28 janeiro 2009

Ele é meu e não abro!

Mudando um pouco o foco do blogue, publico trechos de um artigo escrito pela socióloga carioca Vânia Leal Cintra contra a reforma ortográfica que passou a valer em 1° de janeiro de 2009. Como ela, parece-me injustificável e inaceitável essa mudança.

* * *


Só os que se recusam a calcular a dimensão das conseqüências dos atos insanos do atual Governo me dirão que estou errada!

Senhores e Senhoras, estou lhes pedindo a atenção, a consciência e uma conduta coerente.

Alguém poderia nos dizer de repente que a pauta musical, as claves ou as colcheias são desnecessárias para que se escreva e se leia música e, por isso, por decreto, poderia pretender eliminá-las em determinada região do mundo? Por certo que não. Pois como alfabetizar em português desprezando-se a correspondência entre um som e seu símbolo gráfico?

O texto que repasso abaixo “brinca” com o banimento do trema. Mas demonstra sobejamente o absurdo da atitude de submissão absoluta às conjunturas assumida pelos membros da ABL, que aprovaram e incentivaram a "reforma" ortográfica; e reafirma a imbecilidade absoluta do Governo brasileiro, mais uma vez comprovando-se que ele é composto por semi-alfabetizados que tocam de ouvido, a começar pelo Presidente [...].

No que depender de mim, ninguém nos mata ou rouba o trema. Ele é patrimônio intelectual nacional, é parte de nossa língua escrita e falada. Hei de usá-lo e defendê-lo até a morte! Mas quem sou eu para ser garante de algo, ainda mais agindo sozinha? Defender esse patrimônio não só é um direito meu e é meu dever, como é um direito e um dever nossos, dos brasileiros todos, um direito inalienável, um dever impostergável.

Se o trema é imprescindível à nossa língua, o K, o W e o Y são signos que puderam ser inteligentemente banidos de nosso alfabeto por serem desnecessários. Uma das razões que exigem novamente a sua incorporação é a grafia, agora tornada “oficial”, dos nomes de tribos [...]. E, assim, concordamos com ressuscitar o que morto e enterrado já estava, e falta nenhuma nos fazia, para que essa gente possa, além de nos impor seus “direitos” duvidosos, impor-nos sua linguagem curta e rudimentar, artificialmente remontada para que pudesse ser reconhecida como “tradicional” em seus grupos, em nossos mapas, que passam a mostrar territórios com nomes “internacionais”, e em nossos livros escolares.

Há, no entanto, uma outra razão ainda, bastante pragmática e maldosa, para que o K, o W e o Y tenham sido recuperados. O raciocínio e também as reações são estimulados por sensações, portanto, são estimulados por palavras que possam ser ouvidas e por imagens que possam ser vistas. Do Natal sob a neve ao peru devorado em ação de graças, do automóvel em impecáveis auto-estradas aos personagens de filmes e livros de ficção ou pseudo-história real, do alimento infantil ao sabonete, das placas de descontos e promoções às de entrega em domicílio, tudo vem sendo empurrado goela abaixo do brasileiro como se ele nunca pudesse ter falado desde sempre o português ou ter vivido desde sempre no Brasil. Observamos ainda que as marcas comerciais de produtos que consumimos são, em sua maioria, estrangeiras, que muitos deles são importados, e que, na propaganda que deles se faz, dos insumos, das técnicas e dos processos de sua fabricação, tudo goza do livre direito de ser grafado em inglês e a pronúncia original se mantém.

Vivemos como se nós fôssemos a ficção e a propaganda fosse a realidade. Cada vez mais sentimos a necessidade de “ler no original”... o que cada vez mais nos entorpece a capacidade de criar e de criticar. Os nomes dos produtos e dos responsáveis por eles, cheios de Ks, Ws e Ys, que nenhum glamour possuem na língua original, mas sim, nela, têm significado objetivo e são plenos de sentido, transformam-se em palavras mágicas, de sentido misterioso e, por isso, sejam materiais ou intelectuais, por piores que sejam, esses produtos fascinam o consumidor nacional. Os sons que os anunciam são ininteligíveis à maioria da população. Os ambientes em que são apresentados são irreconhecíveis. Mas o efeito desse conjunto é irresistível. Que benefício isso nos traz? Nenhum. A nada isso atende senão aos interesses comerciais e laborais estrangeiros. Facilitando, inclusive, que as embalagens e as mesmas propagandas sejam também importadas, ou seja, facilitando que haja cada vez menos postos de trabalho no País. Não há perguntas, não há mais dúvidas. Não há necessidade de argumentos, de explicações ou de comprovações. E cada vez menos são requeridas palavras para convencer. O que cada vez mais desestimula o raciocínio lógico, e escancara o caminho a que nunca sejam ponderados os motivos que justificam o avanço de toda gente estrangeira, a quem sempre nos submetemos, sobre nós, e que todos esses motivos, por mais fúteis ou mais sórdidos, sejam aceitos sem questionamento. As imagens nos bastam, são “bonitas” e, portanto, a “essência” delas nos deve “fazer bem”.

Que língua, afinal, nossas crianças estarão aprendendo a ler, a escrever e a falar? Que língua ampara seu crescimento intelectual? Em que ambiente estão sendo treinadas a sobreviver? Que valores estão sendo induzidas a adotar?

Nesse ponto se inaugura o processo que nos leva a encontrar a submissão como um fato natural.

Da mesma forma que deveríamos defender o trema com unhas e dentes, ninguém nos deveria obrigar a utilizar um K em lugar de QU, ou, muito menos, um W em palavras em que seu som seja um U ou aceitar um Y intrometido em nossas palavras. Meu próprio nome poderia ter sido registrado com W inicial, tal como muitas Wanias têm os seus. Mesmo tendo muita simpatia pelas questões e pelos "direitos" das chamadas “minorias” ou tendo muito fascínio pela excelência da produção dos povos ditos mais desenvolvidos, ninguém será capaz de chamá-las de Uania por isso. Quando os pais de uma criança resolvem registrá-la com nomes estranhos ou quando o escrivão encarregado do registro de nascimento de alguém resolve inventar e “enfeitar” um nome próprio, com um ph, por exemplo, reconhecemos esse ato como uma invenção tola ou como pernosticismo. Mas isso não afeta o conjunto da Nação, pois estará restrito a um âmbito individual. O que não tem qualquer cabimento é aceitarmos que um signo único assuma dois sons diferentes numa mesma língua ou que um sinal inútil venha a competir com outros sinais já existentes e que se mostram suficientes, competição que apenas provoca mais confusão e cada vez menos saber.

O que hoje nos estão impondo com a “reforma” ortográfica não significa qualquer evolução, é apenas um retrocesso. E é um atentado contra nossa integridade. Em pouco tempo estaremos aceitando ler e escrever utilizando os símbolos do alfabeto fonético internacional. E nos comunicando apenas por monossílabos.

A linguagem é um valor nacional estrutural. Em vez de macular nossa grafia, de permitir que nossa linguagem seja sobrepujada por outra qualquer ou de aceitar que ela possa ser desnecessária a certos grupos étnicos ou insuficiente a certos grupos profissionais, deveríamos tratar de fortalecê-la, não permitindo que retrocedesse às condições do séc. XVI. Amanhã ou depois poderemos estar incorporando um Ñ facultativo ao abecedário porque alguns o consideram mais elegante, mais econômico ou mais “correto” ao dialeto das fronteiras. E por certo veremos ser eliminada a cedilha do C. Corremos, assim, o risco de colaborar com transformar o rico idioma de Camões, que tanto ajudamos a se desenvolver e a se impor no mundo, em um dialeto afro-indo-ibérico, um linguajar de “tribo”, absolutamente desestruturado, que nos diminuirá e nos desestruturará como Nação, impedindo, para júbilo daqueles que acreditam que os recursos do mundo existem para que sejam partilhados entre os poucos que demonstrem possuir e exercer mais poder, que defendamos o que a nossa história permitiu que fosse nosso e assim nosso deverá permanecer.

Senhores e Senhoras, estou lhes pedindo a atenção, a consciência e uma conduta coerente.

Não podemos permitir que tantas tolices que são verdadeiros crimes contra o patrimônio nacional se façam com nossa conivência, apostando nos resultados de nossa inércia.

É preciso que nos organizemos e entremos urgentemente com uma ação coletiva na Justiça contra essa "reforma" ortográfica estúpida.

Talvez caiba um Mandado de Segurança, não sei, não sou do ramo.

Mas quem puder que ajude, com seu saber e sua habilitação profissional, de alguma forma, o nosso País e todos nós, brasileiros, a nos manter de pé — em vez de apenas lamentar os prejuízos que vamos acumulando momento a momento, acreditando que a responsabilidade por eles não lhe cabe ou que, individualmente, estará a salvo deles. Não podemos mais permanecer assistindo coisas estúpidas acontecendo, conforme a vontade pretensamente “soberana” das autoridades governamentais, e a nos considerar impotentes sem que tenhamos ao menos tentado evitá-las ou revertê-las.

Só os que se recusam a enxergar a dimensão das conseqüências dessa "reforma" sobre a expectativa de manutenção e afirmação de nossa unidade e dos valores e recursos nacionais poderão me dizer que estou errada!

Ou aqueles a quem nada disso importaria.

Vania

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