09 fevereiro 2026

Desvalorização dos intelectuais no século XX

No dia 9 de fevereiro de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um artigo de nossa autoria sobre a intensa desvalorização sofrida pelo conceito de "intelectuais" no século XX. 

O original foi publicado aqui: https://monitormercantil.com.br/intelectuais-e-vida-coletiva-3/.

O texto encontra-se reproduzido abaixo.

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Sociologia (foto CrazyCloud, AdobeStock)

Intelectuais e vida coletiva – 3

Ao longo do século 20 a noção dos intelectuais foi sistematicamente desvalorizada. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.


Em nossas colunas anteriores (aqui aqui) tratamos das características gerais da atuação dos intelectuais, além da “laicidade do Estado”. As ideias gerais que procuramos transmitir são que os intelectuais atuam e devem atuar como conselheiros públicos (coletivos e individuais), a partir de valores e ideias compartilhados (ou seja, a partir da educação), sempre respeitando a dignidade individual.

O papel social dos intelectuais exige uma quantidade enorme de atributos: altruísmo e generosidade, responsabilidade moral, autonomia de julgamento, perspectiva de conjunto (histórica e social), amplos conhecimentos (filosófico-morais, científicos, artísticos), preocupação efetiva com o bem comum e com o bem-estar pessoal.

Esses atributos, para serem reunidos, exigem um esforço contínuo consciente e são necessários mesmo para tratar de questões específicas. Mesmo que isso seja custoso, nada altera tal necessidade. Não por acaso, a afirmação mais clara disso foi feita por Augusto Comte, o fundador da Sociologia, que considerava que os sociólogos devem atuar como poder espiritual, com os atributos acima.

Ora, é notável que ao longo do século 20 a noção dos intelectuais tenha sido sistematicamente desvalorizada, às vezes de maneira inesperada – com frequência, por sociólogos. Poderíamos multiplicar os exemplos, mas dois ou três são o suficiente para nós.

Comecemos com Émile Durkheim. Em 1898 ele afirmou que os intelectuais podem e devem ser “indivíduos”, ou seja, pessoas que falam publicamente sem qualquer vínculo explícito com qualquer organização; além disso, Durkheim afirmou que os intelectuais – como conselheiros públicos – não precisam ter qualquer qualificação específica para isso, podendo ser apenas cientistas compenetrados em suas atividades, seguindo com rigor o método científico.

Discutindo com pensadores católicos no âmbito do caso Dreyfus, o individualismo de Durkheim pôs-se contra a tradição filosófica própria à Igreja Católica, que reúne clérigos e o laicato. Embora fosse “progressista”, simpático aos dreyfusistas e contrário ao reacionarismo clerical-militar, a noção de intelectual como “indivíduo” proposta pelo sociólogo Durkheim, assumindo um caráter anticlericalista, era radicalmente anti-histórica e antissociológica, uma abstração socialmente etérea.

Durkheim também defendia que meramente o rigor metodológico da prática profissional dos cientistas garantiria que eles fossem bons intelectuais. Assim, um químico, como profissional da química, poderia opinar sobre a política urbana de uma cidade, mesmo que não tivesse nenhum conhecimento fora da química: à parte seus gostos pessoais, ele opinaria a respeito de aspectos lógicos das propostas urbanísticas (sentido, coerência etc.).

Com essa concepção, Durkheim apresentou-se como o porta-voz dos cientistas, que, no curso do caso Dreyfus, de modo geral eram dreyfusistas, em oposição aos literatos, que de modo geral eram antidreyfusistas. Moral e politicamente correto, essa concepção de Durkheim foi péssima, pois sacralizou o especialista palpiteiro e ignorante, que pode se sentir à vontade em torres de marfim e que está a um passo da tecnocracia.

Passemos a Pierre Bourdieu. Entre os anos 1960 e 1980, esse sociólogo sempre se mostrou ambivalente a respeito da atuação dos intelectuais e dos valores compartilhados: ele reconhecia a sua importância política, mas não assumia a legitimidade social dessa atuação. Para Bourdieu, os “intelectuais” vivem em seu mundinho, preocupados com disputas internas, relações de poder, influências, apoios a alguns, sabotagens a outros; basicamente, é nisso que consiste a atuação social dos intelectuais, para Bourdieu.

Aconselhamento, orientação, afirmação de valores? Tudo isso é meramente interesse de grupo, que, por sua vez, reduz-se ao interesse geral da classe social a que os intelectuais pertencem. Assim, Bourdieu renova a cínica concepção marxista de ideologia, em que as ideias e os valores são meramente instrumentos de disputas políticas e sociais, sem maior valor intrínseco.

A concepção de Bourdieu tem dois problemas evidentes. Por um lado, se nenhuma ideia tem valor intrínseco, as suas próprias análises não têm valor nenhum, mesmo em termos “científicos”; esse problema Bourdieu resolvia por decreto, afirmando pura e simplesmente que ele, com seu método específico, era o único científico e que todos os demais eram ideológicos.

Por outro lado, se a análise sociológica reduz-se a apresentar disputas de poder, que se limitam em si mesmas, mobilizadas por grupos e pessoas que falam coisas que não têm valor em si mesmas, então o aconselhamento público (e dos sociólogos em particular) é inútil e, de maneira mais ampla, as políticas públicas não têm nem legitimidade política nem justificativa técnico-científica.

A solução de Bourdieu para isso foi simplesmente fingir, a partir dos anos 1990, que suas concepções não têm os problemas que têm; com isso, ele passou a desdizer-se e a afirmar que é necessário, sim, que os sociólogos atuem como um poder espiritual, com perspectivas amplas e generosidade.

Um terceiro exemplo de sociólogo que negou o papel dos intelectuais é Michel Foucault. A bem da verdade, ele não negou o papel dos intelectuais, mas uniu dois traços que diminuem e descaracterizam os intelectuais.

Por um lado, para Foucault, tudo na sociedade é disputa de poder, incluindo as ideias; ou melhor, o poder cria as ideias e as verdades: assim, não existe nenhuma verdade, existem apenas relações de poder, de força, de dominação. Aliás, é essa concepção que fundamenta as afirmações atuais de que virtualmente tudo é “socialmente construído” (ou seja, tudo é criado pela vontade caprichosa e pelas relações de poder).

Por outro lado, como o conhecimento é meramente o poder manifestando-se, Foucault era contrário a concepções amplas. Refugiando-se então em perspectivas específicas, conscientemente parciais e contrárias à visão de conjunto, Foucault defendia que o bom intelectual (pós-)moderno é um especialista que despreza (por estratégia e/ou convicção) as concepções amplas sobre o ser humano.

É claro que a reunião dessas duas características conduz ao particularismo, ou melhor, ao facciosismo: não é por acaso que Foucault é reconhecido como um dos inspiradores da política identitária.

Como dissemos antes, poderíamos apresentar outras concepções de intelectuais. As ideias de Durkheim, Bourdieu e Foucault (mas não somente as deles) foram comentadas porque são de sociólogos, ou seja, por pensadores que deveriam ser sensíveis tanto à ciência quanto à política do poder espiritual. Entretanto, nesses três casos (e em inúmeros outros) as teorias são erradas (ou falsas), e as consequências políticas são ruins (quando não desastrosas).

O que fica evidente disso tudo é que o delicado equilíbrio entre realidade teórica e responsabilidade política, em termos de atuação dos intelectuais, foi obtido logo no início da Sociologia, com as concepções de Augusto Comte. O retorno ao Positivismo é urgente.

Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em Sociologia Política e sociólogo da UFPR.