de Humanidade – e, além disso, da submissão da solidariedade (da existência hoje, no presente) à continuidade (da existência ao longo do tempo, na história, do passado rumo ao futuro).

Em outras palavras, sem negar a importância dos vários países e do sentimento nacional, trata-se de afirmar (em termos morais) que as pátrias não são a forma mais elevada de identidade social e política: sem tal submissão – e, sim, trata-se de uma submissão – o nacionalismo fica sem parâmetros e sujeito às piores degradações.

A noção de Humanidade tem que ser afirmada em termos morais e intelectuais; não faz sentido e não é aceitável sua conversão em uma realidade política, na forma quimérica de um “super-Estado” mundial. Todavia, por outro lado, é claro que a afirmação moral e intelectual da Humanidade tem que ter consequências políticas, a começar pela rejeição de toda violência entre as nações e pelo término de ambições expansionistas dos estados atuais (e começar pelos países que já são gigantescos, como Rússia e Estados Unidos).

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.

09 março 2026

Richard Congreve: abertura da Festa da Humanidade

Transcrevemos abaixo o belo discurso de abertura pronunciado por Richard Congreve em sua celebração anual da Festa da Humanidade. Congreve foi um dos discípulos diretos de Augusto Comte.

As referências da citação são estas:

Richard Congreve: “Apêndice: Discurso de abertura da Festa da Humanidade” (in: José Lonchampt, Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165; páginas 61-63; ortografia atualizada)). Disponível em: https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

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APÊNDICE

A exemplo dos editores franceses deste Ensaio, julgo útil ajuntar aqui uma tradução literal da prece com que o Sr. Ricardo Congreve abre todos os anos a Festa geral da Humanidade. Segui a redação inglesa, tal como vem no ú1timo discurso anual do nosso eminente confrade ele Londres. – M. L. [Nota de Miguel Lemos, tradutor do opúsculo.] 

a d a 

Com todos os centros de nossa fé onde quer que existam; com todos os seus discípulos esparsos, com os fieis de todas as outras religiões ou crenças quaisquer, Monoteístas, Politeístas ou Fetichistas, subordinando todas as distinções secundárias ao laço exclusivo de uma aspiração religiosa comum; com toda a raça humana; isto é, com o homem, onde quer que se ache e qualquer que seja a sua condição, subordinando também todas as distinções secundarias ao laço único de nossa comum humanidade; com as raças animais que foram, durante a longa e trabalhosa ascensão humana, os nossos companheiros e auxiliares, como ainda o são; estejamos hoje, nesta festa da Humanidade, unidos por uma consciente simpatia.

E não é somente com os nossos contemporâneos que devemos hoje estar em comunhão simpática, mas também e sobretudo com esta parte preponderante de nossa espécie que representa o Passado. Comemoramos com reconhecimento os serviços de todas essas gerações que nos legaram o fruto de seus labores, desejando transmitir esta herança aumentada aos nossos sucessores. Nós aceitamos o jugo dos Mortos.

Comemoramos também com gratidão todos os serviços de nossa Mãe comum, a Terra, o planeta que nos serve de morada, e com ela o orbe que forma o Sistema Solar, o nosso Mundo. Não separemos desta última comemoração a do meio em que colocamos esse sistema, o Espaço, que foi sempre tão propício ao Homem, e que está destinado, mediante uma sábia aplicação, a prestar-lhe ainda maiores serviços, pois que ele torna-se a sede reconhecida da abstração, a sede das leis superiores que coletivamente constituem o Destino do Homem, e como tal introduzido em toda a nossa educação intelectual e moral.

Do Presente e do Passado estendamos as nossas simpatias ao Porvir, às gerações futuras que com sorte mais feliz nos sucederão sobre a Terra; tenhamo-las sempre presentes ao nosso espírito a fim de completar a concepção da Humanidade, tal como nos foi revelada pelo Fundador de nossa Religião, pela plena aceitação da continuidade que constitui o Seu mais nobre característico.

A memória do maior dos servidores da Humanidade, Augusto Comte, e a dos seus três Anjos da Guarda, ocorre naturalmente nesta Sua máxima festa, consagrada principalmente à memória de todos os que A têm servido, sejam conhecidos ou anônimos, e à comemoração de todos os resultados obtidos por eles e pelos quais sobrevivem.

Oh! o mais sábio e o mais nobre dos Mestres! possamos nós que nos proclamamos teus discípulos, animados pelo teu exemplo, sustentados pela tua doutrina, guiados pelas tuas teorias, vencer todos os obstáculos que a indiferença ou a hostilidade semeia no nosso caminho; possamos nós, no meio desta época revolucionária, sem nos deixar degradar por qualquer esperança de recompensa, nem desviar por qualquer insucesso dos nossos esforços, num espírito de submissiva veneração, levar por diante a grande empresa a que consagraste a tua vida, a empresa da regeneração humana, por meio e no seio do culto sistemático da Humanidade.

José Lonchampt: excertos do "Ensaio sobre a oração"

Transcrevemos abaixo alguns trechos da "Introdução" do belo Ensaio sobre a oração, de José Lonchampt, que foi discípulo direto de Augusto Comte.

As referências da citação são estas:

José Lonchampt, Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165; páginas 11-14; ortografia atualizada). Disponível em: https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

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A Humanidade não é a espécie humana, e não compreende a universalidade dos homens: a Humanidade é a memória dos mortos inspirando e guiando os vivos; é a suma de todos os altos pensamentos, de todos os nobres sentimentos, de todos os grandes esforços, referidos a um só e mesmo Ente, cuja alma é formada por esse conjunto, e cujo vasto corpo é constituído pelos vivos. Esta influencia incessante do passado sobre o presente é tão salutar quanto necessária. Suponhamos, com efeito, uma geração humana inteiramente subtraída à influência das gerações anteriores: seria apenas uma cabilda de rudes selvagens, tremendo diante de cada novo fenômeno da natureza, e levando a ferocidade ao ponto de comer carne humana; em uma palavra, essa geração reproduziria o estado primitivo de onde a Humanidade partiu para efetuar a sua gloriosa evolução. Assim, é a esse Grande-Ser que devemos tudo quanto suaviza, eleva, nobilita e deleita nossa vida: conhecê-lo, é portanto amá-lo.

A Humanidade, tão boa para nós, tão benfazeja em relação a nós, vive no presente por meio de homens como nós: destes servidores vivos dependem sobretudo a velocidade e a segurança de sua marcha. O amor que sentimos pela Humanidade nos incitará, pois, a servi-la com zelo, a fim de apressar, tanto quanto caiba em nós, a sua progressão para esse feliz estado social, em cujo limiar as gerações atuais podem prelibar os seus mais delicados eflúvios.

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Um dos meios mais seguros de consagrarmos todos os nossos esforços ao serviço do novo Ser-Supremo consiste na pratica quotidiana da oração. Rezar à Humanidade não será pedir ao seu poder uma mudança imediata na economia real, ou implorar de sua bondade um auxilio direto no infortúnio; semelhante prece seria contrária ao conhecimento que a ciência nos ministra a respeito da suprema existência, a qual acha-se submetida, como a nossa, a leis invariáveis: a Humanidade modifica, é verdade, os fenômenos da natureza, porém de um modo lento e regular; a Humanidade vem em auxilio dos sofrimentos humanos, porem somente melhorando cada vez mais as condições de nossa existência.

Rezar é expandir nosso reconhecimento e nosso amor para com a Humanidade: é também pedir nobres progressos para a nossa alma. Este pedido é sempre satisfeito: porque a sincera confissão de nossos defeitos e de nossas faltas, e o ardente desejo de melhorar e purificar o nosso coração, são os penhores de um êxito infalível.

A oração quotidiana nos tornará, pois, melhores, e aperfeiçoando-nos, ela será útil à Humanidade, porque este novo Grande Ser precisa do nosso concurso; e como a reza consolida e acrisola esse concurso, ele aproveita com as nossas orações. O Deus criador do Universo podia prescindir das preces e das ações de graças de suas criaturas; bastavam-lhe sua onipotência e majestade. A prece do Cristão, como a do Muçulmano, só era útil a ele próprio; ao passo que a nossa oração é não só proveitosa para nós, mas ainda para a Humanidade.

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