A escala 5x2 à luz da Religião da
Humanidade
(27
de César de 172/19.5.2026)
1.
Abertura da prédica
1.1.
No dia 20 de César de 172 (12.5.2026) não
tivemos prédica devido a uma enxaqueca (causada, por sua vez, por excesso de
trabalho, incluindo aí, evidentemente, o trabalho dedicado ao Positivismo e à
Religião da Humanidade); retomamos hoje, portanto, a programação normal
2.
Datas e celebrações
2.1.
Dia 16 de César de 172 (8.5.2026): o blogue Filosofia Social e Positivismo atingiu a marca de 700.000 visitas!
2.2.
Dia 19 de César (11.5): fundação da Igreja
Positivista do Brasil (1881 – 145 anos)
2.3.
Dia 21 de César (13.5): abolição da escravidão
no Brasil (1889 – 138 anos): celebração da fraternidade entre os brasileiros
2.4.
Dia 24 de César (16.5): nascimento de Luís
Lagarrigue (1864 – 162 anos)
2.5.
Mês de São Paulo: de 21 de maio a 17 de junho
teremos o mês de São Paulo, sexto mês do ano, dedicado ao catolicismo
3.
Leitura comentada do Apelo aos conservadores
4.
Exortações
4.1.
Sejamos altruístas!
4.2.
Façamos orações!
4.3.
Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os
sacramentos positivos a quem tem interesse
4.4.
Para apoiar as atividades dos nossos canais e da
Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)
5.
Sermão: a escala 5x2 (e celebração do 13 de
Maio)
5.1.
Um aviso inicial: como indicamos no início da
prédica, o sermão de hoje deveria ter sido feito na semana passada; mas, devido
a excesso de trabalho, padecemos de enxaqueca na semana passada; assim, o que
deveria ter sido feito na semana passada será feito hoje
5.2.
O sermão de hoje celebra o dia 13 de Maio e, a
partir disso, afirma a correção da proposta da escala 5x2
5.2.1.
Várias das idéias abaixo foram apresentadas no artigo “Da abolição da escravidão à escala 5x2”, publicado no jornal carioca Monitor Mercantil de
11.5.2026
5.3.
Comecemos com o 13 de Maio
5.3.1. O feriado
do 13 de Maio há muito tempo não é mais celebrado, mas o 13 de Maio com justiça
já foi feriado nacional, que comemorava a fraternidade
dos brasileiros, a partir da abolição da escravidão
5.3.1.1.
Esse feriado foi estabelecido pelo Decreton. 155-B, de 14 de janeiro de 1890 – um monumento belíssimo de celebrações
cívicas
5.3.1.2.
Estabelecido a partir das sugestões positivistas
(como, de resto, todo o Decreto n. 155-B), o nome do feriado já indicava que
tal celebração não tinha nada a ver com a mistificação monarquista,
antinacional e antirrepublicana em favor da Princesa Isabel
5.3.2. A celebração
da fraternidade dos brasileiros, celebrada durante a I República no dia 13 de
maio, conjuga de maneira impressionante inúmeros elementos:
5.3.2.1.
a valorização do trabalho e dos trabalhadores,
contra as concepções de que o trabalho é degradante, que é um castigo e que os
trabalhadores têm que ser tratados como escravos
5.3.2.2.
a libertação dos escravos, ocorrida em 1888 em
relação aos descendentes dos africanos, trazidos à força ao Brasil, e em 1758
em relação aos índios, autóctones
5.3.2.3.
o necessário concurso das várias etnias para a
constituição do Brasil – concurso que, de qualquer maneira, tem que ser
pacífico e voluntário
5.3.3. É
importante reforçar desde já um aspecto central: a celebração do 13 de Maio não
era apenas pelo fim da escravidão negra, mas era principalmente pela
valorização do trabalho e dos trabalhadores, bem como da fraternidade nacional,
ou seja, do aspecto altruísta e generoso que a vida coletiva necessariamente
tem que ter
5.3.4. Apesar de
belas, importantes e necessárias, essas concepções foram e têm sido degradadas
ao longo do tempo
5.3.4.1.
Não nos parece casual que isso ocorra ao mesmo
tempo em que a própria noção de “república” seja desprezada e corrompida cada
vez mais, nos últimos 140 anos
5.3.4.2.
No caso da celebração da fraternidade dos
brasileiros, essa degradação começou logo após o 13 de maio de 1888, a partir
de uma intensa mistificação monarquista, em favor da Princesa Isabel
5.3.4.3.
Essa mistificação, aliás, foi apoiada por
movimentos sociais negros que, liderados por José do Patrocínio e baseados em
uma equivocada gratidão, constituíram a lamentável milícia da “Guarda Negra”,
que espancava os republicanos em defesa da monarquia
5.3.4.4.
Como se sabe, a mistificação monarquista foi no
sentido de caracterizar a abolição como uma generosa concessão da monarquia (em
vez de uma conquista verdadeiramente nacional e popular), em particular da
Princesa Isabel, a fim de legitimá-la e tentar reverter a profunda repulsa de
que ela era objeto (era ultracarola, seu marido era estrangeiro e, seguindo as
ordens do próprio Dom Pedro, foi o responsável por dar caça a Solano López até
o matar)
5.3.5. Assim, ao
longo do tempo, em vez de investir-se nas noções de que a abolição da
escravidão foi uma vitória do conjunto do país, de que ela valoriza os
brasileiros descendentes de africanos e de que ela celebra a dignidade do
trabalho e dos trabalhadores; em vez de investirmos no republicanismo em geral
e na celebração da fraternidade em particular, os brasileiros praticamos o
desprezo pela república (que se torna desculpa para golpes e revoluções, do
fascismo, do comunismo, do clericalismo, do monarquismo etc.) e o estímulo ao
mito monarquista
5.3.5.1.
Essa dupla degradação tem sido reafirmada nas
últimas décadas mesmo pelo movimento identitário negro, contrário às noções de
república e de fraternidade universal
5.3.5.2.
Aliás, o identitarismo negro finge que a Guarda
Negra não existiu e estimula a mistificação monarquista contra a celebração
republicana: isso em favor de um novo feriado nacional, que lamentavelmente mas
não por acaso é particularista, contrário à fraternidade e, para piorar, que
celebra uma figura que lutava contra a escravidão mantendo o seu próprio
plantel de escravos
5.3.5.3.
Este é um caso exemplar que indica que, mesmo
que um grupo social afirme defender uma determinada perspectiva e os interesses
desse grupo, não é por isso que suas concepções são corretas, adequadas,
altruístas e com efeitos positivos (no presente e/ou no futuro): o movimento
identitário negro não apenas defende de maneira equivocada os interesses dos
“negros” como sua defesa é daninha para eles e para o conjunto do país, ao ser
particularista, faccioso e, como todo identitarismo, estimular o ressentimento
e o ódio coletivos
5.3.6.
É importante termos claro que a rejeição do 13
de Maio tem graves efeitos sociais e políticos:
5.3.6.1.
A rejeição rompe a continuidade histórica,
tornando a história do
Brasil (e a história humana de modo geral) algo misterioso e irracional
5.3.6.2.
O rompimento da continuidade histórica apóia e
reforça o desprezo pela República, ou seja, por seus ideais e seus esforços
5.3.6.3.
Apesar de supostamente se ser contra a
mistificação monarquista, o desprezo pelo 13 de maio atinge a celebração republicana da fraternidade dos
brasileiros, reforçando indiretamente o mito monarquista
5.3.6.4.
A rejeição despreza os esforços coletivos, de
caráter nacional, em favor da abolição da escravidão e, depois, os esforços
para a integração dos libertos e de seus descendentes
5.3.6.5.
A
rejeição despreza o sentido altruísta e, literalmente, fraterno do feriado estabelecido pela República (e,
deve-se notar: estabelecido pela República e não pela monarquia)
5.3.6.6.
A rejeição despreza o esforço concreto de constituição de uma pátria
fraterna e altruísta, ao mesmo tempo em que reforça consciente e constantemente
o discurso de um país agressivo e cruel
5.3.6.7.
A rejeição atua no sentido de afirmar o Brasil
como a justaposição – violenta, ainda por cima – de etnias que não têm nada a
ver uma com a outra, que não podem contribuir uma com a outra e cuja manutenção
em conjunto seria uma balela violenta e hipócrita criada pelos dominadores
5.3.6.8.
Por fim, mas não menos importante, o conjunto
dos problemas acima reforma a noção de que o trabalho é degradante, próprio à
escravidão e que é “coisa de escravo”
5.4.
Passemos agora à escala 5x2
5.4.1. Como se
pode ver pelos comentários que acabemos de fazer, o desprezo pelo feriado do 13
de Maio resulta no desprezo pelo trabalho e pelos trabalhadores, no desprezo
pela fraternidade nacional e no desprezo pela luta nacional e popular que
resultou na abolição da escravidão
5.4.1.1.
Esses múltiplos desprezos têm conseqüências
morais, intelectuais e práticas de longo prazo, ao tornar desvincular a
proposta da jornada 5x2 do esforço em prol da dignificação do trabalho e dos
trabalhadores
5.4.2. Passando
diretamente para a proposta da escala 5x2: ela surgiu como uma iniciativa da
esquerda que, após décadas, finalmente apresentou uma proposta que não é
exclusivista, particularista, facciosa e, ao contrário, beneficia todo o
conjunto da população brasileira
5.4.2.1.
Mais importante que as disputas
partidário-ideológicas, a proposta da escala 5x2 celebra uma concepção generosa
e universalista da vida em sociedade, afirmando a fraternidade de todos os
brasileiros, a dedicação dos trabalhadores para suas famílias, a dignidade
humana em geral e a valorização do trabalho como atividade produtiva
compartilhada
5.4.2.2.
Além disso, a escala 5x2 sacramenta o hábito
ocidental de dois dias para o trabalhador dedicar-se à vida doméstica (sábado)
e à vida coletiva (domingo) – o que, convenhamos, é o mínimo para uma vida
digna e para uma justa retribuição pela atividade produtiva
5.4.3. Na
verdade, a idéia de dois dias de descanso dedicados à vida doméstica e social
dos trabalhadores foi proposta pelo Positivismo
5.4.3.1.
Originalmente, os dois dias de descanso foram tentados
por Oliver Cromwell, ao longo de seu governo republicano na Inglaterra do
século XVII
5.4.3.2.
Miguel Lemos chama a atenção exatamente para
isso, em uma nota do Catecismo
positivista:
“Aproveitamos esta alusão incidente ao
descanso semanal para dizer que meditações ulteriores levaram Augusto Comte a
estabelecer dois dias consecutivos de folga por semana (domingo e lunedia), votados um à vida
pública e o segundo à vida privada, como já o havia tentado uma lei de Cromwell
(V. Lettres à Edger, p. 69). Todos sabem, aliás, da tendência universal a não
se trabalhar no lunedia” (Miguel
Lemos, Notas ao, Catecismo positivista, edição apostólica de 1934, p. 492)
5.4.3.3.
O trecho indicado acima das cartas de Augusto
Comte a Henry Edger é este:
“[...] O uso espontâneo do proletariado
ocidental, para os dois dias de descanso consecutivos de cada semana,
universalmente dedicados um à vida pública, o outro à vida privada: uma lei de
Cromwell já o tentara [instituir]” (Lettres
d’Auguste Comte à Henry Edger e à John Metcalf, Paris, Apostolat
Positiviste, 1889, p. 69)
5.4.4. Em
oposição à dignificação do trabalho e dos trabalhadores, consideremos as
críticas à escala 5x2
5.4.4.1.
Podemos organizar as críticas em dois grandes
grupos: (1) os argumentos economicistas e (2) os argumentos que degradam a vida
coletiva e o trabalho – argumentos convergentes, aliás.
5.4.5. O
economicismo considera apenas os aspectos econômicos da medida são os
importantes; ele reduz o ser humano a u’a máquina de trabalhar e de produzir
5.4.5.1.
Há no economicismo um duplo cinismo: finge-se
(1) que o trabalhador não é apenas um número que tem a obrigação de gerar
riqueza e (2) que essa desumanização não é dirigida apenas contra os
trabalhadores
5.4.5.2.
Entretanto, é mais do que evidente que nenhum capitalista aceitaria submeter a
si próprio e à sua família aos raciocínios morais e às condições de trabalho
envolvidos no argumento economicista; mas eles não têm pudor em exigir tal
submissão aos “outros”
5.4.5.3.
Se isso não fosse pouco, argumenta-se também que
os “custos” aumentarão e o “lucro” diminuirá com a escala 5x2: ora, cada vez
mais temos à disposição (1) tecnologias que aumentam a produtividade, (2) o conhecimento
de que qualidade de vida e satisfação aumentam a produtividade; (3) o aumento
geral da renda com o aumento de trabalhadores no mercado de trabalho
5.4.6. Os
argumentos que degradam o trabalho são mais diretos em sua rejeição ao maior
tempo disponível para os trabalhadores
5.4.6.1.
São argumentos francamente reacionários, com enorme
freqüência teológicos e todos são contra a dignidade do trabalho e da vida
humana e a favor da ganância
5.4.6.2.
Por exemplo: deputados-pastores afirmam que a
escala 5x2 deixará muito tempo livre para os trabalhadores, tempo ocupado pelo
Diabo (!): assim, os trabalhadores devem trabalhar sem cessar para que se
esgotem e não possam aproveitar a vida nem refletir a respeito dela
5.4.6.3.
Outros críticos da escala 5x2 são diretamente
bíblicos: o trabalho é a punição divina pela traição de Adão (causada, aliás, pela
suposta mesquinhez de Eva); assim, não seria correto aliviar o fardo humano
que, afinal, teria sido imposto pela própria divindade
5.4.6.4.
É claro que, assim como no caso das críticas
economicistas, os reacionários (teológicos) rejeitam para os outros a escala 5x2, mas fazem questão de mantê-la para si
mesmos
5.4.7. Versões
secularizadas disso consideram que o trabalho incessante e exaustivo seria a
única forma de dignificar a vida: de acordo com essa concepção, viver-se-ia
apenas para trabalhar, em vez de dignificar-se o trabalho como uma atividade entre
outras que integra a vida
5.4.7.1.
Conseqüências imediatas disso: o salário deve
ser o menor possível (forçando os trabalhadores a manterem-se em trabalhos
ruins) e as condições de vida não podem ser muito boas (incluindo aí as longas
horas entre a casa e o trabalho e o acúmulo com o trabalho doméstico)
5.4.7.2.
Essa concepção, que no fundo é apenas uma versão
um pouco secularizada da concepção teológica do castigo divino, tem sido
afirmada pelo bilionário sul-africano Elon Musk
5.4.8. Um aspecto
que subjaz a todas as críticas à proposta de escala 5x2 e que os críticos não
fazem muita questão de esconder é que a boa vida cabe apenas a alguns poucos –
aos ricos –; em outras palavras, as críticas consideram que o trabalho serve apenas
para o enriquecimento alheio, em vez de ser um esforço coletivo para a
manutenção e a melhoria da sociedade
5.4.8.1.
Essa mentalidade prevalece nos Estados Unidos,
onde a ganância é um valor fundamental (“Greed is good”, vemos Gordon Gekko dizer no
filme Wall Street, de 2010)
5.4.8.2.
Entretanto, no fundo, ela tem uma origem mais
antiga e insidiosa: ela não distingue o
trabalho da escravidão
5.4.8.3.
Assim, não é casual que os monarquistas – que
retornaram à ribalta na onda reacionária da última década – sejam críticos da
escala 5x2: a monarquia no Brasil foi implantada exatamente para manter a
escravidão. O antirrepublicanismo é pró-escravismo.
5.4.8.4.
Assim, a celebração do 13 de Maio tem tudo a ver
com a defesa da escala 5x2 – e, inversamente, a defesa da escala 5x2 recupera
(e exige a recuperação de) o feriado de 13 de Maio
5.5.
Em
suma:
5.5.1. Celebremos, então, o 13 de Maio: o fim da
escravidão, a fraternidade dos brasileiros e o republicanismo. Celebremos a
dignidade do trabalho e dos trabalhadores: que venha a escala 5x2!
5.5.2.
6.
Término da prédica
Referências
- Auguste
Comte (franc.), Síntese subjetiva
(Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.
- Augusto Comte (franc.), Sistema de
filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations
générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou
cérébrales”).
- Augusto
Comte (franc.), Sistema de política
positiva (Paris. J.-B.
Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.
- Augusto
Comte (port.), Apelo aos conservadores
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.
- Augusto
Comte (port.), Catecismo positivista
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).
- José
Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.
- Gustavo
Biscaia de Lacerda (port.), Da Abolição
da Escravidão à escala 5x2 (Curitiba, 11.5.2056): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/05/da-abolicao-da-escravidao-escala-5x2.html.
- Luís
Lagarrigue (esp.), A poesia positivista
(Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.
- Raimundo
Teixeira Mendes (port.), As últimas
concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil,
1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i
e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.
- Raimundo
Teixeira Mendes (port.), O ano sem par
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.