05 maio 2026

O Brasil à beira do golpe

O texto abaixo corresponde a uma resenha que escrevi sobre o livro Por que a democracia brasileira não morreu?, da autoria de Marcus André Melo e Carlos Pereira e publicado em 2024 pela Companhia das Letras. 

A minha resenha foi escrita em 2025 e submetida a algumas revistas científicas. Após meses e meses esperando alguma avaliação, percebi que não valeria mais a pena esperar essa avaliação: quando ela começasse, demoraria alguns meses, sucedidos ainda pelo tempo da minha revisão, da segunda rodada de avaliações e ainda um prazo indeterminado para publicação. Como o tema do livro e da resenha tem-se modificado com certa rapidez, percebi que não faria sentido esperar que as revistas decidam avaliar o meu texto enquanto a realidade modifica-se e os comentários abaixo ficam descontextualizados. Daí a publicação em nosso blogue.


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O Brasil à beira do golpe

Resenha do livro Por que a democracia brasileira não morreu?, de Marcus André Melo e Carlos Pereira (São Paulo: Companhia das Letras, 2024).

 

Resumo

O presente artigo resenha o livro de Marcus A. Melo e Carlos Pereira, Por que a democracia brasileira não morreu, publicado em 2024 e que atribui à força e à atuação das instituições políticas brasileiras a permanência da democracia no país durante e logo após a Presidência de Jair Bolsonaro (2019-2022). De maneira específica, esta resenha põe em questão a tese central do livro de Melo e Pereira e afirma que não foram todas as instituições brasileiras que tiveram um papel positivo nessa permanência, mas apenas algumas; trata-se então de uma tese fraca da importância institucional. Contra a tese forte de Melo e Pereira, argumenta-se que outras instituições foram fracas, coniventes ou omissas e que os autores ignoram pelo menos três aspectos: (1) a atuação das Forças Armadas; (2) a omissão da Procuradoria-Geral da República; (3) o simples aventureirismo político; além disso, há no livro (4) uma concepção equivocada da opinião pública. Além disso, o artigo destaca outros pontos frágeis do livro, especialmente em termos conceituais: o elogio do parlamentarismo, o entendimento de populismo como demagogia antissistêmica e a referência à I República brasileira como “República Velha”.

Palavras-chave: política brasileira; democracia; golpe de Estado; fascismo; instituições.


1. Introdução

Nas páginas que se seguem apresentarei algumas considerações sobre o livro Por que a democracia brasileira não morreu?, de Marcus André Melo e Carlos Pereira (São Paulo, Companhia das Letras, 2024). Tais considerações não pretendem esgotar o livro nem esquadrinhar minuciosamente os seus argumentos (quer sejam teóricos, quer sejam empíricos); detendo-nos no argumento central e em alguns poucos aspectos secundários desse volume, o que desejamos com esta resenha é dialogar, um pouco no calor do momento, sobre os rumos e as possibilidades da nossa vida coletiva.

2. O livro e o argumento de Melo e Pereira

O livro é de leitura fácil e agradável, tendo sido escrito tanto para o grande público quanto para especialistas; do início ao fim ele é muito bem argumentado, com uma exposição que apresenta aos poucos ao público leitor, em curtos capítulos iniciais, os conceitos expostos e depois apresenta a argumentação propriamente dita. Assim, após capítulos teóricos, os autores apresentam reflexões históricas e empíricas, começando no início da década de 2010 (final do segundo mandato de Lula e começo do primeiro mandato de Dilma) e avançando até os anos iniciais do terceiro mandato de Lula (2023-2024); quanto mais o relato recua no tempo, mais as questões históricas são analisadas à luz de considerações teóricas; inversamente, quanto mais recentes os acontecimentos, mais a exposição é cronológica e menos apreciada teoricamente. Essa recapitulação teórica e, depois, histórica ocupa a parte I do livro; já a parte II dedica-se à parte mais importante do livro, com o exame do governo Bolsonaro (2019-2022) e da resiliência das instituições presidencialistas brasileiras. O pano de fundo da argumentação dos autores é que o Brasil conjuga – nos termos de Arend Lijphart (2003) – instituições majoritárias (a Presidência da República) com instituições consensuais (federalismo, congresso bicameral proporcional, instituições autônomas, constituição escrita e de difícil alteração etc.) no quadro do presidencialismo multipartidário (popularmente chamado de “presidencialismo de coalizão”, seguindo a terminologia e a reflexão inauguradas por Sérgio Abranches (1988; 2018)). Embora o argumento centre-se no período 2019-2022, o recuo histórico até cerca de 2010 cumpre a função de contextualizar o período central na argumentação e indicar a fragilização progressiva das nossas instituições, quando não do nosso ambiente social e político.

A tese do livro é que, no período entre meados de 2018 (campanha eleitoral presidencial) e o início de 2023 (ataque aos Três Poderes), embora o país tenha passado por uma grande tensão política e social – entre outros motivos porque o Presidente da República Jair Bolsonaro estimulava o confronto, a radicalização política, a violência (retórica, política e social) –, na verdade o país esteve bem distante de qualquer possibilidade real de rompimento institucional (isto é, de golpe político iliberal). Em termos teóricos, os autores dialogam com inúmeros autores e atores que, antes do e durante o governo de Bolsonaro, prognosticaram a falência das instituições brasileiras e a provável queda do Brasil em um regime “iliberal” (em bom português: um regime (neo)fascista), em virtude da corrosão progressiva das nossas instituições desde 2015 (ou, talvez, 2013) e, via golpe e/ou via corrupção institucional, a partir de 2019. Entre os pesquisadores que se destacam nesses prognósticos figuram Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores do famoso Como as democracias morrem (2018)[1].

Dialogando com Levitsky e Ziblatt (de maneira mais explícita na parte I, de maneira mais implícita na parte II do livro), o motivo apresentado pelos autores para justificar a resiliência da democracia brasileira é que o conjunto das instituições manteve-se firme ante as constantes ameaças golpistas, tanto do fascista quanto de seus apoiadores. Para isso, em meio à argumentação teórica e histórica, os autores apresentam um exemplo bastante ilustrativo: na II Guerra Mundial, Winston Churchill estimulou o medo que a população inglesa tinha de uma invasão marítima alemã, eventualmente atravessando o Canal da Mancha para isso; entretanto, segundo os autores essa possibilidade era irrealista e Churchill tinha clareza disso; mas, apesar disso, instilar o medo era importante para manter o moral e o esforço de guerra, além de silenciar quintas-colunas. Aplicando esse exemplo à situação brasileira, o que Bolsonaro teria feito seria apenas uma intensa guerra psicológica, sem chances reais de dar um golpe – e com plena consciência dessa impossibilidade.

Se os incessantes esforços golpistas de Bolsonaro, desde antes de sua eleição e durante todo o seu mandato (e, incrivelmente, mesmo após o seu mandato, haja vista os ataques aos Três Poderes!), resultaram, na opinião dos autores, apenas uma ilusão de possibilidade de golpe, isso se deu apesar dos esforços e da retórica golpista e em virtude da resistência ativa (1) de vários órgãos públicos (a começar pelo Supremo Tribunal Federal, que – coisa inédita – uniu-se na defesa das instituições e das liberdades, passando pelo Congresso Nacional, especialmente durante o mandato de Rodrigo Maia como Presidente da Câmara dos Deputados), (2) da resistência da sociedade civil e dos grandes veículos de comunicação (como os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, mas principalmente a Rede Globo), (3) da atuação de inúmeros governadores de estado (a começar pelo de São Paulo, João Dória). Além dessa atuação ativa contra o golpismo e o fascismo da parte de atores institucionais e sociais, os autores citam ainda (4) a ausência de apoio do conjunto do alto generalato às intenções golpistas do Presidente da República e (5) até uma atuação do Ministério Público.

Em termos conjunturais, os autores também indicam que o governo Bolsonaro enfrentou dois choques, que o obrigaram a ceder e que diminuíram bastante a sua popularidade: (1) a péssima gestão federal da pandemia de covid-19 e, depois, (2) as acusações de corrupção que pesaram sobre seu filho mais velho quando este foi vereador do Rio de Janeiro, o atual Senador Flávio Bolsonaro; aos problemas de seu filho associam-se as dezenas de pedidos de impedimento feitas contra o próprio Presidente da República. Assim, o resultado é que à resistência ativa das instituições e à falta de apoio (dos militares e mesmo da sociedade civil), Bolsonaro teve que se haver com uma conjuntura em parte inesperada (a pandemia), em parte previsível (investigações sobre corrupção do clã Bolsonaro); o que já não era forte tornou-se fraco: daí a resiliência democrática brasileira.

Embora os autores não enfatizem este aspecto, talvez o melhor exemplo de “contrafactual” para a tese da falta de força efetiva de Bolsonaro tenha sido a necessidade de ele dobrar-se ao Centrão, na segunda metade de seu governo, a fim de obter um certo apoio contra a dupla ameaça que passou então a pairar contra o clã Bolsonaro, ou seja, as investigações contra seu filho e os pedidos de impedimento contra ele próprio. Após dois anos rejeitando coalizões e o próprio Centrão (apesar de, depois, Bolsonaro assumir que ele mesmo sempre foi do Centrão) e batendo de frente contra o Congresso Nacional (na figura de Rodrigo Maia), esse dobrar-se ao Centrão em 2021 significou na prática Bolsonaro submeter-se em particular ao Presidente da Câmara dos Deputados, Artur Lira, um legítimo representante e chefe do Centrão, que, indiferente ao destino do Presidente da República (ainda que, aparentemente, simpático aos valores expressos pelo neofascista), passou a cobrar literalmente muito caro por essa sobrevida política.

3. Os principais problemas do livro

O livro tem os evidentes méritos de enfatizar a resistência social e institucional ao golpismo, lembrar o choque representado pela crise da pandemia, bem como de evidenciar (embora não muito) o contrafactual da submissão de Bolsonaro ao Centrão: inegavelmente, tudo isso constitui elementos positivos do livro. Por outro lado, os autores não abordam aspectos importantes para a força (e não a fraqueza) de Bolsonaro; os autores mesmo dão como certos alguns elementos que foram qualquer coisa menos certos, em particular três: (1) o papel das Forças Armadas, (2) a subserviência do Procurador-Geral da República a Bolsonaro e (3) um eventual aventureirismo político. Vejamos cada um deles.

3.1. O papel das Forças Armadas

Em primeiro lugar, o conjunto do alto generalato (incluindo aí, sem dúvida, não apenas o Exército, mas também a Marinha e a Aeronáutica) não se manifestou contrariamente ao golpismo e ao fascismo; na verdade, embora devessem manter-se em silêncio (conforme o ideal francês do “grande mudo”), eles manifestaram-se em diversas ocasiões e nessas ocasiões as manifestações foram de apoio ao golpismo e ao fascismo. Os autores citam como exemplo de repúdio público dos militares em relação ao golpismo e ao fascismo a demissão coletiva dos comandantes das três forças em março de 2021: de fato, esse episódio foi muito feliz e, por um breve instante, foi importante: todavia, no conjunto do governo Bolsonaro foi apenas um episódio, ou seja, tem valor meramente anedótico (que honra os comandantes demissionários), mas que não é exemplar em nenhum sentido sociológico do comportamento e dos sentimentos políticos das Forças Armadas para o que nos interessa. Ademais, ainda que se possa argumentar que o conjunto das Forças Armadas não apoiasse o golpismo e o fascismo – algo bastante discutível, haja vista uma quantidade enorme de casos, situações e exemplos em contrário, indo desde os praças até os altos oficiais –, o fato é que o exemplo histórico de 1964 deixa claro que é perfeitamente possível que os militares “durmam legalistas e acordem golpistas”.

Em sentido semelhante, os autores ignoram totalmente a instrumentalização da burocracia pública para beneficiar o golpismo e o fascismo, especialmente a alta burocracia federal: sem esgotar as possibilidades, devemos citar aqui a Polícia Federal (PF), a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Tanto os chefes dessas instituições quanto importantes diretores dessas agências manifestaram-se de maneira reiterada a favor, ou pelo menos foram simpáticos, ao golpismo e ao fascismo. Isso, claro, sem falar das forças de manutenção da ordem estaduais, ou seja, as polícias militares. A desprezível atuação da PRF no segundo turno das eleições presidenciais de 2022, em que atuou claramente para impedir que eleitores nordestinos fossem aos seus locais de votação, e o estarrecedor episódio de 8 de janeiro de 2023 – o ataque aos Três Poderes –, em que órgãos de segurança foram omissos ou cúmplices dos ataques, são bem mais que meros casos isolados; eles representam com clareza a cooptação dessas instituições de manutenção da ordem.

Ora, é necessário insistir nesse ponto: os autores são ligeiros ao abordar as forças de segurança, que têm as Forças Armadas como grande símbolo, mas que nem de longe se limitam a elas, na medida em que abrangem também as polícias militares e outras agências, como a PF e a PRF, sem contar a Abin. Esse conjunto de atores e instituições não é um conjunto qualquer; ele corresponde aos agentes que, literalmente, detêm na prática o “monopólio do uso legítimo da força”. Esse conjunto de atores é essencial para qualquer golpista; para além das constantes referências às misteriosas “quatro linhas da Constituição” e ao problemático art. 142 da nossa carta magna (o artigo que estipula as responsabilidades constitucionais das Forças Armadas), o fato é que todas essas forças eram, como são, inequivocamente simpáticas a Bolsonaro e a suas propostas políticas – e, se isso não fosse pouco, tudo isso contando ainda com o apoio de pelo menos uma grande minoria da população. As constantes ameaças de golpe realizadas por Bolsonaro eram sempre feitas com a fundamental conivência dessas forças, às vezes de maneira implícita, às vezes de maneira explícita.

3.2. A atuação da Procuradoria-Geral da República

Em segundo lugar, os autores deixam em total silêncio a atuação do chefe do Ministério Público Federal (MPF), o Procurador-Geral da República (PGR) indicado pelo próprio Bolsonaro em 2019 –  – atuação que não conseguimos caracterizar senão como servil. Na verdade, os autores afirmam mesmo, embora sem se estenderem a respeito, que o MPF atuou como freio e contrapeso ao fascismo e ao golpismo. Todavia, foi público e notório que esse PGR foi completamente omisso a respeito do seu Presidente da República, na esperança da recondução ao cargo em 2021 ou, até mesmo, de indicação a Ministro do STF. Todos os reiterados comportamentos, pronunciamentos e decisões antirrepublicanos e evidentemente passíveis de responsabilização política e criminal da parte do Presidente da República no período 2019-2022 foram olimpicamente ignorados pelo PGR. Essa ativa omissão do PGR foi um estímulo constante ao golpismo e ao fascismo da parte do Presidente da República e uma franca sinalização de sua impunidade no caso de golpe (bem sucedido ou malogrado) – e isso logo da parte de uma das mais importantes instituições republicanas.

Esses dois conjuntos de atores – as forças de segurança (encabeçadas, no caso, pelas Forças Armadas, mas não limitadas a elas) e o PGR – não são instituições secundárias ou desprezíveis. As forças de segurança por si sós são importantes e instrumentais para qualquer golpe. As forças de segurança são os instrumentos por excelência dos golpes; a conivente omissão do PGR garantia a impunidade em qualquer hipótese. Como era público e notório, Bolsonaro tinha perfeita consciência disso desde o início.

3.3. O aventureirismo político

Em terceiro lugar, os autores deixam de lado a possibilidade do simples e direto aventureirismo político, isto é, de uma tentativa clara de golpe, de putsch. O golpe militar de 1964 começou com a ação isolada, misto de arroubo com insanidade, de Olympio Mourão Filho, que decidiu sozinho, em sua guarnição em Juiz de Fora, dirigir-se ao Rio de Janeiro[2]. Mesmo para retornarmos ao exemplo de Churchill na Batalha da Inglaterra, o fato é que Churchill não tinha a menor certeza de que Hitler não invadiria a Inglaterra por via marítima (nem mesmo por via aérea); por mais improvável que pudesse ser essa invasão marítima, o fato é que Hitler era um apostador e um aventureiro político; a subsunção de racionalidade fazia sentido para outros políticos, como Stálin, Roosevelt e o próprio Churchill, mas Hitler era sabidamente diferente. Assim, o que Churchill de fato sabia é que, com Hitler, devia-se esperar o inesperado e não pressupor nenhuma racionalidade habitual, nenhum bom senso comum[3]. Ora, trazendo esses exemplos para o nosso caso atual, os autores partem do pressuposto da racionalidade no caso de Bolsonaro, algo que está muito longe de corresponder à realidade. Esse tipo de argumento (o pressuposto da racionalidade), problemático por si só, apresenta um complicador adicional para a exposição dos autores: como eles mantêm-se estritamente no âmbito do institucionalismo, decidiram não enveredar pela área mais problemática da “psicologia política”, com evidente prejuízo para o seu argumento. Entretanto, ainda assim os autores apelam indiretamente para a “psicologia política”, ao indicarem que a funcionalidade do presidencialismo multipartidário depende em grande medida da capacidade política do seu operador-mor, no caso o Presidente da República.

Caso desejassem – e, na verdade, deveriam ter desejado – usar a “psicologia política” em favor de seu argumento, os autores deveriam ter indicado que sucessivos casos concretos evidenciaram que Bolsonaro com frequência foi covarde, preferindo manter-se com uma retórica agressiva mas sem se lançar a ações efetivas; em outras palavras, o conjunto do seu comportamento revela covardia e agressiva bazófia. Por outro lado, a covardia pessoal de Bolsonaro não impedia nem impediria o aventureirismo político dos seus auxiliares, a começar pelos seus filhos mais novos e pelo titular do Gabinete de Segurança Institucional, sem contar os seus milhões de seguidores país afora, institucionais ou não, civis ou não. Qualquer um deles poderia muito bem ter querido arriscar tudo de acordo com o modelo de “dormir legalista e acordar golpista”. Convém ainda notar que, quer fosse bazófia – como de fato se comprovou, a posteriori, que era –, quer não fosse, a mais básica responsabilidade política exigia, no contexto do governo Bolsonaro, em face das suas reiteradas declarações golpistas, autoritárias, de agrado às forças de segurança e de cooptação do PGR, que se considerasse suas afirmações e suas ameaças como reais e não como bazófia. Inversamente, em face da possibilidade de termos um resultado negativo, seria a mais completa irresponsabilidade levar de maneira superficial as intenções declaradas do fascista: quem estaria realmente disposto a pagar para ver se era ou não bazófia?

3.4. Opinião pública e golpismo

Uma observação feita pelos autores a partir de Adam Przeworski sobre a opinião pública causa profunda estranheza. Em recente livro (Crises da democracia, 2020), esse cientista político polonês argumenta, entre outras coisas, que a opinião pública não importa para a possibilidade ou não de golpe e, mais importante, para a fraqueza institucional. Isso é altamente discutível, tanto do ponto de vista empírico quanto do ponto de vista normativo. Em termos normativos, é estranho, ou melhor, chocante, ou melhor, inadmissível, que o suposto “governo do povo” – a “democracia” – seja insensível à opinião pública; os autores deveriam ter profunda vergonha de meramente aventar uma possibilidade dessas. Por certo que se entendermos a “opinião pública” como sendo as ondas episódicas e, por vezes, mesmo histéricas que atravessam o conjunto da sociedade, não há dúvida de que essa concepção grosseira e rasteira de opinião pública não influencia nem deve influenciar profundamente as instituições. (Bem, na verdade esse arremedo de opinião pública influencia, sim, as instituições, para bem e para o mal.) Mas, de qualquer maneira, é a opinião pública que confere legitimidade ao conjunto das instituições e, de qualquer maneira, é o que mantém usos, costumes e práticas sociais, incluindo aí as instituições políticas. Pode-se argumentar que muitas vezes o apoio aos usos, costumes e instituições ocorre de maneira bastante passiva, mesmo somente a partir de um certo conformismo geral; mas nada disso muda o fato de que é a opinião pública que mantém as instituições. Ora, se um apoio difuso, passivo e resignado basta muitas vezes para manter práticas e instituições, inversamente um apoio tanto difuso quanto concentrado a favor do golpismo e do fascismo pode muito bem servir de substrato para efetivamente resultar em golpes autoritários: para limitarmo-nos a casos claramente negativos, foi isso o que ocorreu na Rússia em 1917, na Itália em 1922, na Alemanha em 1933, no Brasil em 1964.

Em suma: se por um lado as instituições brasileiras não estavam tão frágeis quanto se poderia pensar à primeira vista e/ou a partir de considerações como as expostas por Levitsky e Ziblatt e, nesse sentido, os autores têm lá certa razão, por outro lado os autores exageram o seu argumento e, padecendo de um certo viés de seleção, deixam de lado e/ou minimizam a ação de atores centrais no sentido de fortalecer e viabilizar as intenções golpistas de Bolsonaro. Esse deixar de lado e/ou minimizar é fatal para o argumento dos autores e, bem vistas as coisas, teria sido fatal para os destinos do país.

4. Instituições e golpismo: teses fortes e fracas

O conjunto dos argumentos que os autores apresentam no livro dá o que pensar e exige reflexão; na verdade, estas anotações que escrevemos são um pequeno resultado desse “dá o que pensar”. Entrementes, dar o que pensar é diferente de concordar; por outro lado, discordar do argumento é diferente de discordar de tudo o que o livro apresenta. Dessa forma, podemos considerar que o livro pode ser entendido como apresentando uma tese forte e uma tese fraca; a tese forte é o argumento dos autores em si mesmo, segundo o qual as instituições brasileiras foram fortes o suficiente para evitar e manter à distância o golpismo e o fascismo, de tal maneira que esse resultado (um golpe fascista) foi, o tempo todo (ainda que dependendo da ação ativa contra o golpismo), apenas u’a miragem. A partir do que expusemos acima, parece-nos que os argumentos dos autores são insustentáveis para essa tese, para a sua tese forte. Por outro lado, é possível desenvolvermos uma tese fraca, segundo a qual as instituições brasileiras – ou melhor, algumas instituições – foram importantes para frear e dificultar o golpismo e o fascismo, mas, ainda assim, a possibilidade de golpe era real e efetiva, haja vista o apoio de outras instituições, igualmente importantes.

A tese forte parece-nos insustentável do ponto de vista teórico; mas ela também é insustentável de uma perspectiva moral e prática, isto é, de uma perspectiva da prática da cidadania. Não há o que discutir que, de fato, as instituições brasileiras – ou melhor, mais uma vez: algumas instituições – atuaram como freios e contrapesos ao golpismo e ao fascismo de maneira ativa; entrementes, elas não atuaram dessa forma por mera inércia institucional; não se tratou da atividade ordinária, como se faz todos os dias; foi necessário um esforço consciente, claro, muito ativo contra o golpismo e o ativismo fascista. Esse esforço ativo, consciente, claro realizou-se contra um contexto adverso, em que outras instituições eram favoráveis, simpáticas ou omissas ao golpismo e a cujo respeito uma parte importante da opinião pública – opinião pública que os autores minimizam ou desprezam! – também foi solidária. Ora, dizer que “(algumas) instituições atuaram como freio e contrapeso” e que isso por si só bastou para evitar o golpismo e o fascismo, tornando a possibilidade de golpe fascista uma ilusão, é o mesmo que desvalorizar e, na prática, reduzir a tolice os esforços feitos por todos aqueles que se manifestaram e atuaram ativamente contra o golpismo e o fascismo. Deixando de lado a desvalorização da opinião pública realizada por Przeworski e referendada por Melo e Pereira, não parece que se valoriza a atuação política consciente e moralmente orientada afirmar que o ativismo antigolpista e antifascista realizado por partes importantes da sociedade civil e de integrantes de instituições no fundo tratou-se de ilusão, pois as instituições políticas de freio e contrapesos atuaram normalmente (bem, talvez um pouco fora do normal) e que foram suficientes por si sós para impedir a morte da democracia no Brasil no período 2018-2022. Insistamos uma última vez, de maneira sintética: se o funcionamento das instituições bastasse por si só, todas elas, ou sua maioria, bastaria e, ademais, não seria necessário um esforço ativo e consciente, ao longo de quatro anos, de algumas instituições e do conjunto da sociedade civil para evitar os resultados que se desejava evitar e que, afinal, conseguiu-se de fato evitar.

5. Problemas adicionais do livro

5.1. O elogio do parlamentarismo

Sobre o argumento principal do livro, neste momento é essa a opinião que podemos ter. Dito isso, há ainda alguns aspectos adicionais problemáticos que, parece-nos, devem ser mencionados. Em primeiro lugar, o estranho elogio do parlamentarismo em um livro dedicado à defesa do presidencialismo. No final das contas, o livro é elogio e uma defesa do presidencialismo brasileiro; apesar disso, os autores em diversos momentos fazem o elogio do... parlamentarismo; esse elogio dá-se de muitas formas: por meio das referências reiteradas a Juan Linz, o grande defensor acadêmico do parlamentarismo na ciência política do pós-guerra; por meio da citação de um dos grandes teóricos ingleses do parlamentarismo, Walter Bagehot; por meio de críticas não respondidas ao presidencialismo. Isso confere um caráter estranho ao conjunto do livro; por exemplo, muitas críticas ao presidencialismo o conjunto do livro exigiria que fossem respondidas, na medida em que influenciam decisivamente o argumento dos autores. Assim, é notável que um livro que, no conjunto é “expositivo” ou “objetivo”, adota um incoerente aspecto doutrinário a respeito do parlamentarismo. Esse aspecto confuso e incoerente acentua-se quando se considera – ou melhor, quando nós consideramos, pois os autores não por acaso deixam de lado – os vários aspectos históricos e teóricos ligados ao Estado e às características daninhas do parlamentarismo. Na medida em que os autores fazem um incoerente e injustificado elogio do parlamentarismo (elogio reiterado por Barry Ames, no “posfácio” do livro), cabe aqui indicarmos, sem pretensão de exaustividade, algumas das características daninhas próprias ao parlamentarismo:

1)      o papel fundamental do Estado é o governo, a que se associa a justiça: assim, a produção de leis é uma parte importante, mas subordinada no conjunto da vida política; a precedência é do Executivo e do Judiciário sobre o Legislativo, não o inverso;

2)      como os exemplos da Inglaterra e de Veneza (mas também da Polônia) deixam claro, o parlamentarismo é antes de mais nada o órgão da reação feudal contra a aliança do povo com os governantes;

3)      o papel precípuo do parlamento é a votação do orçamento; é a partir desse aspecto que se começa a e que se deve falar em representação e representatividade;

4)      a sociedade (a “sociedade civil”) organiza-se e representa-se por si só; é a sociedade, por meio de órgãos específicos e estritamente “societais”, que pode e deve ser a intérprete da opinião pública, não o parlamento;

5)      o parlamento é intrinsecamente uma instituição que obscurece a responsabilidade política (como, aliás, o próprio Walter Bagehot reconhece);

6)      o parlamento estimula a confusão entre o poder temporal e o poder espiritual e que, portanto, estimula as doutrinas oficiais de Estado e o clericalismo, ou seja, a degradação moral das doutrinas, o cerceamento da cidadania e a hipocrisia pública;

7)      sem esgotar os vícios possíveis do parlamentarismo, o fato é que o parlamento e o parlamentarismo jamais impediram de verdade crimes e golpes: limitemo-nos à escravidão vigente durante o parlamentarismo monárquico brasileiro, ao fascismo italiano e ao nazismo alemão, sem contar o violentíssimo imperialismo inglês, iniciado contra a Irlanda no século XVII e estendido até o século XX na Ásia, na África e na América.

Nada desses aspectos é sugerido ou indicado no livro de Marcus Melo e Carlos Pereira. Mais uma vez: em princípio, nem seriam necessárias essas reflexões, na medida em que o livro aborda e defende as virtudes do presidencialismo; entretanto, como os autores defendem, de maneira não muito sutil mas incoerente para o livro, o parlamentarismo, conviria que eles levassem em consideração pelo menos os itens indicados acima[4].

5.2. Populismo como demagogia antissistêmica

Um último aspecto negativo que queremos indicar é a respeito de algumas terminologias empregadas pelos autores. O primeiro problema terminológico é que os autores usam de maneira recorrente a palavra “populismo”. O sentido empregado é claramente negativo; o conteúdo sociopolítico adotado é o de identificação direta e pessoal de cada cidadão com o líder político, à margem ou mesmo contra as instituições; além disso, esse vínculo também se dá contra as elites políticas tradicionais, entendidas como egoísticas, oligárquicas, corruptas e corruptoras etc., que, além disso, são enquistadas nas instituições políticas que, por sua vez, são usadas como instrumentos de exclusão social, política e econômica. Dessa forma, o sentido geral de “populismo” (e expressões correlatas, como “populista”) resultante é que ele consiste em uma prática política anti-institucionalista e antissistêmica; com frequência também subjaz a esse raciocínio a concepção de que esse vínculo subjetivo direto desenvolve-se em um sentido de manipulação dos seguidores (das “massas”), conforme interesses egoístas não das oligarquias, mas do próprio líder. Na medida em que os autores são de fato, em termos intelectuais, adeptos de teorias institucionalistas e que, em termos de política prática, valorizam as instituições, é coerente a sua crítica a atores e a práticas políticas com esse perfil. Ainda assim, parece-nos incorreto esse emprego da expressão, na medida em que ele é necessariamente negativo: ora, a vinculação subjetiva direta entre líder e seguidor não é algo sempre e necessariamente ruim; bem vistas as coisas, em certo sentido, ou seja, dentro de determinados limites, essa deve ser a base da vida política “em nível de rua” e mesmo da cidadania. De maneira mais ampla, uma política popular tem sempre esse elemento de vínculo direto entre líder e seguidor, seja porque à partida cria esse vínculo, seja porque acaba desenvolvendo ao longo do tempo. Dessa forma, esse vínculo deve ser valorizado, tanto em termos de política prática quanto em termos teóricos.

O vínculo subjetivo direto entre líder e seguidores não é necessariamente antissistêmico e anti-intitucionalista, embora com certeza ela facilite esses traços. A acusação em regra de que esse vínculo será sempre destrutivo é uma assunção teoricamente exagerada e moralmente insustentável, estimulando uma “dialética” entre “populistas” e “antipopulistas”, no sentido de que os primeiros ganham razão (ou razões) para ver nos segundos apenas defesas envergonhadas de sistemas oligárquicos. Em vez de fazer como os autores fazem, de assumir por definição que todo e qualquer “populismo” será sempre e necessariamente negativo, talvez seja melhor assumir que há formas positivas e negativas de populismo, além de haver modalidades especificamente negativas de vínculos entre líder e seguidores; em outras palavras, seria melhor, e seria perfeitamente possível, que os autores empregassem expressões como “populismo negativo”, “populismo destruidor”, “populismo fascista”, “populismo tirânico” ou, como usaram Lynch e Cassimiro (2022), “populismo reacionário”; por fim, a palavra “demagogia” continua à disposição[5].

Uma última observação sobre a palavra “populismo”. Ela é um exemplo perfeito das expressões que, sob uma aparência técnica, encerram em si uma grande quantidade de juízos morais. Já virou lugar-comum que as ciências sociais apresentam grande quantidade desse tipo de conceitos, chegando-se aos exageros próprios à metafísica alemã, com os neokantianos à la Weber e Dilthey, a fenomenologia à la Husserl e seus vários epígonos ao redor do mundo, como Gallie e MacIntyre; esse tipo de reflexão é eficiente em termos de produtivismo academicista, mas no fundo presta poucos serviços para o entendimento da realidade, na medida em que gera confusão e não entende os procedimentos próprios à ciência (isso para não falar do espírito positivo (cf. Comte apud Horta Barbosa, 1933) de modo geral). Enfim, se as ciências sociais em geral apresentam ambiguidades conceituais, isso se acentua na ciência política, na medida em que essa área lida precisamente com as disputas sociais[6]. O que chamamos de “ambiguidade” não é propriamente ou apenas ambiguidade no sentido linguístico, de duplo (ou múltiplo) sentido de uma palavra ou expressão, mas também de duplo (ou múltiplo) âmbito de emprego da palavra, o que, no presente caso, consiste em um uso ao mesmo tempo descritivo (explícito) e normativo (implícito).

Observamos acima que a ciência política em especial está sujeita a ambiguidades porque estuda e lida com disputas sociais: ora, na verdade, é porque lida com disputas que a ciência política em particular tem que ter como princípio metodológico, isto é, como um procedimento metodológico preliminar, que as ambiguidades sejam limitadas e delimitadas, que sejam diminuídas, controladas e, eventualmente, até suprimidas. Um dos meios para esse controle das ambiguidades é a sua explicitação prévia: deixando-se claro os múltiplos sentidos e os múltiplos âmbitos de emprego das palavras, tanto o pesquisador quanto o público leitor passa a ter clareza do que está sendo dito e o diálogo torna-se mais fácil e profícuo. Infelizmente, Marcus Melo e Carlos Pereira não explicitam essa multiplicidade de sentidos e âmbitos; como indicamos, em particular eles empregam a palavra “populismo” com um sentido aparentemente técnico sem reconhecer, nem conceder, que ela apresenta uma enorme carga valorativa, não somente em relação à estabilidade das instituições mas também, e talvez até mais, em relação à participação política popular; não por acaso, a expressão “populismo” é empregada basicamente pelos atores e pelos analistas contrários à participação popular[7]. Em face dessas reflexões, parece-nos que se justifica ainda mais a solução que sugerimos acima, de usar outras expressões (como “demagogia”) ou de apôr adjetivos especificamente negativos à palavra “populista” (como “negativo”, “destruidor”, “tirânico”, “reacionário”).

5.3. A I República como República “Velha”

A segunda terminologia problemática que por vezes os autores empregam é a expressão “República Velha” para referirem-se à I República brasileira, vigente entre 1889 e 1930. Essa expressão não é empregada em todo o livro, ou seja, ela não é usada em todas as ocasiões em que se referem a esse período; essa inconsistência terminológica sugere que um dos dois autores foi o responsável por uma expressão (“República Velha”) e que o outro autor foi o responsável pela outra expressão (“I República”) – embora, claro, ambos possam ter sido responsáveis pelo emprego das duas expressões e que, ao fim e ao cabo, ambos sejam os responsáveis por todo o conteúdo do livro. Enfim, o problema com a expressão “República Velha” é que ela despreza, ela joga no lixo todo um importante período histórico, repetindo de maneira descuidada o juízo profundamente negativo dado pelos golpistas de 1930 contra as instituições vigentes desde 1889. Haja vista o elogio do parlamentarismo, essa rejeição pela I República, que instalou o presidencialismo em explícita oposição tanto à monarquia quanto ao parlamentarismo, não é de todo estranha; o protofascista, antiliberal e anti-“democrático” Oliveira Vianna, no rastro de Eduardo Prado, já desenvolvera esse procedimento. Entretanto, não nos parece que os autores sejam movidos por tais sentimentos e ideias; ainda assim, pior que repetir o juízo negativo dos golpistas de 1930 é, mesmo que involuntária e implicitamente, repetir o juízo negativo de Oliveira Vianna. Nesses juízos negativos são jogados fora como irrelevantes ou falsos todos os elementos positivos, todos os avanços, todas as melhorias sociais, políticas, institucionais havidas no país no período 1889-1930, resultando, no final das contas, que essa crítica à I República descamba para o desprezo da utopia republicana (conforme argumentou Lacerda, 2023)[8]. Esse descuido teórico e histórico é motivo de insatisfação e, em conjunto com outros descuidos (como a aceitação do argumento de Przeworski contra a opinião pública), dá o que pensar.

5.4. O uso de anglicismos

A terceira terminologia problemática que os autores usam é a expressão “incumbente”. Essa palavra não existe em português; assim como inúmeras outras, ela corresponde a uma tradução aparentemente literal mas errada de uma palavra que vem do inglês – incumbent. Ora, a tradução (ou uma boa tradução) de incumbent é “mandatário”, também sendo aceitável “titular”. Pode parecer pouco, mas o fato é que a Ciência Política brasileira submete-se amplamente e da pior maneira a determinados hábitos mentais da Ciência Política estadunidense; outros exemplos de má tradução são “empoderamento”, em vez de “fortalecimento” para o neologismo empowerment, e “decolonial” para o inglês decolonial. Essas traduções servis – e é disso que se trata, de servilismo intelectual – não são exclusividade nem são de autoria de Marcus Melo e Carlos Pereira; infelizmente, elas são de uso disseminado e rotineiro, dando a impressão, ou melhor, afetando tecnicidade, objetividade, sofisticação e até internacionalismo. O livro de que ora nos ocupamos e o conjunto da produção de Marcus Melo e Carlos Pereira de fato exibem essas características positivas (tecnicidade, objetividade, sofisticação, internacionalismo); entretanto, nada disso justifica o emprego de uma tradução ruim que, no final das contas, como estamos observando, é pior que uma tradução “ruim”, é uma tradução servil, cujo servilismo é todavia valorizado para afetar qualidades que com frequência não possui.

6. Conclusão

O livro Por que a democracia brasileira não morreu? vale muito a pena de ser lido. Os comentários que fizemos acima estão bem longe de tratar de todos os aspectos abordados pelos autores. Concentramo-nos em alguns elementos que julgamos frágeis, seja no argumento central do livro, seja em aspectos secundários da discussão; esses elementos frágeis, conquanto tenham que ser de fato comentados e criticados, é claro que não exaurem os argumentos e os dados organizados pelos autores. Assim, o objetivo destas nossas observações é dialogar, não somente com os autores, mas, de maneira mais ampla, com o público leigo e especializado sobre os inúmeros temas abordados no livro e que dizem respeito à nossa vida cívica.

 

Gustavo Biscaia de Lacerda (GBLacerda@ufpr.br) é doutor em Sociologia Política (UFSC) e sociólogo da UFPR. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2798-9248.

 

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[1] Por motivos que parecem evidentes, nos últimos anos a literatura sobre esse tema e com o viés indicado acima cresceu bastante. Podemos citar a respeito, com diferentes perspectivas e graus muito variados de cuidado conceitual e sem pretender esgotar as possibilidades, Snyder (2017), Almeida e Toniol (2018), Stanley (2018), Eatwell e Goodwin (2020), Paxton (2023) e Traverso (2023).

[2] Como sabemos, a literatura sobre os militares e a política no Brasil é gigantesca; por isso, citamos apenas Fico (2004), Carvalho (2005), Codato (2005) e Saint-Pierre e Donadelli (2016).

[3] Sobre Churchill, cf. Bédarida (2011); sobre Hitler e o nazismo, cf. Evans (2018; 2022).

[4] Sem esgotar a literatura possível em defesa do presidencialismo contra o parlamentarismo, podemos citar aqui: Laffitte (1889), Teixeira Mendes (1911; 1913), Comte (1929; 1934); Rodrigues (1993) e, parcialmente, Figueiredo e Figueiredo (1993).

[5] Vale notar que, embora a ordem social seja, sim, um valor moral e político legítimo, a que se associa a estabilidade institucional, ao longo da história em inúmeras ocasiões foram importantes, necessários ou úteis movimentos antissistêmicos e anti-institucionais, não por acaso, aliás, chamados de “populistas”: as reformas de Júlio César na década de 40 aec – e, antes, de maneira muito mais limitada mas igualmente criticadas como “populistas”, as reformas dos irmãos Gracos (décadas de 130-120 aec) –; o movimento geral da Revolução Francesa e, em particular, os acontecimentos da fase da Convenção Nacional (1792-1794); mesmo a campanha pela abolição da escravidão no Brasil, nas décadas de 1870 e 1880. Dois movimentos na história brasileira mais próxima que, presumivelmente, os autores entenderiam como positivos mas que foram criticados como sendo “populistas” foram a vida política da III República (1946-1964, chamada precisamente de “república populista”) e os anos iniciais da Nova República (em particular a partir da Campanha das Diretas Já).

[6] As reflexões de Giovanni Sartori (1970; 1991) são sempre úteis a esse respeito.

[7] A literatura sobre o populismo também é enorme. Limitamo-nos aqui a citar, com variadas perspectivas teóricas, Ferreira (2001), Reis (2001), Parenti (2006), Mitre (2008) e MacKinnon e Petrone (2011).

[8] Em termos de literatura de (re)valorização da I República, além de Lacerda (2023), podemos também citar Lemos e Teixeira Mendes (1890), Teixeira Mendes (1911; 1913a; 1913b; 1915; 1936), Chaves de Mello (2011), Freire (2016), Viscardi e Alencar (2016) e Franco, Dallabrida e Souza (2019).

30 abril 2026

Mais uma vez, os preconceitos disseminados nas pesquisas empíricas

Aforismos sociológicos XI - Mais uma vez, os preconceitos disseminados nas pesquisas empíricas



Comentários sobre o livro O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo Livros, 2025), de Felipe Nunes[1].

 

O livro O Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros, de Felipe Nunes – professor da Fundação Getúlio Vargas e dono do Instituto Quaest, de pesquisas de opinião – foi publicado em 2025 e apresenta os resultados de uma pesquisa sobre hábitos e opiniões da população brasileira a respeito das mais variadas questões: importância da família, preferências político-partidárias, confiança nas instituições etc. É um livro pequeno, com menos de 200 páginas, de leitura fácil e rápida, com muitos e muitos gráficos e a maior parte do texto escrito correspondendo à descrição e à interpretação desses gráficos.

Esse livro é interessante em vários sentidos: por um lado, apresenta informações interessantes, comparando-as com algumas pesquisas anteriores; por outro lado, ele é exemplar dos graves defeitos intelectuais e morais que as pesquisas de opinião (“pesquisas empíricas”, “pesquisas quantitativas”, “pesquisas científicas”) podem apresentar. Ou melhor, dizendo de outra maneira, de modo mais direto: esse livro é exemplar dos preconceitos que as pesquisas de opinião podem manter e estimular, de maneira consciente e proposital.

Embora seja o relatório de uma pesquisa de opinião, como é um livro que foi publicado por uma editora comercial, ele é orientado para o grande consumo popular, de modo que não há as reflexões metodológicas que sempre aparecem em pesquisas estritamente acadêmicas; além disso, o estilo de escrita é bastante acessível; por fim, pode-se conjecturar que algumas questões foram suprimidas dessa versão publicada, a fim de manter (ou garantir) o acesso popular dos resultados da pesquisa.

Para estruturar as respostas dos entrevistados, além das classificações em termos de gênero e da região do país, o autor considerou também a “raça” e, principalmente, as faixas etárias. Em termos de gêneros e de região, não há muito o que comentar; a respeito das “raças”, esse é um problema “misto”, na medida em que o autor entroniza um critério discriminador mas segue o padrão oficial brasileiro – adotado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, e que desgraçadamente é racialista, isto é, racista.

Mas o que nos interessa aqui é a classificação das respostas a partir das faixas etárias. O autor agrupou os respondentes em quatro grupos, nomeados conforme o período de nascimento e de sociabilização básica:

-      grupo “Bossa Nova” (nascidos entre 1945 e 1965)

-      grupo “Ordem e Progresso” (nascidos entre 1965 e 1985)

-      grupo “Redemocratização” (nascidos entre 1985 e 2005)

-      grupo “Geração.Com” (nascidos entre 2005 e 2020)

O autor escolheu, conscientemente, deliberadamente, empregar a fórmula “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário. Em outras palavras, o autor associa direta e conscientemente o “Ordem e Progresso” – e, por extensão, o Positivismo – aos militares e ao autoritarismo.

Não há como diminuir ou minimizar os graves problemas morais e intelectuais dessa escolha feita pelo autor. Mesmo que, por hipótese, possa-se argumentar que tal vinculação foi “inocente” – como se o autor não tivesse desejado, propositalmente, vincular estreitamente o “Ordem e Progresso” à noção de autoritarismo –, o que a suposta inocência dessa vinculação comprovaria seria apenas superficialidade e irresponsabilidade do autor, atributos que, com certeza, ele rejeitaria e que o conjunto do livro, supostamente, demonstra. O fato é que, em todo o livro, “erros inocentes” desse tipo não são vistos a respeito de outros aspectos; além disso, de qualquer maneira, o título “Ordem e Progresso” foi empregado em um procedimento a posteriori e que, portanto, pode(ria) ser alterado a posteriori: em outras palavras, o autor decidiu conscientemente adotar a expressão “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário, vinculando a expressão ao autoritarismo.

A irresponsabilidade e a superficialidade intelectual, teórica e metodológica do autor estende-se também ao âmbito moral, na medida em que o “Ordem e Progresso”, à parte a sua origem positivista, integra o mais importante símbolo do país, que é a bandeira nacional[1]. Dessa forma, ao vincular o “Ordem e Progresso” ao autoritarismo militarista, o que o autor faz é vincular a bandeira nacional a esse autoritarismo militarista, corroborando os preconceitos da esquerda e da direita a respeito[2].

O caráter intencional e preconceituoso de Felipe Nunes ao escolher o rótulo “Ordem e Progresso” torna-se mais claro e mais intenso quando se considera que ele poderia ter escolhido inúmeros outros rótulos, com seriedade ou em tom de piada, para descrever a geração nascida entre 1964 e 1985. Assim, por exemplo, ele poderia ter usado “Anos de Chumbo”, “Autoritarismo”, “Regime Militar” – ou mesmo “Segurança e Desenvolvimento”: o autor não o fez simplesmente porque não o quis.

Ora, esse tipo de vício intelectual e moral – aliás, vício chamado “preconceito” – está presente em todo o livro e reflete um problema que acomete com enorme freqüência cientistas sociais dedicados a pesquisas empíricas, especialmente as quantitativas: são muito bons com números e com a manipulação estatística, mas são péssimos em termos conceituais. Por “péssimos em termos conceituais” o que queremos dizer é que esses pesquisadores lidam mal com os conceitos, não raras vezes sendo superficiais a esse respeito. Dito de outra maneira, são bons para contar coisas, mas fracassam (com freqüência, de maneira intencional) na parte que realmente importa, que é a reflexão intelectual.

Os grandes esquemas apresentados no livro refletem com clareza tal superficialidade conceitual, ou melhor, tal superficialidade teórica e filosófica: por exemplo, o autor opõe “conservadores” a “progressistas”, em que os “conservadores” são definidos como tais estritamente a partir do que a esquerda considera-o, da mesma forma que os “progressistas”. Não apenas o autor adota sem maiores cuidados uma classificação que é elaborada por um dos grupos sociais que ele pesquisa (e que, nas disputas partidário-eleitorais, é elaborada contra um outro grupo que ele também pesquisa), como o autor adota pessoalmente essa mesma classificação[3].

Infelizmente faz parte do repertório contemporâneo a afirmação (que em si é falaciosa) de que “tudo é política”, ou seja, de que tudo está em permanente disputa: se “tudo está em disputa”, com certeza os conceitos que esquerda e direita fazem de “conservadores” e “progressistas” também estão (e estão ainda mais) em disputa. Ora, não deveria ser obrigação profissional da parte do autor (como professor universitário, como pesquisador profissional, como dono de um instituto de pesquisa) distanciar-se um mínimo que fosse desses conceitos “em disputa”? Essa obrigação profissional deveria ser evidente para o autor, em termos científico-metodológicos, filosóficos e morais – para não ficarmos somente nos rasteiros termos políticos.

O primarismo conceitual do autor, bem como sua adesão acrítica aos valores partidário-eleitorais da esquerda, fica evidente tanto nas categorias utilizadas por ele para estruturar a pesquisa quanto nas interpretações que ele faz dos dados obtidos. Assim, por exemplo, em termos de categorias empregadas para organizar as respostas fornecidas pelos entrevistados, indicamos acima que o autor adota o conceito de “raças”; mas, para além da triste mas inevitável reprodução da política racialista oficial do Brasil, o fato é que o autor leva a sério a categoria “raça”. Ou seja, o autor reproduz o preconceito identitário segundo o qual o Brasil seria constitutiva e profundamente “racista”[4].

Em outro âmbito de reflexões, o autor afirma que “valorizar a família” seria um traço de conservadorismo – o que, inversamente, significa que desvalorizar a família seria uma perspectiva progressista! Em outras palavras, o que o autor sugere, ainda que de maneira subentendida, é que a desestruturação de lares, a fragilidade sistemática das relações humanas, a ausência de ambientes estáveis, acolhedores e estruturados – isso seria algo bom e desejável.

O autor não é explícito a respeito; em nenhum momento ele afirma com todas as eltras essas características. Na verdade, inversamente, o autor assume um certo objetivismo ligado ao seu quantitativismo; esse objetivismo serve na prática para que os pesquisadores quantitativistas escondam-se atrás de números e da retórica academicista-cientificista. (Tanto direita quanto esquerda fazem críticas contra o disfarce quantitativista das opiniões e dos preconceitos dos pesquisadores.) De qualquer maneira, a leitura atenta do livro evidencia com grande facilidade esses vícios, ou seja, a leitura atenta explicita o que o autor mantém implícito.

Há muitos outros aspectos em que o livro é superficial em termos de reflexões teóricas, de elaboração conceitual e de fundamentos filosóficos elementares. É claro que não seria possível o autor abordar com profundidade todos os aspectos implicados pela pesquisa e, por isso, não podemos cobrar essa postura. Entretanto, o autor dá certo destaque para algumas questões e sugere algumas conseqüências a respeito delas, mas silencia a propósito de outras que merecem (ou exigem) comentários e aprofundamento. Isso equivale a dizer que o autor escolhe conscientemente dar destaque a algumas coisas e a silenciar (ou omitir, ou ser superficial) a respeito de outras.

Um tema a respeito do qual o autor silencia é a chamada “laicidade do Estado”. O autor apresenta previamente vários resultados importantes – por exemplo, que a população brasileira acredita majoritariamente em divindades (monoteístas e politeístas) e que a população acredita no “poder da fé” –, para em seguida afirmar que isso tem relevância para políticas públicas, especialmente as que mobilizam mais diretamente a ciência (como as políticas de saúde e, indiretamente, de educação) e afirmar que se “deve levar a sério o peso das crenças populares, sob risco de as políticas públicas darem errado”: ora, o que se quer dizer com “levar a sério as crenças populares”? O autor silencia a respeito, mas sua omissão dá a impressão de que ele considera que governo e Estado devem incluir essas crenças nas políticas públicas – logo, o Estado deve deixar de lado a laicidade, o que deveria ser evidentemente inaceitável. Mas, em todo caso, como o autor silencia a respeito, temos apenas uma sugestão vaga e inconclusiva, mesmo que – como o próprio autor admite – seja a respeito de um aspecto central das políticas públicas.

Em face disso tudo, a vinculação cínica e ligeira do “Ordem e Progresso” ao militarismo e ao autoritarismo evidencia de maneira exemplar os vícios intelectuais e metodológicos do autor. Como vimos, o autor opõe de maneira simplista “conservadores” a “progressistas”: mais que apenas aderir de maneira indesculpável às disputas políticas contemporâneas e transferi-las para sua pesquisa, o que o autor faz é rejeitar qualquer possibilidade efetiva de superar essa oposição e de realizar a união proposta pela máxima “Ordem e Progresso”. O conjunto dos problemas teóricos, morais e políticos do livro deixa bastante claro que o autor não conhece a sociologia e a história subjacentes ao “Ordem e Progresso” e não entende a respectiva filosofia[5]: é difícil não chegarmos à conclusão de que se esconder atrás dos números para repetir e reproduzir preconceitos políticos nunca foi tão fácil e lucrativo.

Em textos de promoção comercial das obras do autor, afirma-se que ele é um “grande” pesquisador, com uma carreira de sucesso no Brasil e no exterior, tendo desenvolvido muitas pesquisas e elaborado um índice que é vendido para governos e empresas. À parte o exercício comercial desse tipo de comentário, o êxito acadêmico do autor deixa claro que não há motivo nenhum para ele cometer os erros e os vícios que comete – e ele de fato comete-os: sua habilidade estatística e empírica poderia com enorme facilidade evitar todos os problemas devidos ao seu primarismo teórico.

Em suma, é difícil não se ficar com grande irritação e má vontade com um livro e com um pesquisador que cometem erros tão grandes e superficiais, de maneira consciente e sistemática.

 

Gustavo Biscaia de Lacerda (GBLacerda@ufpr.br) é Doutor em Sociologia Política (UFSC) e Sociólogo da UFPR.

 

Referências bibliográficas

Abaixo-assinado “A bandeira nacional republicana não é fascista”. 2022. Disponível em: https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR127657. Acesso em 30 abr. 2026.

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Lacerda, Gustavo B. 2018. Comtianas brasileiras. Curitiba: Appris.

Lacerda, Gustavo B. 2019. O momento comtiano. Curitiba: UFPR.

Lacerda, Gustavo B. 2025. Sobre o livro “A utopia autoritária brasileira”, de Carlos Fico. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 21 out. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/10/sobre-o-livro-utopia-autoritaria.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

Lacerda, Gustavo B. 2026. “O Brasil no espelho”, Dia das Mulheres, Castilhismo não é fascismo. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 11 mar. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/03/o-brasil-no-espelho-dia-das-mulheres.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

Mounk, Yascha. 2024. A armadilha da identidade: uma história das ideias e do poder em nosso tempo. Rio de Janeiro: ed. 70.

Neiman, Susan. 2024. A esquerda não é woke. Belo Horizonte: Âyiné.

Nunes, Felipe. 2025. Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros. Rio de Janeiro: Globo.

Risério, Antônio. 2022. A crise da política identitária. Rio de Janeiro: Topbooks.

Teixeira Mendes, Raimundo Teixeira. 1898. As últimas concepções de Augusto Comte. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.



[1] Considerar que esse título foi devido a um erro “inocente” é, na melhor das hipóteses, um sofisma, ou, em linguagem direta, uma desculpa esfarrapada. Uma hipótese complementar, de que essa escolha teria sido uma espécie de piada política feita pelo autor, é ainda pior – que se torna mais degradante na medida em que se passa a ter em mente que o “Ordem e Progresso” integra a bandeira nacional brasileira.

[2] Devido a uma triste mas reveladora coincidência, no mesmo dia em que expusemos oralmente as críticas ao livro de Felipe Nunes, divulgamos uma postagem em que nos pusemos contra a pretensão de direitistas de associarem o Positivismo ao fascismo; trata-se do cartaz “O castilhismo não é fascista” (ver Lacerda, 2026); antes, em 2022, lançamos o abaixo-assinado “A bandeira nacional republicana não é fascista”.

A respeito dos preconceitos que a esquerda difunde contra o Positivismo, pode-se consultar Lacerda (2018), em que discutimos detalhadamente os mitos que Sérgio Buarque de Hollanda criou contra o Positivismo, e Lacerda (2025), em que tratamos do último livro do historiador Carlos Fico.

[3] Para não haver dúvidas: reconhecendo que no âmbito da centro-direita há elementos dignos de respeito e consideração aprofundada, nós, pessoalmente, somos simpáticos à centro-esquerda. O que cobramos do autor, no que se refere ao seu esquerdismo, não consiste portanto na adesão em si à esquerda, mas ao emprego completamente acrítico de conceitos próprios à disputa partidário-eleitoral em uma investigação que, por definição, deveria afastar-se em termos teóricos e metodológicos dessa disputa.

[4] Sobre os graves problemas morais, intelectuais e políticos do identitarismo em geral e, para o que nos interessa aqui, do identitarismo racialista-racista, cf. Risério (2022) e Mounk (2024). Susan Neiman (2024), a partir de uma perspectiva militante de esquerda, reafirma a crítica ao identitarismo.

[5] É claro que bastaria o autor ler diretamente Augusto Comte (por exemplo, 1898 ou 1934) a esse respeito; ou o nosso grande Raimundo Teixeira Mendes (por exemplo, 1898). Mas, caso quisesse usar a desculpa de que tais referências são difíceis de achar (o que é discutível, especialmente com os atuais e vastos repositórios eletrônicos, como o Internet Archive, o Google Books ou o Gallica), estão à disposição os livros de Lacerda (por exemplo, 2018 e 2019), bem mais recentes.