Leitura do Apelo aos conservadores
(13
de Aristóteles de 172/10.3.2026)
1.
Abertura da prédica
2.
Datas e celebrações:
2.1.
Dia 11 de Aristóteles (8 de março): Dia
Internacional das Mulheres
3.
Algumas manifestações públicas:
3.1.
Mensagens trocadas com a Fundação Darcy Ribeiro,
a propósito da ausência de positivistas na sua “Biblioteca Básica Brasileira”, apesar da presença simultânea de monarquistas,
liberais, escravistas etc.
3.1.1.
O mesmo pode ser dito a respeito da sua
“Biblioteca Básica Latino-Americana”, mas em menor grau
3.1.2.
Recebemos resposta sem assinatura da diretoria da
Fundação reconhecendo essa limitação (embora não a justificando) e pedindo nosso
apoio em futuras publicações
3.2.
Lançamento do cartaz “O castilhismo não é fascista!”
3.2.1.
Pretensão de um movimento fascista gaúcho de
basear-se em Júlio de Castilhos para justificar o seu fascismo
3.3.
Ausência completa de resposta do Deputado Chico
Alencar, a propósito do projeto de lei que altera a bandeira nacional (PL n. 5883/2025)
4.
Comentários sobre o livro O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo, 2025), de Felipe Nunes
4.1.
Esse livro foi publicado em 2025 e apresenta os
resultados de uma pesquisa sobre hábitos e opiniões da população brasileira a
respeito das mais variadas questões: importância da família, preferências
político-partidárias, confiança nas instituições etc.
4.1.1.
É um livro pequeno, com menos de 200 páginas, de
leitura fácil e rápida, com muitos e muitos gráficos e a maior parte do texto
escrito correspondendo à descrição e à interpretação desses gráficos
4.1.2.
Como é um livro publicado, ele é orientado para
o grande consumo popular, de modo que não há as reflexões metodológicas que
sempre aparecem em pesquisas estritamente acadêmicas; além disso, o estilo de
escrita é bastante acessível; por fim, pode-se conjecturar que algumas questões
foram suprimidas dessa versão publicada, a fim de manter (ou garantir) o acesso
popular dos resultados da pesquisa
4.2.
Além das classificações em termos de gênero e
região do país, o autor considerou também a “raça” e, principalmente, as faixas
etárias
4.2.1.
Em termos de faixas etárias, já indicando alguns
dos vícios desse livro, o autor agrupou os respondentes em quatro grupos,
nomeados conforme o período de nascimento e de sociabilização básica: grupo
“Bossa Nova” (nascidos entre 1945 e 1965); grupo “Ordem e Progresso”
(1965-1985); grupo “Redemocratização” (1985-2005); grupo “Geração.Com”
(2005-2020)
4.3.
A fórmula “Ordem e Progresso” é usada para
descrever o período autoritário; em outras palavras, o autor associa direta e conscientemente o “Ordem e Progresso” – e, por
extensão, o Positivismo – aos militares e ao autoritarismo
4.3.1.
Mesmo que, por hipótese, possa-se argumentar que
tal vinculação foi inocente, o fato é que ela com certeza foi superficial e irresponsável; esse “erro inocente” o autor não comete a respeito
de outros aspectos e, de qualquer maneira, o título “Ordem e Progresso” foi
empregado em um procedimento a posteriori
e que, de qualquer maneira, pode(ria) ser alterado a posteriori: em outras palavras, o autor decidiu conscientemente
adotar a expressão “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário,
vinculando a expressão ao autoritarismo
4.3.2.
A irresponsabilidade e a superficialidade
intelectual, teórica e metodológica do autor estende-se também ao âmbito moral,
na medida em que o “Ordem e Progresso”, à parte a sua origem positivista,
integra o mais importante símbolo do país, que é a bandeira nacional; dessa
forma, ao vincular o “Ordem e Progresso” ao autoritarismo militarista, o que o
autor faz é vincular a bandeira nacional a esse autoritarismo militarista,
corroborando os preconceitos da esquerda e
da direita a respeito
4.3.3.
Embora tenha degradado o “Ordem e Progresso” e a
bandeira nacional a partir de preconceitos políticos, o autor poderia com
enorme facilidade usar outros títulos para descrever a geração nascida entre
1964 e 1985; por exemplo, “Anos de Chumbo”, “Autoritarismo”, “Regime Militar” –
ou mesmo “Segurança e Desenvolvimento”: o autor não o fez porque não quis
4.4.
Esse tipo de vício teórico está presente em todo
o livro e reflete um problema que acomete com enorme freqüência cientistas
sociais dedicados a pesquisas empíricas, especialmente as quantitativas: são
muito bons com números e com a manipulação estatística, mas são péssimos em
termos conceituais
4.4.1.
Por “péssimos em termos conceituais” o que
queremos dizer é que esses pesquisadores lidam mal com os conceitos, não raras
vezes sendo superficiais a esse respeito
4.5.
As questões expostas no livro refletem com
clareza tal superficialidade conceitual, ou melhor, tal superficialidade
teórica: o autor opõe “conservadores” a “progressistas”, em que os
conservadores são definidos como tais a partir do que a esquerda considera-o,
da mesma forma que os progressistas; assim, não apenas o autor adota sem
maiores cuidados uma classificação que é elaborada por um dos grupos sociais
que ele pesquisa (e que é elaborada contra
um outro grupo que ele também pesquisa), como o autor esposa essa classificação
da esquerda
4.5.1.
O primarismo conceitual do autor, bem como sua
adesão acrítica aos valores da esquerda, fica evidente tanto nas categorias
utilizadas por ele para estruturar a pesquisa quanto nas interpretações que ele
faz dos dados obtidos
4.5.1.1.
Em termos de categorias empregadas, por exemplo,
ele adota o conceito de “raças” e leva a sério essa categoria
4.5.1.2.
Em termos de interpretações, o autor afirma que
valorizar a família é um traço de conservadorismo (!)
4.5.2.
O autor não é explícito a respeito – ou seja,
ele não assume, em momento nenhum, tais características e, inversamente, ele
assume um certo objetivismo ligado ao seu quantitativismo –, mas a leitura
atenta do livro evidencia com grande facilidade esses vícios
4.6.
A vinculação cínica e ligeira do “Ordem e
Progresso” ao militarismo e ao autoritarismo, então, evidencia de maneira
exemplar esses vícios intelectuais e metodológicos do autor
4.6.1.
Além disso, como vimos, o autor opõe de maneira
simplista “conservadores” a “progressistas”: mais que apenas aderir de maneira
indesculpável às disputas políticas contemporâneas e transferi-las para sua
pesquisa, o que o autor faz é rejeitar qualquer possibilidade efetiva de
superar essa oposição e de realizar a união proposta pela máxima “Ordem e
Progresso” (que o autor, sem dúvida, não entende)
4.7.
Em textos de promoção comercial das obras do
autor, afirma-se que ele é um “grande” pesquisador, com uma carreira de sucesso
no Brasil e no exterior, tendo desenvolvido muitas pesquisas e elaborado um
índice que é vendido para governos e empresas
4.7.1.
À parte o exercício comercial desse tipo de
comentário, o êxito acadêmico do autor deixa claro que não há motivo nenhum
para ele cometer os erros e os vícios que comete – e ele de fato comete-os: sua
habilidade estatística e empírica poderia com enorme facilidade evitar todos os
problemas devidos ao seu primarismo teórico
4.8.
Há outros aspectos em que o livro é superficial
4.8.1.
Certamente não seria possível o autor abordar
com profundidade todos os aspectos implicados pela pesquisa; entretanto, o
autor dá certo destaque para algumas questões, sugere algumas conseqüências a
respeito dessas questões e de algumas outras, mas silencia a propósito de
outras que mereceriam (ou exigiriam) comentários e aprofundamento
4.8.2.
Um exemplo de questão a respeito da qual o autor
silencia é a chamada laicidade do Estado: o autor apresenta previamente vários
resultados importantes – que a população brasileira acredita majoritariamente
em divindades (monoteístas e politeístas) e que a população acredita no “poder
da fé” –, para em seguida afirmar que isso tem relevância para políticas
públicas, especialmente as que mobilizam mais diretamente a ciência (como as
políticas de saúde e, indiretamente, de educação), e afirmar que se “deve levar
a sério o peso das crenças populares, sob risco de as políticas públicas darem
errado”: ora, o que se quer dizer com “levar a sério as crenças populares”? O
autor silencia a respeito, mas sua omissão dá a impressão de que ele considera
que governo e Estado devem incluir nas políticas públicas essas crenças – logo,
o Estado deve deixar de lado a laicidade, o que deveria ser evidentemente
inaceitável
4.9.
Em suma, é difícil não se ficar com grande
irritação e má vontade com um livro e um pesquisador que comete erros tão
grandes e superficiais, de maneira consciente e sistemática
5.
Exortações
5.1.
Sejamos altruístas!
5.2.
Façamos orações!
5.2.1.
Hoje, em favor das orações positivistas, leremos
alguns trechos da “Introdução” ao Ensaio sobre a oração, de José Lonchampt (Rio de Janeiro, Igreja Positivista
do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165; páginas 11-14; ortografia atualizada):
[...]
A Humanidade não é a espécie
humana, e não compreende a universalidade dos homens: a Humanidade é a memória
dos mortos inspirando e guiando os vivos; é a suma de todos os altos
pensamentos, de todos os nobres sentimentos, de todos os grandes esforços,
referidos a um só e mesmo Ente, cuja alma é formada por esse conjunto, e cujo
vasto corpo é constituído pelos vivos. Esta influência incessante do passado
sobre o presente é tão salutar quanto necessária. Suponhamos, com efeito, uma geração
humana inteiramente subtraída à influência das gerações anteriores: seria
apenas uma cabilda
de rudes selvagens, tremendo diante de cada novo fenômeno da natureza, e
levando a ferocidade ao ponto de comer carne humana; em uma palavra, essa
geração reproduziria o estado primitivo de onde a Humanidade partiu para efetuar
a sua gloriosa evolução. Assim, é a esse Grande-Ser que devemos tudo quanto
suaviza, eleva, nobilita e deleita nossa vida: conhecê-lo, é portanto amá-lo.
A Humanidade, tão boa para nós,
tão benfazeja em relação a nós, vive no presente por meio de homens como nós:
destes servidores vivos dependem sobretudo a velocidade e a segurança de sua marcha.
O amor que sentimos pela Humanidade nos incitará, pois, a servi-la com zelo, a fim
de apressar, tanto quanto caiba em nós, a sua progressão para esse feliz estado
social, em cujo limiar as gerações atuais podem prelibar os
seus mais delicados eflúvios.
[...]
Um dos meios mais seguros de consagrarmos
todos os nossos esforços ao serviço do novo Ser Supremo consiste na prática
quotidiana da oração. Rezar à Humanidade não será pedir ao seu poder uma mudança
imediata na economia real, ou implorar de sua bondade um auxílio direto no
infortúnio; semelhante prece seria contrária ao conhecimento que a ciência nos
ministra a respeito da suprema existência, a qual acha-se submetida, como a
nossa, a leis invariáveis: a Humanidade modifica, é verdade, os fenômenos da
natureza, porém de um modo lento e regular; a Humanidade vem em auxílio dos
sofrimentos humanos, porém somente melhorando cada vez mais as condições de
nossa existência.
Rezar é expandir nosso
reconhecimento e nosso amor para com a Humanidade: é também pedir nobres
progressos para a nossa alma. Este pedido é sempre satisfeito: porque a sincera
confissão de nossos defeitos e de nossas faltas, e o ardente desejo de melhorar
e purificar o nosso coração, são os penhores de
um êxito infalível.
A
oração quotidiana nos tornará, pois, melhores, e aperfeiçoando-nos, ela será útil
à Humanidade, porque este novo Grande Ser precisa do nosso concurso; e como a
reza consolida e acrisola esse
concurso, ele aproveita com as nossas orações. O Deus criador do Universo podia
prescindir das preces e das ações de graças de suas criaturas; bastavam-lhe sua
onipotência e majestade. A prece do Cristão, como a do Muçulmano, só era útil a
ele próprio; ao passo que a nossa oração é não só proveitosa para nós, mas
ainda para a Humanidade.Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os
sacramentos positivos a quem tem interesse
[...]
5.3.
Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os
sacramentos positivos a quem tem interesse
5.4.
Para apoiar as atividades dos nossos canais e da
Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)
6.
Leitura comentada do Apelo aos conservadores
6.1.
Antes de mais nada, devemos recordar algumas
considerações sobre o Apelo:
6.1.1.
O Apelo
é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um
grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a
defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua
atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo,
reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os
“conservadores” a que Augusto Comte apela
6.1.2.
O Apelo,
portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige
6.1.3.
Empregamos a expressão “líderes industriais” no
lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao
Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à
atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra
6.2.
Outras observações:
6.2.1.
Uma versão digitalizada da tradução brasileira
desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores
6.2.2.
O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”,
cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”
6.3.
Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!
7.
Término da prédica
Referências
- Auguste
Comte (franc.), Síntese subjetiva
(Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.
- Augusto
Comte (franc.), Sistema de política
positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.
- Augusto
Comte (port.), Apelo aos conservadores
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.
- Augusto
Comte (port.), Catecismo positivista
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).
- Felipe
Nunes (port.): O Brasil no espelho
(Rio de Janeiro, Globo, 2025).
- José
Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.
- Luís
Lagarrigue (esp.), A poesia positivista
(Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.
- Raimundo
Teixeira Mendes (port.), As últimas
concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil,
1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i
e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.
- Raimundo
Teixeira Mendes (port.), O ano sem par
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.