A espiritualidade positiva 2
(7 de Arquimedes de 171/1.4.2025)
1. Abertura
2. Exortações
iniciais
2.1. Sejamos
altruístas!
2.2. Façamos
orações!
2.3. Como
somos uma igreja, ministramos os sacramentos: quem tiver interesse, entre em
contato conosco!
2.4. Precisamos
de sua ajuda; há várias maneiras para isso:
2.4.1. Divulgação,
arte, edição de vídeos e livros! Entre em contato conosco!
2.4.2. Façam o
Pix da Positividade! (Chave pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)
3. Datas
e celebrações:
3.1. Dia
4 de Arquimedes (29.3): nascimento de David Carneiro (1904 – 121 anos)
3.2. Dia
9 de Arquimedes (3.4): nascimento de Clotilde (1815 – 210 anos)
3.3. Dia
11 de Arquimedes (5.4): transformação de Clotilde (1846 – 179 anos)
3.4. Dia
14 de Arquimedes (8.4): evento conjunto Igreja Positivista Virtual e Igreja
Positivista do Rio Grande do Sul – parte 1: Felipe Zorzi: “EUA vs. China”
3.4.1. Em
virtude desse evento, não haverá prédica no dia 8.4
3.5. No
dia 21 de Arquimedes (15 de abril) passaremos a transmitir as prédicas pelo Instagram
(Instagram.com/IgrejaPositivistaVirtual),
no lugar do Facebook (Facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual)
3.5.1. Manteremos
a transmissão pelo Youtube, que é o nosso canal principal (Youtube.com/ThePositivism)
3.5.2. Além
disso, é claro que manteremos as atividades em nosso canal do Facebook
4. Leitura
comentada do Apelo aos conservadores
4.1. Antes
de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:
4.1.1. O Apelo é um manifesto político e
dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que
tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo
devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo
tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são
esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela
4.1.1.1.
O Apelo,
portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige
4.1.1.2.
Empregamos a expressão “líderes industriais” no
lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao
Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à
atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra
4.2. Uma
versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos
e publicada em 1899, está disponível no Internet
Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores
4.3. O
capítulo em que estamos é a “Primeira parte”, cujo subtítulo é “Doutrina
apropriada aos verdadeiros conservadores”
4.4. Passemos,
então, à leitura comentada do Apelo aos
conservadores!
5. Sermão:
a espiritualidade positiva, parte 2
5.1. No
dia 14 de Aristóteles (11.3) fizemos uma prédica sobre a espiritualidade
positiva
5.1.1. O tema é
amplo e vários aspectos podem ser apresentados a mais e/ou desenvolvidos: daí
esta nova prédica sobre esse tema
5.1.2. Concentrar-nos-emos
aqui à espiritualidade positiva, referindo-nos às espiritualidades teológica,
metafísico-espiritualista ou metafísico-materialista apenas a título de
comparação, quando necessário
5.2. Repetiremos
inicialmente algumas coisas ditas na prédica anterior que dedicamos ao tema da
espiritualidade
5.2.1. O objetivo
da espiritualidade positiva é a harmonia,
que deve realizar-se, na medida das possibilidades e em todos os âmbitos da
existência humana
5.2.1.1.
Quando falamos em “todos os âmbitos da
existência humana”, consideramos o seguinte: uma perspectiva geral da realidade (a visão de conjunto), que implica por sua vez uma concepção e uma
regulação geral e coordenada da existência humana, em vários aspectos: (1)
afetivos, intelectuais e práticos; (2) objetivos e subjetivos; (3) coletivos e
individuais; (4) estáticos e dinâmicos; (5) de passado, futuro e presente
5.2.1.2.
Não podemos deixar de mencionar em particular o relativismo, que é o que permite
apreciarmos e valorizarmos, sem incoerência, as espiritualidades anteriores,
entendendo-as em particular como formas necessárias, mas transitórias e já
exaustas
5.2.1.3.
É importante destacar e enfatizar que, ao
contrário das espiritualidades anteriores, a espiritualidade positiva orienta a
vida individual, mas não a separa da existência coletiva; mais do que isso: sem
negar um espaço legítimo e necessário para a privacidade e para a vida
doméstica, não há uma separação radical entre o público e o privado, de tal
maneira que o privado prepara-nos para a vida pública e a vida pública
consolida e desenvolve o privado
5.2.1.4.
O cérebro certamente é individual, mas isso não
estabelece o individualismo: o ser humano – e, portanto, o cérebro humano, ou
seja, a alma humana – só se constitui, desenvolve e amadurece a partir das
relações com o ambiente, em particular e acima de tudo o ambiente social, ao longo de toda a vida (incluindo
aí, é claro, a vida subjetiva)
5.2.1.4.1.
A respeito do cérebro, Augusto Comte elaborou a
concepção de que ele é uma “placenta dupla”, que nos liga ao passado e
prepara-nos para o futuro (Cartas para o dr. Audiffrent)
5.2.2. Essas múltiplas
relações todas foram indicadas por Augusto Comte no início de algumas de suas
obras:
5.2.2.1.
De maneira breve, no Catecismo positivista (final da “1ª Conferência”, p. 67): “[...] A
religião positiva abraça ao mesmo tempo as nossas três grandes construções
contínuas, a poesia, a filosofia e a política. A moral, porém, aí domina
sempre, quer o surto de nossos sentimentos, quer o desenvolvimento de nossos
conhecimentos, quer o curso de nossas ações, de modo a dirigir sem cessar nossa
tríplice pesquisa do belo, do verdadeiro e do bom”
5.2.2.2.
De maneira breve, no Apelo aos conservadores (começo da “Primeira Parte”, p. 27): “[...]
É tão impossível ficarmos relativos sem nos tornarmos simpáticos como [é
impossível] ficarmos orgânicos sem nos tornarmos relativos, sobretudo a
respeito do campo principal de nossas concepções [o ser humano], em que só o
amor nos dispõe a construir e nos permite apreciar”
5.2.2.3.
De maneira mais longa, na Síntese subjetiva (início da “Introdução”, p. 1-2): “Subordinar o
progresso à ordem, a análise à síntese e o egoísmo ao altruísmo; tais são os
três enunciados, prático, teórico e moral, do problema humano, cuja solução
deve constituir uma unidade completa e estável. Respectivamente próprios aos
três elementos da nossa natureza, esses três modos distintos de formular uma
mesma questão são não apenas conexos mas equivalentes, vista a dependência
mútua entre a atividade, a inteligência e o sentimento. Malgrado sua
coincidência necessária, o último enunciado ultrapassa os dois outros, como
sendo o único relativo à fonte direta da comum solução. Afinal, a ordem supõe o
amor e a síntese não pode resultar senão da simpatia: a unidade teórica e a
unidade prática são então impossíveis sem a unidade moral; assim, a religião é
tão superior à filosofia quanto à política. O problema humano pode finalmente
se reduzir a constituir a harmonia afetiva, ao desenvolver o altruísmo e
comprimir o egoísmo: desde então o aperfeiçoamento subordina-se à conservação e
o espírito de detalhe, ao gênio de conjunto”
5.3. A
espiritualidade positiva busca a harmonia: ora, essa harmonia é obtida por meio
da subordinação do egoísmo ao altruísmo
5.3.1. Mas,
quando falamos da subordinação do egoísmo ao altruísmo, por vezes isso fica um
pouco abstrato, etéreo: assim, convém esclarecer esse aspecto
5.3.2. Cada
pessoa tem suas particularidades e sua vida; ao viver, suas necessidades, suas
preocupações, seus projetos são bastante concretos (mesmo quando são questões
mais intelectuais)
5.3.2.1.
Além disso, cada pessoa vive a própria vida e
ninguém mais pode vivê-la; cada pessoa deve viver a própria vida: em última
análise não tem opção de não a viver e, por isso, cada um tem a legitimidade de
ser quem é
5.3.2.2.
Esse aspecto fundamental da vida de cada um foi
enfatizado pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset, ainda que ele tenha
utilizado sempre um esquema metafísico para descrevê-lo (é a sua metafísica
vitalista)
5.3.2.3.
Na “Carta filosófica sobre a proteção patrícia”,
que é a carta de Augusto Comte a John Stuart Mill de 15 de dezembro de 1845 que
lemos nas duas prédicas anteriores (https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/03/sobre-protecao-dos-ricos-e-poderosos-ao.html
e https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/03/protecao-patricia-ao-sacerdocio-parte-2.html),
vemos com clareza Augusto Comte afirmando a legitimidade de suas necessidades,
de suas pretensões, de suas cobranças institucionais
5.3.3. Ora, cada
um dever viver a própria vida, cada um ter a legitimidade para ser quem é –
isso corresponde precisamente à individualidade, ou melhor, nos termos
positivistas, isso corresponde à personalidade, ou ao egoísmo
5.3.4. Assim, em
si mesmo o egoísmo não é algo errado; não devemos pedir licença para vivermos e
sermos quem somos
5.3.5. Mas, por
outro lado – e é essa a questão central para a Religião da Humanidade – a
legitimidade do egoísmo não equivale nem pode equivaler ao descontrole do
egoísmo: ora, o egoísmo só pode ser controlado e disciplinado por meio da
afirmação do altruísmo
5.3.6. A
afirmação do altruísmo deve ocorrer sempre; mas convém insistir: tal afirmação
não nega o egoísmo, isto é, não nega a legitimidade do egoísmo: na medida em
que continuamos a viver e a existir, nossas necessidades individuais e
familiares continuam existindo, assim como o nosso temperamento e nosso caráter
continua vigendo
5.3.7. A
afirmação do altruísmo consiste, assim, em (1) fazer valer os princípios altruístas
e em (2) orientar o egoísmo de maneira altruísta
5.3.7.1.
A orientação altruísta do egoísmo refere-se por
sua vez aos meios empregados e aos objetivos buscados
5.3.7.2.
Uma outra forma de entender a afirmação do altruísmo,
em termos mais diretamente positivistas, é por meio da ternura (desenvolvimento do altruísmo) e da pureza (compressão do egoísmo)
5.3.8. Assim, ao
longo da vida de cada um, temos em um primeiro momento a afirmação do egoísmo
e, depois, a afirmação do altruísmo
5.3.8.1.
A afirmação do egoísmo e a afirmação do altruísmo,
embora tenham ocorrido nessa seqüência em termos históricos, não precisa mais
ser assim após a tríplice transição ocidental e o desenvolvimento das pesquisas
neurocientíficas; isso significa que pelo menos desde o século XIX o
desenvolvimento do egoísmo pode e deve ser feito em conjunto com o
desenvolvimento do altruísmo
5.3.8.2.
Esse desenvolvimento simultâneo do egoísmo e do
altruísmo é muito claro no caso das crianças: a infância é uma fase em que, por
definição, a individualidade desenvolve-se: ora, as melhores pedagogias têm
clareza de que essa individualidade deve ser desenvolvida ao mesmo tempo em que
ela é orientada para o altruísmo, ou seja, para o respeito aos demais, para a
empatia, para a tolerância, para a cooperação etc.
5.3.9. A relação
entre o egoísmo e o altruísmo é chamado por Augusto Comte de “o grande problema
humano”: esse é o problema fundamental com que o ser humano tem que lidar;
todas as outras questões vinculam-se ou referem-se, de maneira ou de outra, a
essa questão
5.3.9.1.
Estamos insistindo muito nessa questão porque no
Ocidente temos a concepção – na verdade, o preconceito – de que o ser humano é
somente egoísta e que o altruísmo é uma forma disfarçada de egoísmo; em outras
palavras, no Ocidente consideramos que todos são sempre egoístas e que o altruísmo
não existe de verdade
5.3.9.2.
Esse preconceito, de origem cristã, é mantido e
repetido pela direita (cristã e/ou liberal) e pela esquerda (especialmente a
marxista, mas também as esquerdas revolucionárias e as pós-modernas)
5.4. Um
aspecto da espiritualidade positiva com que todos nós – isto é, todos os seres
humanos – temos que lidar com freqüência é o da “pedagogia do erro”, ou a
“pedagogia do fracasso”
5.4.1. Ao longo
da vida cometemos erros, enfrentamos dificuldades, padecemos da dor: tudo isso
é desagradável e por vezes é ruim, mas, enfim, viver é ter que lidar com isso
5.4.2. Podemos
dizer muita coisa sobre isso, mas queremos insistir em um aspecto em
particular: bem ou mal, precisamos errar, precisamos até sofrer para podermos
aprender a lidar com essas dificuldades e, daí, para amadurecer
5.4.3. Amadurecer
em grande parte consiste em aprender a lidar com essas dificuldades e esses
problemas
5.4.4. Mas não se
trata só de aprender a lidar com esses problemas: trata-se também de aprender a
valorizar o que é bom
5.4.4.1.
Aliás, aprender a lidar com os problemas implica
também aprender a não negar o que é bom
5.4.5. Como a
respeito de muitos outros aspectos, a vida de Augusto Comte é exemplar a esse
respeito: Clotilde de Vaux era realmente u’a mulher excepcional; mas Augusto
Comte só foi capaz de perceber em toda a extensão e a profundidade essas
qualidades de Clotilde devido aos longos e profundos sofrimentos de que ele
padeceu em seu casamento com Carolina Massin
5.4.6. Em outras
palavras: não se trata de buscarmos o erro, ou o fracasso, ou a dor, mas de
reconhecermos que eles fazem parte da vida, que podemos e devemos aprender com
eles e que, nesse aprendizado, devemos aprender a reconhecer, valorizar e
buscar o que é bom, verdadeiro e belo
5.4.6.1.
A sabedoria prática resumiu esse aspecto na
seguinte fórmula: “mudar o que é possível mudar, resignar-se ante o que não se
pode mudar e saber distinguir um do outro”
5.5. Outro
aspecto com que a espiritualidade positiva tem que lidar é a simpatia como
princípio e o egoísmo como realidade
5.5.1. Esse é um
problema real, concreto e cotidiano: com freqüência queremos ser altruístas,
gentis, simpáticos, mas as pessoas com quem lidamos não têm reciprocidade
5.5.2. O problema
que surge, na verdade, é se é correto, ou se faz sentido, manter o primado da
simpatia e do altruísmo; uma outra forma de entender esse problema é o
seguinte: as pessoas de modo geral são altruístas ou egoístas?
5.5.3. A
resposta, ou melhor, a orientação da Religião da Humanidade é a seguinte:
5.5.3.1.
Os seres humanos são ao mesmo tempo egoístas e
altruístas; o egoísmo é mais forte e em maior número, mas estimulado o
altruísmo vence e dirige o egoísmo
5.5.3.2.
Devemos então adotar como parâmetro geral a
simpatia e o altruísmo, estando atentos para o comportamento alheio, se é
altruísta ou egoísta; em outras palavras, devemos supor que todos são
altruístas até que provem em contrário
5.5.3.2.1.
Augusto Comte adotava precisamente esse
princípio, mais ou menos nesses termos, como vemos em sua correspondência
5.5.3.3.
No fundo, trata-se da distinção entre teoria e prática: a teoria são sempre princípios
gerais abstratos, que são postos à prova, empiricamente, na prática
5.6. Feitos
os comentários acima, convém lembrarmos o quadro da alma humana de Augusto
Comte
5.6.1. O quadro
da alma humana, elaborado por Augusto Comte em 1850, permite completar as
lacunas mútuas que a neurociência e a psicologia (em particular das inúmeras
metafísicas da psicanálise) deixam há quase 200 anos: no caso da neurociência,
há um excesso de empirismo e falta de teoria da natureza humana; no caso da psicologia
(e da psicanálise em particular), há um excesso de teoria e uma falta brutal de
empirismo
5.6.2. A partir
das investigações de Bichat, Gall, Spurtzheim e Broussais, Augusto Comte
determinou 18 funções elementares: dez motores afetivos, cinco funções intelectuais
e três qualidades práticas
5.6.2.1.
Os motores afetivos são os sete órgãos pessoais
– do interesse (instintos nutritivo, sexual, materno, militar e industrial) e da ambição (orgulho e vaidade) – e os três órgãos sociais (apego, veneração e bondade)
5.6.2.2.
As funções intelectuais são a concepção passiva
(contemplação – concreta ou abstrata),
a concepção ativa (meditação – indutiva
ou dedutiva) e a expressão
5.6.2.3.
As qualidades práticas são a atividade (coragem e prudência) e a firmeza (perseverança)
5.7. A
espiritualidade positiva é ao mesmo tempo afetiva, intelectual e prática
5.7.1. A parte
afetiva consiste tanto na motivação
fundamental do ser humano quanto o objetivo
geral das nossas atividades
5.7.1.1.
Nós somos impulsionados pelos sentimentos para
satisfazer esses sentimentos
5.7.2. A parte intelectual
corresponde em parte a um instrumento,
em parte a uma necessidade específica
5.7.2.1.
Como instrumento, a inteligência serve para
conhecermos e entendermos o mundo, para daí agirmos
5.7.2.2.
Como necessidade específica, conhecer e entender
o mundo, saber o que existe e o que acontece ao nosso redor: isso é uma
necessidade específica que deve ser satisfeita
5.7.3. A parte
prática é tanto um instrumento quanto
um regulador da espiritualidade
positiva
5.7.3.1.
A atividade prática é um instrumento porque é
ela que realiza e concretiza os sentimentos e as idéias
5.7.3.2.
A atividade prática é um regulador porque é ela
que estabelece os parâmetros da utilidade
5.7.4. É
necessário notar que por mais que tenha necessariamente aspectos passivos, a
espiritualidade positiva no seu conjunto é ativa: é por meio da atividade que
realizamos a harmonia
5.7.4.1.
Como é pela atividade que realizamos a harmonia,
essa obtenção da harmonia ocorre de maneira dinâmica, não estática
5.7.4.2.
O caráter ativo da espiritualidade positiva deve
ser contraposto a várias formas místicas de espiritualidade teológica e
espiritualista, que assumem aspectos passivos, em particular nas suas formas
monásticas (de monges e mosteiros), que exigem o afastamento do mundo e da
sociedade e buscam a contemplação
5.7.4.2.1.
Em outras palavras, o aspecto prático da espiritualidade
positiva ao mesmo tempo (1) evita em particular o misticismo e (2) estimula a
sociabilidade humana (e, daí, o altruísmo)
5.7.4.3.
O aspecto prático da espiritualidade positiva
fica evidente na mesma fórmula que combina a espontaneidade com a
sistematicidade: “agir por afeição e pensar para agir”
5.7.5. Por fim,
vale notar que a atividade prática como instrumento e como regulador impede que
o Positivismo seja um quietismo
5.7.5.1.
Há pessoas, mesmo algumas que se dizem
positivistas, que criticam a separação entre teoria e prática e criticam também
a exigência lógica, moral e sociológica de que a preparação cultural deve
anteceder a atuação política do Positivismo: não há quietismo em nada disso,
apenas o reconhecimento de que mudanças políticas rápidas são sempre
superficiais e com freqüência violentas, além de exporem ao ridículo o nosso
programa
5.7.5.2.
Quem nos acusa de quietismo defende, na verdade,
um “agitacionismo” ultrapolitizado próprio aos partidos políticos e/ou ao
revolucionarismo; isso é o exagero e a desregulação da atividade prática, assim
como o academicismo é uma forma de exagero e desregulação da inteligência e o
misticismo, dos sentimentos
5.8. A
partir da experiência histórica, seja espontânea, seja sistemática, das
religiões anteriores, o Positivismo adota e positiva uma série de instituições,
procedimentos, práticas:
5.8.1. Alguns
aspectos litúrgicos da Religião da Humanidade realizam diretamente a
espiritualidade positiva, além de sempre nos estimularem e prepararem para essa
mesma espiritualidade
5.8.1.1.
A oração positiva, os anjos da guarda
5.8.1.2.
Os sacramentos positivos, em número de nove
5.8.2. A
incorporação do fetichismo à positividade, em termos afetivos, intelectuais e
práticos
5.8.3. As
propostas de culto positivista feitas por Richard Congreve e Raimundo Teixeira
Mendes
5.9. Para
concluir: o conjunto da Religião da Humanidade e da espiritualidade positiva
indicam com clareza que, com o Positivismo, toda
a existência humana passa a ter ou volta a ter significado
5.9.1. Como Teixeira
Mendes dizia com freqüência, a partir de Augusto Comte, “nada é indiferente
para os sentimentos”
5.9.2. A
espiritualidade da Religião da Humanidade satisfaz o ser humano em sua
inteireza, em todos os seus aspectos: na vida privada e na vida pública; em
termos afetivos, intelectuais e práticos
5.9.3. Muitos
criticam-nos:
5.9.3.1.
Os materialistas, os cientificistas e também
vários metafísicos espiritualistas acusam-nos de estabelecermos uma
“clericalização geral da existência”; mas esses são os mesmos que criticam que
o “capitalismo” transforma o mundo em algo sem alma, sem espírito, em que a
existência humana é reduzida a atos mecânicos e sem sentido nenhum (liberais,
marxistas, neokantianos, fenomenológicos – e também os positivistas
heterodoxos, ou melhor, os positivistas incompletos)
5.9.3.2.
Os teológicos criticam-nos porque, para eles, o
Positivismo teria dado um sentido caricato ao mundo; em outras palavras, os
teológicos consideram que somente as ficções teológicas podem conferir sentido
ao mundo (católicos, protestantes)
5.9.3.3.
Como é habitual e como não poderia deixar de
ser, teológicos e metafísicos com freqüência unem-se contra o Positivismo e
misturam seus argumentos, mesmo que essa mistura seja incoerente (Weber, Jean
Lacroix)
5.9.3.3.1.
Nos dias atuais não entendemos direito a
espiritualidade antiga, nem o seu caráter amplo; podemos entendê-la um pouco no
livro O nome da rosa, de Umberto Eco
5.9.3.3.2.
Os materialistas e os academicistas costumam
fingir que a ciência é, por si só, uma espiritualidade adequada; mas como o
físico e filósofo Paul Feyerabend indicou (A
ciência em uma sociedade livre), a ciência é insuficiente e, a esse
respeito, é bem inferior à teologia
5.9.3.3.3.
Os academicistas das ciências humanas também
fingem que as ciências humanas, por si sós, são suficientes; mas, embora
superiores às ciências naturais, elas por si sós não constituem uma
espiritualidade, pois consideram só a inteligência e não satisfazem, não
estimulam nem regulam os sentimentos, a atividade prática e mesmo a
inteligência
5.9.3.3.4.
Os revolucionários e os politicistas também
fingem que seu ativismo é satisfatório: marxistas, feministas, revolucionários
racialistas, nacionalistas, militaristas etc. todos sacrificam os sentimentos
(em particular o altruísmo) e a inteligência em favor do ativismo político e de
variados egoísmos
5.9.4. Ora, a
Religião da Humanidade é de fato uma
espiritualidade – e uma espiritualidade completa:
ela dá sentido ao mundo, dá valor à realidade, dá orientação a todos e a cada
um de nós; ela estimula o pertencimento, regula o egoísmo e estimula o
altruísmo
5.9.4.1.
A Religião da Humanidade dá os motivos e os
meios para combater o “capitalismo” sem alma; ela reverte radicalmente o
“desencantamento do mundo”; ela substitui com enorme folga as ficções divinas
5.9.4.2.
Com a Religião da Humanidade, todas as nossas
ações, todos os aspectos da nossa vida ganham sentido, das menores às maiores;
com isso, temos parâmetros efetivos para viver bem, para sermos felizes, para
praticarmos o bem – e, inversamente, para determinar o mal e evitá-lo e/ou
combatê-lo
6. Exortações
finais
6.1.
Devido
ao adiantado da hora, não apresentamos as exortações finais
7. Término
da prédica
Referências bibliográficas
Agliberto Xavier (port.):
“Introdução”. In: Jorge Audiffrent: Opúsculos sobre o catolicismo
Augusto Comte (franc.): Sistema de política positiva
Augusto Comte (port.): “Cartas sobre a doença”
Augusto Comte (port.): Apelo aos conservadores
Augusto Comte (port.): Catecismo positivista
Jorge Audiffrent (franc.): Das doenças do cérebro e da inervação
Jorge Audiffrent (franc.): Do cérebro e da inervação
Jorge Audiffrent (port.): Opúsculos sobre o catolicismo
José Ortega y Gasset (port.): Em torno a Galileu
Paul Feyerabend (port.): A ciência em uma sociedade livre
Raimundo Teixeira Mendes (port.): O ano sem par
Raimundo Teixeira Mendes (port.): O culto católico
Ricardo Congreve (ingl.): Ensaios – discursos políticos, sociais,
religiosos e históricos – 3 volumes
Umberto Eco (port.): O nome da rosa