No dia 19 de Moisés de 172 (19.1.2026) realizamos a celebração do nascimento de Augusto Comte; seguindo o calendário de comemorações da Igreja Positivista do Brasil, também celebramos a mãe de nosso mestre, Rosália Boyer. Por fim, fizemos uma breve menção a Rondon, cuja transformação ocorreu justamente em 19.1.1958.
A celebração foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/emE1MZh85hM) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/100083198468982/videos/1848315862536670 e https://www.facebook.com/100083198468982/videos/1204025545275641).
As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.
* * *
Celebração do nascimento de Augusto Comte
(19 de Moisés de 172 – 19 de janeiro de 2026)
1. Invocação inicial
2. No dia de hoje retomamos as atividades regulares da Igreja Positivista Virtual
2.1. Normalmente nossas atividades ocorreriam em uma terça-feira; mas como o aniversário de nosso mestre caiu neste ano em uma segunda-feira, decidimos antecipar em um dia a retomada de nossas atividades
3. A celebração de hoje não é uma prédica: é um momento puramente cultual
3.1. Dessa forma, ao contrário do comum das prédicas, hoje não serão possíveis perguntas, dúvidas, comentários em geral
4. Na data de hoje celebramos o aniversário de nascimento de nosso mestre e pai espiritual, Augusto Comte, nascido em 19 de janeiro (19 de Moisés, na verdade) de 1798 – portanto, há 228 anos
4.1. Sempre tomando em consideração o calendário de celebrações da Igreja Positivista do Brasil, na data de hoje comemoramos também a memória de Rosália Boyer (1764-1837), mãe de nosso mestre e um de seus anjos da guarda (juntamente com Clotilde e Sofia)
5. Antes de celebrarmos nosso mestre e sua venerável mãe, devemos também lembrar uma outra data, que infelizmente acaba sendo deixada de lado: trata-se da transformação de Cândido Rondon, ocorrida em 19 de janeiro de 1958 – ela ocorreu, portanto, faz 68 anos
5.1. Não podendo neste momento entrar em detalhes sobre a vida desse gigantesco positivista, devemos entretanto pelo menos indicar o mínimo de seu título de glória
5.2. Rondon, explicitamente baseado e orientado pelo Positivismo, estabeleceu um padrão humano, altruísta, generoso – enfim, positivo em todos os melhores sentidos da expressão – de relacionamento entre as tribos indígenas e a civilização ocidental
5.3. Cessando resolutamente o padrão de exploração e/ou extermínio dos povos indígenas, Rondon aplicou literal e zelosamente a máxima “Morrer se for preciso, matar nunca”
5.3.1. Com isso, Rondon aplicou na prática a política positiva recomendada por Augusto Comte, no sentido de que o Ocidente tem o dever moral de estar à altura de seu desenvolvimento, bem como de dar o exemplo a todos os demais povos no sentido de o que é a política positiva: pacífica, respeitadora dos demais povos
5.4. É importante insistir que Rondon foi positivista, pois foi apenas a partir do Positivismo que essa política desenvolveu-se – e, aliás, apenas aqui no Brasil: os brasileiros e os estrangeiros não positivistas, bem como muitos dos positivistas não brasileiros, não a aplicaram, quando não a desprezaram
5.5. Rondon inspirou inúmeros jovens, que, a partir de seu exemplo, seguiram sua atuação como sertanistas e indigenistas – em particular, muitos jovens positivistas
5.6. Assim, enquanto tivemos Teixeira Mendes como um santo positivista, do ponto de vista moral e intelectual, tivemos Rondon como um herói (mas também como um santo) do ponto de vista prático
5.7. Por fim, vale notar que, da minha parte, infelizmente só consegui dar-me plenamente conta da importância e da grandeza de Rondon com tardar e graças ao elogio que lhe dedicou Darcy Ribeiro, ao tratar de sua atuação no livro Os índios e a civilização
6. Celebrar a vida e a obra de Augusto Comte é ao mesmo fácil e difícil:
6.1. É fácil – pelo menos para quem é positivista ortodoxo – porque conhecemos bem o tema e não há propriamente dificuldade para a exposição
6.2. Mas, por outro lado, é difícil porque é necessário fazer justiça à sua carreira e, ainda mais, à importância radical e profunda de sua obra – nada menos que a solução definitiva do problema humano, com a constituição da Religião da Humanidade!
7. Ao mesmo tempo, há sempre uma certa exigência de ineditismo – mas apenas uma certa exigência, na medida em que, considerando o sempre presente relativismo, o pleno ineditismo por definição não é possível e, ainda mais, não é necessário
7.1. Dessa
forma, na presente celebração repetiremos algumas palavras que dissemos no ano
passado (a respeito de Augusto Comte) e no ano retrasado (a respeito de
Rosália)
7.1.1. Para a celebração de Augusto Comte, basear-nos-emos no que está disponível aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/01/celebracao-do-nascimento-de-augusto.html
7.1.2. Para a celebração de Rosália, basear-nos-emos no que está disponível aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2024/01/celebracao-de-rosalia-boyer.html
7.2. Além
disso, na sequência recitaremos dois poemas:
7.2.1. Oração anual, de Generino dos Santos
7.2.2. A Augusto Comte, de Charles Jundzill
8. Passando
à celebração de nosso mestre: devemos apresentar algumas breves notas
biográficas sobre Augusto Comte; não pretendemos com elas expor um resumo
completo de sua vida nem sermos detalhados, nem mesmo apresentar nenhuma
novidade: o que importa é indicar as principais etapas de sua vida
8.1. Nosso
mestre nasceu Isidoro Augusto Francisco Xavier Comte, em 19 de janeiro de 1798,
em Mompilher (Montpellier), no Sul da França, no departamento do Hérault; era
filho de Luís-Augusto Comte e de Rosália Boyer Comte; teve dois irmãos menores,
Alice (1800) e Adolfo (1802)
8.2. Ele
fez seus estudos iniciais em sua cidade natal; apresentava uma prodigiosa memória;
com 16 anos, em 1814, foi aprovado em primeiro lugar para a Escola Politécnica,
para cursar Engenharia em Paris, para lá se dirigindo em seguida; na capital
conjugava estudos das ciências com estudos históricos, filosóficos e políticos,
em um ambiente de republicanismo; mas foi expulso da Escola devido a uma
sublevação estudantil
8.3. Voltou
a Mompilher, onde estudou Medicina por seis meses na famosa escola médica
local; por decisão própria, voltou a Paris, onde obteve emprego como
jornalista, com Saint-Simon; ele trabalhou com esse conde entre 1817 e 1824
enquanto continuava seus estudos e elaborava os fundamentos de sua obra; assim,
em 1822 redigiu o seu “opúsculo fundamental”, o Plano dos trabalhos
científicos necessários para reorganizar a sociedade, reeditado em 1824 e
no qual fundou a Sociologia, ao apresentar a lei dos três estados, a lei da
classificação das ciências e uma densa interpretação histórica da Europa
moderna; também em 1825 casou-se com Carolina Massin, em um arroubo de
generosidade somado à solidão que sentia
8.4. Em
1826 suas reflexões científicas fundamentais estavam formuladas e começou a
expor publicamente o Curso de filosofia positiva; entretanto, logo
no início teve que suspender as exposições, pois sofrera um colapso nervoso,
devido à tensão do curso, aos problemas conjugais (Carolina Massin era
agressiva e infiel) e aos problemas financeiros; isso o levou a um internamento
em uma clínica psiquiátrica, onde ficou por um ano e meio; depois que saiu, a
fragilidade de sua situação levou-o ainda a tentar o suicídio: durante toda a
recuperação, teve o apoio de sua mãe, Rosália, que, idosa, foi de Mompilher a
Paris para ajudá-lo, e de sua esposa, Carolina, que, apesar dos pesares, soube
cuidar do marido nessa fase; em 1828 Comte estava novamente em boas condições
8.5. Em
1830 começou a publicação do Sistema de filosofia positiva,
inicialmente chamado de Curso de filosofia positiva; deveria ter
quatro volumes, mas teve seis e foi escrito até 1842; em 1841 Sofia Bliaux
entrou para o serviço de Comte e, em seguida, Carolina saiu de casa pela última
vez, embora o casamento não tenha sido rompido
8.6. Em
abril de 1845 Augusto Comte conheceu a irmã de seu aluno Maximilien Marie,
Clotilde; apaixonou-se por ela e procurou aproximar-se dela (era amigo da
família); ela era uma pessoa sofrida e pudica e que, por isso, impôs limites às
tentativas de aproximação de nosso mestre; mas, apesar de seu ímpeto amoroso, a
correção moral de nosso mestre soube respeitar a vontade, os sentimentos e o
sofrimento de Clotilde, de modo que aos poucos o relacionamento amadureceu e a
confiança mútua desenvolveu-se, com Augusto Comte moderando-se e com Clotilde
abrindo-se para ele
8.7. Os
problemas de saúde de Clotilde, agravados por sua situação pessoal e familiar
resultaram em seu óbito, em abril de 1846, após um “ano sem par”; a
correspondência entre ambos é belíssima, notável e apresenta muitas das mais
importantes produções do Positivismo, como as cartas filosóficas sobre a
comemoração social, sobre o casamento, sobre o batismo, além das sete máximas,
os poemas e as novelas de Clotilde (alguns dos quais, todavia, não eram
inéditos); esse relacionamento, com uma mulher excepcional, foi o que permitiu
e realizou a fundação da Religião da Humanidade e a ultrapassagem do
cientificismo da Filosofia positiva
8.8. Em
1848 Augusto Comte funda a Sociedade Positivista; nesse ano também começa a
publicar as várias obras religiosas: o manifesto político-filosófico Discurso
sobre o conjunto do Positivismo, no qual fala publicamente da Religião da
Humanidade e do dogma da Humanidade; entre 1851 e 1854 publica a sua obra
maior, o Sistema de política positiva, cujo subtítulo resume o seu
objeto: “tratado de sociologia instituindo a Religião da Humanidade”; em 1852
publica o Catecismo positivista, em 1855 o Apelo aos
conservadores, em 1856 o volume primeiro e único da Síntese
subjetiva, além de uma extensa correspondência e um crescente círculo de
discípulos
8.9. Augusto
Comte faleceu em 5 de setembro de 1857, talvez devido a câncer do estômago,
deixando várias obras inconclusas e projetadas: os volumes 2 a 4 da Síntese
subjetiva, livros didáticos, poemas épicos
9. Vale
a pena considerarmos a homenagem prestada a Augusto Comte: é normal, é natural
que nós, positivistas, homenageemos nosso fundador; essa homenagem procura
evidentemente seguir os parâmetros da Religião da Humanidade, isto é, do culto
público, seguindo a orientação humanista, relativa, altruísta do Positivismo
9.1. Nossa
sociedade, seguindo um impulso que vem pelo menos desde o século XVIII, mas que
lamentavelmente se intensificou no século XX, combina os hábitos mentais
teológicos e a crítica destruidora metafísica, resultando em um ambiente mental
e moral degradado, em que as noções de religião e de homenagem religiosa são
entendidas como adoração teológica, isto é, com uma forma de adoração mística,
fanática, intolerante, incapaz de realismo e de apreciação relativista
9.1.1. É dessa
forma que, de maneira hipócrita e contraditória, tanto os teológicos e os
metafísicos místicos quanto os metafísicos academicistas encaram o Positivismo,
ou melhor, a Religião da Humanidade e o culto público
9.1.1.1.
Quem se mantém mais ou menos vinculado às ficções
das divindades considera que a única forma verdadeiro de culto é a sua própria
9.1.1.2.
Aqueles que defendem o negativismo antiteológico,
em sua emancipação incompleta, rejeitam qualquer forma de culto
9.2. Esse
amálgama de podridão moral e intelectual, misto de teologia e metafísica,
atinge mesmo pessoas que se dizem positivistas ou que, de qualquer maneira,
estão próximas de nós, na medida em que elas dizem que é necessário
“ultrapassar” Augusto Comte ou, então, dizem ao mesmo tempo que a elaboração
filosófica e política de Comte da fase da Religião da Humanidade apresenta
aspectos brilhantes mas que a religião é uma concepção de um louco – repetindo,
neste último caso, a difamação estimulada por Carolina Massin a fim de lucrar
com a Filosofia e de destruir toda a produção religiosa de
Augusto Comte (resultante, em última análise, de sua relação com Clotilde)
9.3. O
culto público e o culto privado – como, de resto, a parte cultual da Religião
da Humanidade – não são formas de misticismo ou de fanatismo: são o
reconhecimento da dívida de gratidão e de dívidas morais, intelectuais e
práticas que todos temos para com nossos antecessores
9.3.1. Assim
como um servidor da Humanidade deve merecer o culto, a contrapartida desse
merecimento é exatamente a dívida de gratidão que devemos saldar e honrar
9.3.2. Além
disso, vinculado ao culto e ao dogma da Religião da Humanidade, o neofetichismo
fundamenta e dá corpo a essas práticas, satisfazendo necessidades fundamentais
do ser humano, em termos de sentimentos, de imaginação, de relacionamento com o
ambiente, com os animais, com os outros seres humanos
9.3.3. O culto da Religião da Humanidade, portanto, não é
algo místico e fanático, mas, ao contrário, essas críticas é que são o podre
amálgama de ciumento exclusivismo e de um seco intelectualismo
9.4. Dito
isso, podemos relacionar – mas sem nos estendermos a respeito – alguns dos
elementos mais importantes da obra de Augusto Comte, ou seja, alguns dos
elementos que justificam o culto público dedicado a ele:
9.4.1. Em
nossas prédicas temos procurado sempre nos referir a produções de positivistas
nossos antecessores, de modo a também os homenagear, a valorizar seus esforços
e, assim, a combinar a ordem (no caso, a produção de nossos antecessores) com o
progresso (nossa própria produção, feita considerando as questões
contemporâneas a nós); assim, em 1915, o positivista inglês John Henry Bridges
publicou o artigo “The Seven New Thoughts of the Positive Polity” no
livro Ilustrações do Positivismo (p. 309-332), em que
apresenta sete idéias centrais da política positiva[1];
são elas:
9.4.1.1.
A Humanidade
9.4.1.2.
O método subjetivo
9.4.1.3.
A teoria cerebral
9.4.1.4.
A Moral como ciência suprema
9.4.1.5.
A sociocracia baseada na separação entre os poderes
Temporal e Espiritual
9.4.1.6.
A afinidade entre o fetichismo e o Positivismo
9.4.1.7.
O culto superior ao dogma
9.4.2. A
relação acima é impressionante e de fato cobre várias das mais importantes
concepções de Augusto Comte; vale notar que o fato de elas não serem muito
conhecidas, mesmo hoje em dia, indica com clareza as limitações morais,
intelectuais e políticas da nossa época
9.4.3. Além
da relação acima, modestamente eu sugiro alguns outros itens, sem a menor
pretensão de esgotar as possibilidades:
9.4.3.1.
A Religião da Humanidade
9.4.3.2.
As três leis dos três estados
9.4.3.3.
A Sociologia
9.4.3.4.
A classificação das ciências
9.4.3.5.
A teoria da classificação
9.4.3.6.
As concepções de ordem e progresso e a conciliação
radical entre ordem e progresso
9.4.3.7.
A noção de altruísmo e sua compatibilidade com o
egoísmo
9.4.3.8.
O conjunto do culto positivo
9.4.3.9.
A noção positiva dos “anjos da guarda”
10. Devemos agora passar à celebração da venerável Rosália, mãe de nosso mestre
10.1. No dia 19 de Moisés (19 de janeiro) celebra-se o nascimento de Augusto Comte; conforme o belo calendário estabelecido para os cultos públicos da Igreja Positivista do Brasil, também nessa data se celebra Rosália Boyer, mãe de nosso mestre e um de seus anjos da guarda. (Da mesma forma, no dia 5 de setembro celebra-se a transformação de nosso mestre – e Sofia Bliaux)
10.2. Apesar da importância de Rosália, é notável que haja pouquíssimas indicações de sua vida. As biografias de Augusto Comte escritas pelo dr. Robinet (Notícia sobre a vida e a obra de Augusto Comte) e por José Lonchampt (Epítome da vida e dos escritos de Augusto Comte) apresentam apenas indicações gerais sobre ela, de modo geral relativas ao episódio da crise cerebral de 1826-1827. A biografia que apresenta mais dados sobre Rosália é a de Mary Pickering (Auguste Comte, An Intellectual Biography, v. 1), a despeito do desprezo da autora por Augusto Comte e pelo positivismo e do seu desejo de contradizer tudo o que a tradição positivista (e mesmo a não positivista, a exemplo de Henri Gouhier) disse sobre a vida de Augusto Comte[2]. Também nos valemos do belo volume cultual de Teixeira Mendes, Comte et Clotilde
10.3. Rosália Boyer Comte nasceu Félicité-Rosalie Boyer em 28 de janeiro de 1764, na pequena comuna de Jonquières (no departamento do Hérault), e faleceu em 3 de março de 1837, em Mompilher (sede do Hérault) – portanto, com a idade de 73 anos
10.4. A família de Rosália era de Jonquières; seu pai era mercador e vinha de uma conhecida família de doutores. Para os parâmetros da época, ela casou-se tarde, com 32 anos, em 1796, em Montpellier, e teve quatro filhos: Augusto (1798), Alice (1800), um logo falecido (em 1801) e Adolfo (1802). Na medida em que seu marido, Luís-Augusto Comte, passava a maior parte do tempo fora de casa, no trabalho, Rosália era a figura mais importante da casa; segundo a expressão de Augusto Comte em 1837, após a morte de sua mãe, ela também era a “figura mais apaixonada” da casa. Ainda segundo nosso mestre, fisicamente ele parecia-se com seu pai, mas suas características morais eram mais conforme sua mãe: seus sentimentos, sua inteligência, seu caráter. Apesar disso, as relações de Comte com sua mãe (e com seu pai) não eram muito próximas durante a infância de nosso mestre; os seus estudos foram realizados no liceu local, o que o afastava dos pais (e principalmente da mãe); mais tarde, com sua mudança para Paris, essa distância aumentou ainda mais, em particular devido às diferenças de opinião entre eles. Rosália era católica praticante e levava a sério as explicações teológicas da vida; além disso, ela compartilhava as opiniões monarquistas do seu marido
10.5. Com a idade de 16 anos Augusto Comte foi admitido na Escola Politécnica, tendo obtido o primeiro lugar nos exames do Centro-Sul do país; a partir daí, apesar de uma temporada de retorno a Mompilher, Paris tornou-se a cidade do filósofo. Apesar disso, em Paris, as dificuldades financeiras, as opiniões políticas e filosóficas, as relações sociais (incluindo Saint-Simon) e, depois, também o casamento com Carolina Massin foram motivos de grande tensão entre Augusto Comte e seus pais
10.6. A correspondência entre Augusto Comte e sua família (mãe, pai, irmã) indica reiterados pedidos de dinheiro da parte do filósofo, assim como cobranças da parte da família para que ele estabelecesse-se na vida, obtivesse um bom emprego, afastasse-se das más companhias, voltasse à religião católica etc. Isso gerou animosidade profunda de parte a parte, que só foi começou a ser revertida após a morte de Rosália, em 1837, e que só mudou efetivamente em 1855, com a reconciliação de Augusto Comte com seu pai
10.7. Além dessa tensa e constante troca de cartas, o episódio mais importante da vida de Rosália para Augusto Comte já adulto foi o do acompanhamento da crise cerebral de 1826 e 1827
10.8. Como se sabe, em 19.2.1825 Augusto Comte casou-se com Carolina Massin, contra a mais viva resistência dos pais. Um ano depois, em 2.4.1826, ele começou as aulas orais do “Curso de filosofia positiva”: entretanto, as enormes exigências intelectuais do curso, somadas ao comportamento reprovável de Carolina, bem como às dificuldades materiais do casal, conduziram Augusto Comte a uma crise nervosa após a terceira sessão do curso. Em 18.4.1826 Augusto Comte foi recolhido à clínica psiquiátrica do Esquirol, com o auxílio de Blainville. Mais tarde, no “Prefácio pessoal” do v. 6 do Sistema de filosofia positiva, de 1842, Augusto Comte observaria que essa crise por si só se resolveria naturalmente, caso o tratamento dispensado fosse o cuidado físico e a proteção moral; mas tanto o tratamento físico quanto os remédios aplicados por Esquirol e o ambiente alienado de sua clínica mantiveram e agravaram seu estado alterado
10.9. Enfim, essa internação foi mantida em sigilo, para evitar prejudicar a reputação de Augusto Comte, de modo que nem a família Comte em Mompilher sabia do ocorrido. Mas o pai de Carolina escreveu uma carta à família Comte descrevendo o ocorrido; essa carta chegou em 17.5.1826: no dia seguinte Rosália partiu rumo a Paris, apesar da dureza e da duração da viagem e apesar de ter, à época, 62 anos e uma saúde mais ou menos frágil
10.10. Sendo católica e detestando Carolina Massin, as primeiras ações de Rosália em Paris foram no sentido de tentar tirar Augusto Comte do Esquirol e/ou levá-lo para Mompilher ou interná-lo em alguma instituição católica. Como ambas essas iniciativas falharam, ela tentou em seguida realizar uma “intervenção” judicial, em que Augusto Comte seria tutelado por seu pai e residiria em sua cidade natal: uma reunião para essa intervenção realmente ocorreu, em 15.6.1826, mas, em face do estado do doente, foi necessária uma nova reunião subseqüente, que foi obstada por Carolina. A participação de Carolina em ambos os episódios foi depois considerada por Augusto Comte como a única ação verdadeiramente digna da sua esposa oficial
10.11. A partir daí, Rosália e Carolina mais ou menos fizeram as pazes em prol do restabelecimento de Augusto Comte. Rosália só conseguiu autorização de Esquirol para ver o filho em 15.9.1826; em todo caso, Rosália ia à clínica todos os dias. Com a persistência do problema – e considerando os altos custos da clínica –, decidiu-se que seria melhor tirar Augusto Comte de lá, talvez para levá-lo a Montpellier; em 2.12.1826 ele voltou para o lar conjugal, onde, por insistência de Rosália e graças à intermediação do padre Lammenais, realizou-se imediatamente uma cerimônia católica de casamento, apesar de Augusto Comte não estar nas mínimas condições de participar dela. Após isso, Rosália partiu de Paris; reinstalado em sua casa, em um ambiente mais sadio, aos poucos ele recuperou sua normalidade. (Apesar disso, ao longo de 1827 ele manteve-se tenso e suscetível; assim, em abril desse ano ele tentou o suicídio no rio Sena, durante o dia. Salvo por um guarda real, envergonhado por sua ação, ele tomou a decisão de buscar ativamente o restabelecimento)
10.12. Em agosto de 1828 Augusto Comte publicou o oitavo e último dos seus “opúsculos de juventude”, o exame do livro de Broussais sobre a irritação e a loucura. Por fim, em 4.1.1829, dois anos e meio após o início da primeira exposição oral do “Curso de filosofia positiva”, Augusto Comte reiniciou, desde a primeira lição, o curso
10.13. Enfim: após a saída de Augusto Comte da clínica de Esquirol e a cerimônia católica de casamento, Rosália voltou a Mompilher; ela nunca mais veria o filho e este, desde 1825 (após o casamento com Carolina), nunca mais viu a mãe em condições de plena sanidade. Ainda assim, ao longo do primeiro semestre de 1827, ela enviou-lhe regularmente pequenas economias, para ajudar nosso mestre
10.14. Quando Rosália faleceu em 1837, Augusto Comte aproveitou as viagens que ele fazia pelo Centro-Sul da França como examinador da Escola Politécnica para ir a Montpellier e visitar a família, hospedando-se na casa dos pais. Foi então que afirmou a importância da mãe em sua infância e em seu caráter; da mesma forma, a partir daí reconheceu – e lamentou – a relativa pouca influência que ela teve sobre ele, devida em parte ao sistema educacional de que participou, em parte devido ao que ele desejava para sua vida
10.15. As limitações nas relações com sua mãe foram parcialmente corrigidas, e acima de tudo foram valorizadas e cultuadas, durante a carreira religiosa de Augusto Comte:
10.15.1. com o reconhecimento e com o lamento, no “prefácio” ao v. 1 do Sistema de política positiva, da sua falta de ternura para com sua mãe;
10.15.2. no Catecismo positivista, com a instituição dos “anjos da guarda”, em particular com os três anjos particulares de Augusto Comte: Clotilde, Rosália e Sofia;
10.15.3. com a previsão de dedicatória dos dois volumes da Moral positiva (volumes 2 e 3 da Síntese subjetiva, dedicados respectivamente à Moral Teórica e à Moral Prática) a Rosália;
10.15.4. com as suas preces cotidianas sendo dirigidas principalmente a Clotilde, mas também a Rosália e a Sofia;
10.15.5. com a sua planejada inumação entre seus três anjos da guarda.
10.16. No velório de Augusto Comte, de 5 para 8 de setembro de 1857, lia-se a seguinte inscrição no caixão: “À la digne mère d’Auguste Comte, Rosalie Boyer, née le 28 janvier 1764, à Jonquières (Hérault), et dècèdée le 3 mars 1837, à Montpellier”[3].
10.17. Rosália teve seus defeitos e, por vezes, agiu de maneira que não foi valorizada por Augusto Comte. Apesar disso – e essa restrição, o “apesar disso”, é central para nós –, ela foi uma pessoa que se preocupou, ao longo de toda a sua vida, com seus filhos e com sua família, mesmo que à distância; assim, literalmente, ela foi um anjo da guarda para Augusto Comte
10.17.1. Isso representa bem em que consiste a idealização proposta pelo Positivismo, ou melhor, pela Religião da Humanidade, especialmente no caso das mulheres: a dedicação com vistas ao aperfeiçoamento moral dos seres humanos
11. Passemos à leitura de dois poemas em homenagem a nosso mestre:
11.1. Oração anual, de Generino dos Santos
11.2. A Augusto Comte, de Charles Jundzill
12. Invocação final
* * *
ORAÇÃO ANUAL
A Augusto Comte incorporado
(Generino dos Santos)
In
te misericordia, in te pietate,
In
te magnificenza, in te s’aduna
Quantunque
in creatura é de bontate[4].
(Dante – Del Paradiso, Canto XXXIII,
v. 19-21.)
Tu,
que ensinaste a amar a Humanidade,
E a conhecê-la por melhor servi-la,
Subordinando o egoísmo que aniquila
Do providente altruísmo à majestade;
E, sobre a lei da sociabilidade
De nossa espécie, a evoluir tranqüila,
O Grande Ser criaste, que assimila
E dá “quanto em Ti mesmo há de bondade”:
Mestre! alma obscura e agradecida
Que te ama, embora em cérebro inda inculto,
Vos deve a inteira e religada vida;
Em vem humildemente ante teu
vulto,
Que paira sobre a espécie redimida,
Render-te esponte afetuoso culto.
(Rio, 24 de Gutenberg de 103 – 5 de setembro de 1891.)
* * *
Esboço poético sobre o fundador do Positivismo[5]
(Charles Jundzill)
Quando em toda parte o solo
Sob os destroços se abala;
Quando o céu, de pólo a pólo,
Para que todo estala,
Nosso ânimo assombrado
Repousa o olhar desvairado
Nesse mundo a se arruir!
Buscando nesse naufrágio
O esperançoso presságio
Da salvação do Porvir.
Nosso séc’lo em desvario
Assim corria aos azares,
Qual se vê frágil navio
Entregue à fúria dos mares!
Saído da luta rude,
Que ameaçava a virtude,
Toda crença devorando,
Seu último íd’lo partido,
No vago desconhecido
Sem norte se ia engolfando.
Mas já por entre a ruína
Um novo símb’lo fulgura!
Grata luz nos ilumina
Que o mais belo dia augura!
Terrores de nossa idade,
Sumi-vos! Que a Humanidade
Jamais pode sucumbir!
Em vão se a crê que esvaece!
Engano! Rejuvenesce
Para um glorioso porvir...
A ti, Comte,
a glória eterna
De, vencendo atrás torturas,
Achar a fonte superna
Da fé das eras futuras!
Debalde o Mundo em delírio,
Nas vascas do cru martírio,
Do erro a voz escutava;
Já teu gênio penetrante
De uma harmonia constante
As firmes leis formulava.
Enquanto a dúvida esgota
A seiva das velhas crenças,
Do tempo inquirindo a rota
As mutações lhe condensas:
E na onda movediça
Da evolução quebradiça
Das priscas opiniões,
Teu sublime engenho integra
Os elementos e a regra
Das modernas construções.
A ciência fica senhora
Quando a fé por fim naufraga.
Cada vez mais a vigora
Lei fatal que tudo esmaga.
Fornece ela o chão propício,
Alicerce do edifício
Da verdadeira união;
Teu labor por ela enceta,
E dela por ti completa
Tiraste a religião.
Do Mundo o extremo recesso
Sua luz já penetrara:
E da vida em seu progresso
A fértil lei desvendara;
Mas no ínclito sistema
Falta a ciência suprema
Que a meta final assina:
Revinha a questão urgente
Com que sempre a nossa mente
A Humanidade domina.
Dessa existência sem par
Restava ler os arcanos:
A marcha eterna apanhar
De seus passos soberanos!
Restava, e foi tua glória,
Traçar o plano da história
Que enfim nos fez descobrir
Como, nas eras correndo,
Qual da fonte um rio nascendo
Sai do Passado o Porvir.
Destarte finda, a ciência
As razões de tudo alcança;
Nessa base a inteligência
Os seus esforços descansa.
Desde então se mostra o mundo,
No seu concerto profundo,
A nossos livres olhares,
Como vasta economia,
Sujeita a certa harmonia
Sem caprichosos azares.
A Humanidade resume
As nossas cogitações;
A Ela sobe o perfume
Das mais santas afeições;
Foi Ela o ideal propício
Que pressentira o início
Dos povos na infância terna;
A Ela o homem se prostra,
E seu reino o fim só mostra
Da tempestade moderna.
Tal era o problema ingente
A que só teu gênio iguala!
O teu supremo ascendente
Toda dádiva avassala!
Que o vulto de nossas eras
Correndo após vãs quimeras
Os teus louvores postergue!
O Porvir, cujo mistério
Desvendaste, infindo império
Por entre bênçãos te ergue!
[1] Disponível em versão resumida aqui: http://positivists.org/blog/comtean-positivism e
em versão completa aqui: https://archive.org/details/illustrationspo00jonegoog/page/308/mode/2up?view=theater.
[2] As opiniões da autora são expostas ao mesmo tempo em que ela cita – mas não reproduz! – centenas de documentos, muitos dos quais inéditos; assim, os leitores temos pura e simplesmente que confiar na autoridade da autora. Inversamente, postura bem diversa foi adotada pelos positivistas: Miguel Lemos e Teixeira Mendes citavam extensa e profusamente Augusto Comte, tanto em português quanto em francês; da mesma forma, o dr. Robinet incluía em seus livros centenas de páginas de “peças justificativas”: com isso, qualquer leitor podia, como pode, avaliar as opiniões dos autores e historiadores a partir do cotejo direto com as personalidades citadas.
[3] “À digna mãe de Augusto Comte, Rosália Boyer, nascida em 28 de janeiro de 1764, em Jonquières (Hérault), e falecida em 3 de março de 1837, em Montpellier”.
[4] Segundo a tradução usada na Igreja Positivista do Brasil:
Em Ti
misericórdia;
Em Ti
piedade;
Em Ti
magnificência;
Em Ti
concorre
Tudo quanto
no mundo
Há de
bondade.
[5] Esse poema é de 1852 e
foi originalmente publicado por Augusto Comte como
quarto anexo do “Prefácio” do v. I da Síntese
subjetiva (1856, p. L-LIII). Charles
Jundzill era polonês; nascido em 1826, faleceu em 1856.
A presente tradução é de R. Teixeira Mendes e foi publicada no opúsculo n. 134 do catálogo da Igreja Positivista do Brasil (19 de Moisés de 113 – 19 de janeiro de 1901).
