08 agosto 2017

Entrevista sobre o Positivismo: maçonaria, política, pseudociência, Brasil, mérito

A entrevista abaixo foi feita por meio de correio eletrônico, por Daniel Araújo, bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Paraíba (campus de Campina Grande). Ela foi realizada em três partes: em 21.11.2016, em 30.11.2016 e em 21.6.2017. Como é possível ver, ela aborda uma grande quantidade de temas e questões: a maçonaria, o socialismo, a política em geral e no Brasil em particular, as pseudociências, a violência e assim por diante.

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Boa tarde, Prof. Gustavo Lacerda – tudo bem? Vi seu trabalho na internet e seu Lattes. Estou estudando R.I. (Relações Internacionais, quase concluído), fazendo TCC sobre o primeiro ministério da república. Tenho algumas dúvidas importantes e gostaria da ajuda de um especialista. Independente disso, desde adolescente acho que o positivismo é muito ignorado nas escolas e gostaria de compreender melhor.

Minha pesquisa diz que quase todo o primeiro ministério da república brasileira era maçom, mas diz também que muitos desses maçons eram positivistas. Vi autores dizerem que o positivismo é de linha ateísta por obrigação, e outros dizerem que e agnosticista por sentido de libertação da religião (o que me pareceu mais correto), e segundo minha pesquisa, acreditar em algum criador é pré-requisito para ser aceito na maçonaria. Pode me explicar isso ou indicar alguma referência?

Uma observação preliminar: o que eu entendo por “Positivismo” é a doutrina elaborada por Augusto Comte, incluindo aí a chamada Religião da Humanidade. Há várias outras correntes chamadas de positivismo, isto é, autodenominadas assim ou chamadas dessa forma por críticos ou comentadores. O “positivismo lógico”, o chamado “positivismo” em RI e nas Ciências Sociais etc. – nada disso eu entendo por “Positivismo”, o que pode não ser o seu caso. (Um amigo meu, que também cursou RI (na Uninter, aqui em Curitiba), chegou à conclusão de que, no âmbito de RI, o Positivismo, de Comte, aproxima-se mais do “pós-positivismo” que do que se chama de “positivismo” nessa área.)

Uma mente livre que busque o ideal positivista pode usar alguns valores da religião cristã (ou mesmo de outras) ou necessariamente o indivíduo deve evoluir para um estado de agnosticismo por ser toda forma de religião uma forma de superstição e mitologia? Em seu blog, o senhor diz: “a emancipação em relação à teologia é condição necessária, mas é não é nem suficiente nem pode ser o estado permanente do ser humano”. Gostaria de entender melhor.

Antes de mais nada, o Positivismo não é um ateísmo. Por que não? Porque o ateísmo é uma negação de deus. Essa negação apresenta vários problemas:

1)      embora a idéia de deus (ou melhor, de deuses) não faça sentido em termos empíricos, isto é, embora a experiência prática reiteradamente indique que não há nada que se possa entender como intervenção divina na existência humana, ao mesmo tempo não há como provar que não há essa atividade subjacente.

2)      O ateísmo nega uma resposta – as divindades – mas mantém a pergunta: “de onde viemos?” ou “para onde vamos?”. O problema é que essas perguntas têm como resposta, no final das contas, a idéia de deus, que, como foi visto, não é defensável empiricamente, nem muito menos racionalmente (ou até moralmente).

3)      O ateísmo concentra-se em negar a idéia de deus, quando o que importa de fato para o ser humano é a valorização do ser humano como um ser histórico, social e moral, em que o desenvolvimento histórico permite e, em grandes linhas, conduz ao pacifismo, à atividade colaborativa e ao altruísmo.

4)      O ateísmo de modo geral conduz ao individualismo mais rasteiro, negando o caráter social do ser humano e, a partir daí, o seu caráter histórico.

O conjunto das observações acima indica que o Positivismo é um humanismo agnóstico. Isso significa, de modo mais prático, que a emancipação relativamente à teologia é uma condição, isto é, é uma etapa preliminar, mas não consideramos que o objetivo da emancipação seja negar a teologia, mas, muito mais, ela consiste em valorizar o ser humano. A lei dos três estados intelectuais (a sucessão dos modos de interpretar teológico, metafísico e positivo) indica isso: não se trata de negar a teologia e/ou a metafísica, mas de valorizar a positividade e, portanto, o ser humano.

Você usou a expressão “mente livre”: sociologicamente, isso não existe. Para o Positivismo, o que há como ideal é a positividade, que é o conhecimento da realidade moral, social e cósmica; o desenvolvimento do altruísmo e a orientação altruística do egoísmo; a atividade pacífica orientada para o melhoramento da condição humana.

Falei várias vezes em “historicidade do ser humano”: para o Positivismo, isso não quer dizer apenas que o ser humano desenvolve-se em um ritmo talvez próximo à idéia sociológica da path dependency, mas que há uma acumulação ao longo da história. Acumulação do quê? De experiências, de idéias, de valores e, é claro, de tecnologias e de riquezas. Mas é importante notar que, bem ou mal, só chegamos aonde estamos porque passamos pelas etapas anteriores. Em outras palavras, só é possível estarmos em uma sociedade mais positiva, mais fraterna, mais pacífica, porque atravessamos milênios e inúmeras sociedades e valores que nos orientavam para a teologia, para a guerra, para o particularismo. Mais do que isso: sem passarmos por essas etapas anteriores, não seria possível chegar aonde chegamos. Assim, por exemplo, só vivemos em uma época em que a idéia de humanidade é um princípio normativo em nível global porque, antes, passamos por associações familiares, depois citadinas (das cidades, das pólis), depois nacionais.

Sem querer voltar a essas experiências anteriores, é necessário que elas sejam respeitadas e valorizadas. Bem entendido, essa valorização não é um convite ao retorno a elas: não faz sentido, não é praticável e não é moral voltarmos a sociedades familistas (como as descritas por Fustel de Coulanges em A cidade antiga) quando nós vivemos em uma sociedade que almeja a humanidade e que tem instituições como a ONU para isso. Desse modo, a valorização é de caráter histórico ou até antropológico: não se trata de encarar essas sociedades como peças de museu, como coisas externas a nós mesmos, mas como etapas de nossa própria existência, a que podemos aceder subjetivamente para compreendê-las e, eventualmente, para utilizar aspectos positivos delas.

A partir dos valores e das idéias acima, o humanismo positivista respeita e valoriza o cristianismo, entendendo-o como uma etapa necessária na evolução específica do Ocidente. Além disso, mais que uma valorização abstrata, o Positivismo considera que o cristianismo permitiu durante a Idade Média a separação entre a igreja e o Estado, a emancipação e a valorização da mulher, a emancipação dos servos da gleba e um princípio geral de coordenação política – isso para não citar as obras artísticas. Trata-se, portanto, de uma valorização humanista, enfatizando os aspectos humanos do cristianismo; as questões teológicas são simples e resolutamente deixadas de lado (exceto como etapas do desenvolvimento intelectual).

Os humanistas, de modo geral, tendem a concordar com essas perspectivas do Positivismo. Os movimentos humanistas dos EUA, da Europa e da América Latina têm esse viés, como se pode ver, de certa forma, no livro do Christopher Hitchens, Deus não é grande. Em contraposição – e confirmando o que observei no início desta resposta -, os ateus apresentam um comportamento bastante agressivo e destruidor, de modo geral rejeitando sem maiores considerações a história humana e adotando um racionalismo cru, individualista e anistórico.

(Sobre a concepção de historicidade no Positivismo, publiquei há pouco um capítulo no livro Curso livre de teoria política, lançado pela editora Appris; envio em anexo esse texto, intitulado “Violência e política em Comte”.)

Existiram mesmo positivistas maçons no primeiro ministério da república? Isso é possível?

O primeiro ministério republicano tinha oito pessoas:

1)      Marechal Deodoro;

2)      Aristides Lobo;

3)      Rui Barbosa;

4)      Benjamin Constant;

5)      Eduardo Wandenkolk;

6)      Campos Salles;

7)      Demétrio Ribeiro;

8)      Quintino Bocaiúva

Dessas oito pessoas, eram positivistas apenas Benjamin Constant e Demétrio Ribeiro. O gaúcho Demétrio Ribeiro não era maçom; talvez Benjamin Constant tivesse sido, embora eu não tenha certeza.

(Dependendo de quem fala, é possível considerar Quintino Bocaiúva um positivista; isso me parece errado – o que não quer dizer que ele não tenha eventualmente sido influenciado pelo Positivismo, mais ou menos como todos os seus contemporâneos.)

Se tiver interesse, acabei de lançar um livro sobre a ação dos positivistas ortodoxos na I República, especialmente a respeito da separação entre igreja e Estado (Laicidade na I República brasileira, pela Appris.)

Um maçom me disse que contato que o indivíduo não seja ateu ele pode ser maçom. Mas como uma sociedade que mistura tanto misticismo e que nesse sentido parece ir na contramão de um ideal como o positivismo que busca cada vez mais racionalismo podem se confraternizar dessa forma?

A literatura católica costuma enfatizar o eventual viés maçom do início da República no Brasil. A impressão que tenho é que isso se deve a pelo menos duas ordens de motivos: (1) o catolicismo é contra a maçonaria (tendo sido essa sociedade secreta condenada pela bula Quanta Cura); atribuir um caráter maçom aos republicanos – que, afinal de contas, acabaram com a religião de Estado e combateram os privilégios católicos no Brasil – é uma forma de os católicos “demonstrarem” uma espécie de vileza da República. (2) Na França, efetivamente, as lojas maçônicas foram importantíssimas para o estabelecimento da República – bem entendido, da III República, em 1870, tendo também apoiado as medidas laicizantes da década de 1880 e, depois, a lei da separação entre igreja e Estado de 1905. Como os positivistas foram importantes lá e como muitos positivistas franceses eram efetivamente maçons, faz-se uma associação para o caso brasileiro. Mas importa notar que, na França, não eram apenas os positivistas que eram maçons: eram-no também católicos, livre-pensadores, socialistas e protestantes.

Não sou eu quem vai discutir a doutrina maçônica, especialmente com um maçom. Todavia, o que eu já ouvi de alguns maçons é que não se trata de rejeitar o ateísmo, mas de aceitar um “poder superior”: nesse caso, há espaço para interpretações. As concepções positivistas de “Humanidade” (que é o nosso Grão Ser) e de “leis naturais” constituem, sem dúvida alguma, uma forma de poder superior, mas sem o caráter absoluto e místico das teologias e/ou das metafísicas. Na França de meados do século XIX havia uma famosa loja maçônica chamada “Filosofia Positiva” e os positivistas (heterodoxos, é verdade) Émile Littré e Jules Ferry foram membros dela. Aliás, tornou-se famoso o discurso de ingresso de Jules Ferry na maçonaria, em que ele fez profissão de fé no Positivismo e no republicanismo[1].

Posso encontrar alguma semelhança entre positivismo e socialismo?

Sim, embora seja necessário definir o que é “socialismo”. Hoje em dia nós entendemos por essa palavra, basicamente, alguma forma de marxismo, em que também é necessário distinguir o socialismo do comunismo. Na época de A. Comte, o socialismo eram as doutrinas que, depois, Marx chamaria de “socialismos utópicos”.

Há vários elementos próximos: valorização da historicidade e da fraternidade, respeito ao proletariado e às mulheres, preocupação com os problemas materiais das sociedades. Assim, o próprio Comte observava que há uma aproximação grande especialmente em termos afetivos. Mas, ao mesmo tempo, há importantes aspectos divergentes: o socialismo enfatiza os aspectos materiais – econômicos e políticos – em detrimento dos morais, preferindo fazer reformas econômicas e/ou políticas, ou mesmo “revoluções”, de modo geral à força, a fazer as necessárias mudanças morais prévias. Além disso, o socialismo prefere a igualdade à liberdade, de modo que se torna opressor (quando não violento) para impedir que as diferenças sociais desenvolvam-se e sejam reguladas. Por fim, o socialismo é contra o Estado e a propriedade privada, ao contrário do Positivismo: no que se refere a esses dois elementos, o Positivismo considera que eles são necessários, que eles são socialmente inescapáveis, mas que, ao mesmo tempo, eles devem ser socialmente regulados, isto é, o uso da riqueza e da propriedade deve atender a critérios sociais e o Estado não pode ser nem autoritário nem pode impedir que suas decisões sejam discutidas ou mesmo criticadas.

Os comentários acima, como eu observei, foram feitos por Augusto Comte em relação ao que ele chamava de socialismo, mas podem ser aplicados sem muita dificuldade ao que se chama, atualmente, de socialismo.

O livro A Sociologia de Augusto Comte, de Jean Lacroix, tem um capítulo dedicado a isso (você encontra-o com facilidade na Estante Virtual). Além disso, eu tratei de muitas dessas questões em alguns artigos meus, reunidos no livro Teoria Política positivista (que só é vendido em versão eletrônica: https://www.amazon.com.br/Teoria-pol%C3%ADtica-positivista-Filosofia-Positivismo-ebook/dp/B00H0ENRLS/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1479764280&sr=8-2&keywords=gustavo+biscaia+de+lacerda).

O senhor tem uma opinião pessoal, ou a igreja positivista tem alguma posição sobre o socialismo (crítica ou elogiosa)?

A minha opinião pessoal segue muito a do Positivismo, ou seja, a proposta por Augusto Comte e indicada acima. A ela é necessário acrescentar o que a experiência histórica indicou-nos: que o comunismo – ou seja, o regime praticado inicialmente na União Soviética e a partir dela em vários outros países – é um regime totalitário e liberticida, ou seja, tirânico. Da mesma forma, não se pode deixar de lado as ações terríveis que os comunistas desenvolveram no Ocidente ao longo do século XX e que foram analisadas em inúmeras ocasiões pelo Raymond Aron e, mais recentemente, pelo François Furet e pelo Tony Judt.

Getúlio Vargas e JK eram positivistas em suas formas de governo? Vi vários textos na internet afirmando isso.

No que se refere a Getúlio Vargas, essa é uma afirmação bastante comum. Isso é um problema grande, que apresenta um elemento ainda maior de interpretação subjetiva. Evidentemente, Getúlio Vargas nasceu, cresceu e fez carreira em um ambiente marcadamente positivista, como era o Rio Grande do Sul da I República, com a constituição estadual de 14 de Julho, elaborada por Júlio de Castilhos. Nesse ambiente ele seguramente absorveu elementos positivistas, como a proteção social ao trabalho e aos trabalhadores, o apoio do Estado ao desenvolvimento econômico e até um certo nacionalismo. Todavia, nem o corporativismo nem o autoritarismo são positivistas; o corporativismo foi influência da legislação fascista italiana, assim como o autoritarismo. Aliás, convém notar que não existiu “um” governo Vargas, mas diversos: 1930-1932; 1932-1934; 1934-1937; 1937-1945 – e, depois, 1951-1954. Quando se fala em “influência positivista sobre Getúlio Vargas”, costuma-se considerar que a Era Vargas (1930-1945) foi um período inteiriço e marcado pelo autoritarismo, o que é errado e dificulta a análise.

A Constituição de 1891 sofreu grande influência do Positivismo. Entretanto, a década de 1920 assistiu a crises políticas e sociais constantes, em que o arranjo jurídico-político de 1891 foi posto em questão. De modo mais específico, as críticas eram contra as oligarquias, mas também contra o liberalismo da I República: nisso, havia concordância entre tenentes, comunistas e fascistas. Ora, por diferentes caminhos, foram esses os grupos que apoiaram Getúlio Vargas entre 1930 e 1945. Basta pensar que o Estado Novo foi instaurado por militares fascistas (Góes Monteiro, por exemplo) com o apoio de notórios autoritários (Francisco Campos, por exemplo): todos eles eram também declarados inimigos do Positivismo.

No caso de JK, isso é novidade para mim. É claro que o caráter “positivista” de seu governo depende da pessoa que afirma esse caráter. Em todo caso, o bisavô da minha esposa era positivista e da Marinha e quase foi ministro de JK – mas, nesse caso, creio que era um apoio mais pessoal que “filosófico”. (Aliás, esse mesmo positivista referia-se a Góes Monteiro como “Gás Morteiro”, querendo com isso dar a entender que não gostava dele – e, nesse caso específico, havia também um forte elemento de rejeição do Positivismo da parte de Góes Monteiro, o que é bastante significativo.)

O positivismo ainda tem alguma influência em algum nível sobre os militares brasileiros, incluindo o regime militar que por aqui passou?

Não tem nenhuma influência atual, nem teve no regime militar. Atribuir o regime de 1964-1985 ao Positivismo é um recurso bastante comum e uma ligação bastante fácil: como os militares que proclamaram a República eram positivistas, eles iniciaram uma tradição golpista que se repetiu em 1930, 1945 e até 1964. O problema disso é que os militares positivistas eram contrários ao militarismo; além disso, já na década de 1920 diversos líderes militares – entre os quais se destacava Góes Monteiro – opunham-se politicamente ao Positivismo, bem como condenavam fortemente a influência do Positivismo sofre o Exército, que, a par dos ensinamentos de Benjamin Constant, de Miguel Lemos e de Teixeira Mendes, era a favor da civilização dos militares e da sociedade. Dessa forma, logo antes e ainda mais após a I Guerra Mundial, houve profundas reformas no Exército, cujo resultado prático foi eliminar delas a tradição positivista. Ora, tanto os patrocinadores dessas reformas quanto os militares resultantes delas foram os articuladores da tradição golpista e intervencionista dos militares nas décadas seguintes. Há um longo artigo do José Murilo de Carvalho, intitulado “As Forças Armadas na República: o poder desestabilizador” (ou alguma coisa assim) que não deixa dúvidas a respeito dessas questões.

Existe a possibilidade de surgir algum partido positivista no Brasil? Sempre tenho a impressão de que o positivismo tem algo ainda por acrescentar ao Brasil.

No que se refere a um partido político positivista, eu acho bastante difícil. Laicidade do Estado e republicanismo como projeto político, que são temas básicos do Positivismo, não encontram guarida efetiva em nenhum partido brasileiro e são poucos os grupos sociais que desejam defendê-los, mesmo apesar de haver partidos que se dizem “republicanos”. Outros aspectos do Positivismo político são incorporados de diferentes maneiras pelos partidos: presidencialismo, Estado ativo, incorporação do proletariado.

Mas é necessário notar que, de acordo com as propostas de Comte, a função primordial do Positivismo é constituir-se como pólo da opinião pública; nesse sentido, ele deve(ria) ser o que se chama atualmente de “movimento social”.

Quanto a contribuições para a política brasileira, se você olhar o meu blogue, há algumas reflexões nesse sentido, motivadas principalmente devido às manifestações dos últimos anos. Essas reflexões são um pouco gerais, mas, creio, evidenciam que o Positivismo tem, sim, o que oferecer para os debates públicos e, portanto, para a política nacional.

O movimento integralista sofreu alguma influência do positivismo (além dos movimentos fascistas europeus)? O que o positivismo diria sobre os integralistas de Plínio Salgado?

Bem, isso é bastante simples e direto de responder: não, não sofreu. O Positivismo considera o fascismo um movimento retrógrado e reacionário, que é contrário às liberdades públicas, é clericalista e teológico, que prega a xenofobia e que adota a violência como instrumento básico da política. Em tudo e por tudo, é um movimento contrário às características da política moderna, conforme entendida por A. Comte: humanista, pacífica, fraterna, com vistas à forte cooperação internacional. Os comentários que fiz acima sobre Getúlio Vargas, creio, evidenciam o quanto o Positivismo afasta-se do integralismo em particular e do fascismo de modo geral. Um pequeno fato pode ilustrar também essa distância: o Hélgio Trindade, que é o autor do estudo mais importante sobre o integralismo, redigido ainda nos anos 1970, volta e meia vai a atividades culturais e políticas promovidas pela Igreja Positivista de Porto Alegre; ele mesmo não é positivista, mas, sem dúvida alguma, se ele recusasse o Positivismo ou, no caso, se considerasse o Positivismo alguma coisa próxima ao fascismo, com certeza não iria a tais eventos.

Agora, infelizmente, na história das idéias, intelectuais e grupos políticos apropriam-se de elementos de pensadores do jeito que bem entendem. Assim, na França, o líder do movimento de direita Action Française, Charles Maurras, afirmava que extraía de Comte alguns elementos de seu pensamento político para seu movimento de extrema direita; mais exatamente, a definição de ordem, a valorização dos sentimentos e da Idade Média. A Action Française foi antidreyfusista e era xenófoba e monarquista, o que, por si só, evidencia o quanto ela era distante do Positivismo. Mas as afirmações de Maurras acabaram infelizmente vinculando Comte a essa direita.

Por outro lado, felizmente, ao mesmo tempo – embora seja bem menos conhecido -, outros intelectuais de esquerda e/ou dreyfusistas baseavam-se em Comte: o exemplo mais notório e importante é Alain (seu nome era Émile-Auguste Chartier, mas era conhecido apenas pelo pseudônimo “Alain”). Da mesma forma, a III República francesa – que sofreu a oposição de Maurras e da Action Française – foi obra de políticos fortemente inspirados pelo Positivismo ou claramente positivistas, como nos casos de Jules Ferry, Émile Littré e Léon Gambetta.

O positivismo diria que a humanidade tem dificuldade para suportar o clímax, ou algo próximo deste, e por isso sempre ocorre alguma ruptura, regresso, ou destruição de tudo o que foi conquistado (tal como ocorreu com grandes civilizações, mesmo a Europa durante o contexto de surgimento do positivismo)?

Eu não diria que a humanidade não sabe lidar com o “clímax” – mesmo porque é necessário definir o que seria esse “clímax”. Agora, sem dúvida alguma, é mais ou menos fácil perceber que todas as sociedades precisam de objetivos coletivos e que a busca da realização desses objetivos é fonte de organização e disciplina. (É importante ver que, para o Positivismo, “disciplina” não é o mesmo que “disciplina militar” ou “ordem policial”: tem mais a ver com valores compartilhados, com regras de conduta pública e privada etc.) A ausência de objetivos coletivos, necessariamente de longo prazo, conduz à desorientação moral e política; essa ausência pode ocorrer pela realização dos objetivos ou pela sua ausência pura e simples.

No que se refere ao “contexto do surgimento do Positivismo”, havia metas coletivas mais ou menos claras em todo o Ocidente: o desenvolvimento da sociedade, no sentido do progresso moral, material, político. O que ocorria era a dificuldade de uma nova ordem social estabelecer-se em meio às ruínas da antiga ordem: a Revolução Francesa foi um dos grandes indícios disso, as disputas havidas durante o século XIX podem (e devem) ser entendidas assim e, bem vistas as coisas, o longo conflito social, político e econômico da “II Guerra dos 30 Anos” (ou seja, o período que vai de 1914 a 1945) é a etapa final desses esforços.

Bem, já que o positivismo trata justamente sobre essa evolução e procura entender essa necessidade constante de mudança, como interpretar o desejo de destruição aparente em certos momentos? Isso é uma resposta violenta e instintiva ao fato de não conseguirmos mudar de modo mais brando?

Para o Positivismo, o instinto destruidor integra a natureza humana; nesse sentido, ele pode ser estimulado ou reprimido, da mesma forma que ele pode ser orientado para fins altruístas ou fins egoístas. Certamente, momentos ou situações em que os anseios de mudança vêem-se constrangidos exasperam as tendências destruidoras do ser humano: sublevações, revoluções, revoltas estão aí para comprová-lo. O que o Positivismo diria, adicionalmente, é o que o bom senso sugere: as mudanças fazem parte da vida e, no caso de serem justas, corretas e necessárias, há que se proceder a elas.

Convém notar, por outro lado, que a inteligência orienta a ação prática e informa os sentimentos: há inúmeras teorias filosóficas, sociológicas e psicológicas que estimulam a violência, a revolta etc. O fascismo, o nazismo, o comunismo, diversas formas de socialismo e inúmeras teorias da democracia claramente defendem as virtudes e as belezas da violência.

Há momentos em que a confusão social permite a afirmação da violência: o surgimento e o desenvolvimento do fascismo evidenciam-no bastante. O fascismo surgiu do socialismo radical; durante e após a I Guerra Mundial, o elogio da violência passou da extrema esquerda para a extrema direita e desgraçadamente isso se tornou um objetivo coletivo, capaz de organizar as massas e dar vazão aos ressentimentos resultantes da I Guerra e do processo de modernização (no caso, da Itália). A Igreja Católica, aliás, de maneira desprezível, abriu mão de seu papel de orientadora de consciências em favor do poder político e da possibilidade de impor pela força do Estado seus dogmas (isso se realizou por meio do Tratado de Latrão e, depois, das inúmeras concordatas): por esse motivo, a Igreja desde o início e sempre apoiou o regime fascista.

Em suma: há momentos em que as pressões sociais acabam vendo a violência como uma forma de satisfazer suas necessidades ou de dar vazão aos seus anseios. A solução normativa para isso é conhecida: a “cultura da paz”, a rejeição da violência, o entendimento de que as mudanças ocorrem – e o estímulo do altruísmo e do relativismo.

A ignorância aparentemente injustificada, que abraça a pseudociência (tanto na internet quanto nas universidades), seria um comportamento instintivo das massas (que assim como as mulheres), estimularia o surgimento de respostas mais coerentes?

A despeito dos discursos pós-modernos, que elogiam o ultra-relativismo, o fragmentário e as incoerências, o fato é que o ser humano busca, sim, concepções (1) gerais e (2) coerentes da realidade; nesse sentido, as pessoas buscam concepções sintéticas. A difusão das pseudociências revela ao mesmo tempo o prestígio que a ciência possui e a busca dessas concepções sintéticas; mas, por outro lado, os cientistas não fazem muita questão de estimularem concepções sintéticas, nem de fazerem divulgação científica de verdade. Também é necessário ver que, desde fins do século XIX, as concepções científicas tornaram-se cada vez mais exotéricas, de difícil compreensão pelos vulgos. Ao mesmo tempo, muitas concepções científicas têm suas próprias exigências intelectuais, ou seja, exigem um preparo teórico e filosófico que não é simples: basta ver as milhares de concepções “quânticas”, que são uma forma disfarçada (ou até escancarada) de misticismo.

Em suma: as pseudociências em si indicam um traço da natureza humana que exige satisfação; tal satisfação tem que ser fornecida pelo espírito positivo (altruísta, relativo, histórico, sintético) em um processo pedagógico contínuo. (Perceba que a educação, para o Positivismo, não é somente a instrução intelectual: a educação é a cultura moral, prática e intelectual, no sentido do altruísmo, do relativismo, do espírito positivo.)

Vemos nas redes sociais coisas como:

Defesa cega de teorias anticientíficas (Terra plana, ETs que nos deram a tecnologia do micro-chip e construiram as pirâmides), ou o desejo de uma terceira guerra mundial (onde inclusive já se escolhe de forma entusiasmada os atores do conflito por quem irão torcer). E mais recentemente, cresce um desejo do que parece já ser o plano de base para algo “novo” que deva substituir o velho sistema (atual) republicano: o retorno da monarquia.

Sabemos que a humanidade esqueceu mais de uma vez que a Terra é redonda, ou deixou-se perder grandes períodos de progresso (muitas vezes por superstições primitivas demais para seu estágios de evolução, ou decisões injustificadas como a queima da frota chinesa que desbravava o mundo a muitos séculos). Ainda hoje não se sabe como Filippo Brunelleschi construiu seu Duomo da cúpula de uma igreja em Florença, e isso foi apenas em 1290 d.C (mas ninguém ainda teve coragem de atribuir a ETs. Quem sabe Illuminati e coisa do tipo um dia...), mas ETs projetaram as pirâmides de uma sociedade que acabou. Sempre o cinema se diverte destruindo cidades e tudo o mais que a civilização produziu de mais moderno, e nos sentimos bem com isso. Igrejas lotam em épocas de milenarismos, etc. Jovens que não encontram nada mais empolgante ou desafiador se aventuram no Estado Islâmico buscando atividades de homens, e uma valorização que a sociedade não lhe de (temos aí um componente bem biológico de demonstração de vigor reprodutivo).

O socialismo falhou várias vezes por não permitir o surgimento de ideias mais individuais, sufocou a criatividade em nome do controle do Estado, enquanto o positivismo vê o mérito e é cauteloso quando se trata de mexer na ordem social, defendendo, porém, sempre o direito à educação e qualificação de todos (fornecendo assim potencial para o surgimento da evolução por mérito individual). Ainda assim nunca conheci um jovem empolgado com o positivismo.

Como o positivismo veria esse desejo instintivo de que algo oculto nos controla, e que algo ou alguma “verdade” está lá fora? Ou mesmo que algo que conhecemos bem (como o Estado) nos controle?

Essas teorias que atribuem o desenvolvimento da humanidade a extraterrestres, a civilizações subterrâneas etc. revelam ao mesmo tempo ignorância e a mistura de tendência mística com uma certa forma de egoísmo intelectual, de orgulho e vaidade: o pertencimento a grupos exclusivos, que detêm “a” “Verdade” é sempre motivo de profunda vaidade e uma sensação disfarçada de poder (ou potência). Também há ignorância nisso – e, mais uma vez, orgulho: é mais fácil acreditar nas teorias da conspiração que entender a dinâmica social (que, por si só, é extremamente e cada vez mais complexa). Solução para isso? Mais uma vez: espírito positivo e educação durante toda a vida.

No que se refere à mudança da ordem social, à “timidez” positivista etc., isso é outro mito político-acadêmico. É muito bom que os marxistas e os “revolucionários” de diferentes tons difundam esse gênero de idéia; assim, eles reservam para si todo o progressivismo. No final das contas, é uma forma de desinformação, praticada desde o século XIX por Marx e do século XX por Lênin (e seus continuadores) contra todos os seus inimigos. Em vez de argumentar com os outros e disputar idéias e valores no mesmo âmbito, o mais fácil é desqualificar o adversário – aliás, antes disso, deve-se transformar o adversário em inimigo.

O Positivismo não é tímido quanto a mudanças sociais; mas, por outro lado, é contra as “revoluções”, ou o mito marxista da revoluções, seja porque elas implicam violência, seja porque mudanças profundas não são nunca mudanças rápidas, seja porque a sociedade não é plástica no grau e no sentido pretendido pelos marxistas. Infelizmente, o mito da revolução associou-se tanto à idéia de “progresso”, ao longo do século XX, e opôs-se tanto e com tanto sucesso à idéia de “ordem”, que é virtualmente impossível hoje em dia falar em “progresso” sem se pensar no marxismo e em revolução. Todos saímos perdendo com isso.

No que se refere aos méritos individuais, isso enseja toda uma outra reflexão. As sociedades modernas não são sociedades de castas; logo, o lugar de cada um na sociedade não é dado pelo nascimento: esse é um dos motivos por que as monarquias são relíquias que devem ser extintas. Se não há mais castas, como organizar as atividades sociais? Por meio da seleção de capacidades individuais – o que, em termos contemporâneos, corresponde à meritocracia. Repito: em termos históricos, a alternativa à meritocracia é a definição de atribuições e oportunidades pelo berço, sejam quais forem os nomes e os parâmetros que se dê ao berço (“sangue”, “raça”, casta, ordem social etc.).

Evidentemente, o “mérito” individual varia segundo uma infinidade de fatores: país, família, classe social etc. Augusto Comte era o primeiro a reconhecer esses fatores e a lamentá-los, tendo clareza de que com freqüência esses fatores não conduzem os melhores talentos aos cargos que ocupam. Isso gera problemas da gestão dos recursos coletivos (pois muitas vezes os cargos – públicos ou privados – são ocupados por indivíduos incapazes) e também problemas individuais (pois as pessoas capazes veem-se preteridas). Não há solução simples para isso; o que se deve fazer é qualificar os servidores e manter um sistema permanente de seleção e valorização dos servidores (públicos e privados; “civis” e “políticos”); ao mesmo tempo, é necessário que também se respeite os ocupantes dos órgãos (afinal, um ocupante pode ser medíocre e as reclamações contra ele podem ser justas; mas o ocupante também pode – e deve ser – competente, correto etc. e, nesse caso, as reclamações servem apenas para incomodar).




[1] Esclarecimento feito pelo correligionário gaúcho Érlon Jacques: "no rito "francês" ou "moderno" basta o indivíduo aceitar um "princípio criador", como o big bang por exemplo. Não necessita a crença em um "deus". O rito francês sofreu grande influência do Positivismo de Augusto Comte".

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