21 maio 2026

Reflexão pessoal/confissão: três cuidados que tomo

Em minhas prédicas e, de modo geral, em minha atuação como positivista, procuro desde sempre tomar três cuidados, na forma de comportamentos que evito:

- evito falar sobre o que desconheço e não finjo saber o que ignoro

- evito apresentar-me como a única pessoa capaz de falar sobre o Positivismo ou (na medida em que não sou o Sumo Pontífice da Religião da Humanidade) em nome de todos os positivistas

- evito personalizar as minhas manifestações e de apresentá-las como se fossem exercícios de vaidade pessoal.

Assim, ao evitar a arrogância, o orgulho e a vaidade, creio que posso dizer que exercito a humildade

Um sacerdote da Humanidade (e mesmo um apóstolo da Humanidade) não pode ter medo de expor-se e de afirmar-se perante os demais; mas isso é muito diferente de ser sistematicamente ignorante, pretensioso e muito vaidoso. Esses defeitos são inaceitáveis em qualquer pessoa que pretenda ser apóstolo ou sacerdote da Humanidade.

Em oposição a esses comportamentos reprováveis, procuro desde sempre adotar as seguintes práticas:

- conhecer sobre o que falo, assumir que desconheço muita coisa e buscar conhecer (ou informar-me sobre) o que é importante para os outros

- respeitar as perspectivas alheias e, em particular, as várias iniciativas pessoais e coletivas dos positivistas

- reconhecer os esforços realizados pelos outros (especialmente pelos que vieram antes de mim) e manifestar-me sempre me referindo aos esforços coletivos.

(As indicações acima simplificam bastante as possibilidades; mas como queremos que estas reflexões sejam curtas, neste caso aceitamos tal simplificação.)


Fonte: GPT, 21.5.2026.


Mais Generino dos Santos no Internet Archive

Graças à colaboração de nosso correligionário Gabriel de Henrique, recuperamos e pusemos à disposição do público mais obras de Generino dos Santos no repositório Internet Archive, na coleção "Positivism".

As obras agora à disposição (e os respectivos endereços) são estas:

Livro 11: Estatutário brasileiro; breve relato biográfico e das relações de Generino dos Santos com a Igreja Positivista do Brasil

 

- Humaníadas, v. 8 – edição especial: poemas dantescos: https://archive.org/details/generino-dos-santos-humaniadas-v.-8

Livro 12: AEterna Carmina

Livro 13: Seculare Carmen

Livro 14: Várias composições sobre Dante


Pierre Laffitte: Considerações gerais sobre o conjunto da civilização chinesa: https://archive.org/details/pierre-laffitte-consideracoes-sobre-a-civilizacao-chinesa-trad.-generino-dos-santos-1938





Músicas positivistas

Em uma bela e importante iniciativa que retoma uma antiga mas - até agora - abandonada tradição, nosso correligionário Luiz Gustavo Mota compôs músicas positivistas. Luiz Gustavo redigiu as letras e solicitou à inteligência artificial que compusesse a melodia e que interpretasse as canções. Os resultados estão abaixo.

São duas músicas, disponíveis abaixo, a partir da coleção "Positivism" do Internet Archive:


 

Fonte: GPT, 21.5.2026.

Eis a letra do "Hino a Clotilde".


Hino a Clotilde, Anjo da Humanidade

Letra: Luiz Gustavo Mota

 

Salve, Clotilde, estrela da manhã,

Guia sublime do nosso coração.

Teu puro amor, que a terra não profana,

Nos ensinou a santa compaixão.

 

Ó Anjo nosso, vela por nós!

Ensina-nos a Ordem pelo Amor.

Que a Humanidade, em teu nome,

Caminhe unida ao Progresso e à Flor.

 

Da tua vida breve, fez-se luz,

Farol de altruísmo a nos guiar.

Morreste cedo, mas tua alma conduz

O Grande Ser que havemos de exaltar.

 

Ó Anjo nosso, vela por nós!

Ensina-nos a Ordem pelo Amor.

Que a Humanidade, em teu nome,

Caminhe unida ao Progresso e à Flor.

 

No altar da Pátria e no lar sagrado,

Teu nome inspira o viver para outrem.

Que cada gesto, por ti abençoado,

Seja o amor que a morte não consome.

 

“Viver para outrem, viver no outro,

Viver com o outro, pelo outro”.

Eis o lema que nos deste,

Ó Mãe eterna do Mundo Novo.

 

Ó Anjo nosso, vela por nós!

Ensina-nos a Ordem pelo Amor.

Que a Humanidade, em teu nome,

Caminhe unida ao Progresso e à Flor.


"Sete conferências sobre o Positivismo"

Com o auxílio da inteligência artificial, nosso correligionário Gabriel de Henrique traduziu o capítulo "Conferência introdutória", correspondente à primeira conferência de um ciclo de sete palestras pronunciadas em 1879 por Joseph Kaines (e presentes no livro justamente intitulado Sete conferências sobre a doutrina do Positivismo).

Essas conferências apresentam em linhas gerais o Positivismo, a partir da prática do Sacerdote da Humanidade e discípulo direto de Augusto Comte, Richard Congreve.

Essa tradução está disponível aqui: https://medium.com/@gabrielshenrique/sete-confer%C3%AAncias-sobre-a-doutrina-do-positivismo-por-joseph-kaines-1-23fb3d76d917



Liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização

No dia 20 de maio de 2026, o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um texto de nossa autoria em que tratamos do Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica.

Embora concordemos de modo geral com o conteúdo desse manifesto, ele apresenta uma série de defeitos que exigem reflexão.

O original do nosso artigo está disponível aqui. O nosso texto está reproduzido abaixo.

*   *   *

Manifesto pela liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização

A própria comunidade acadêmica é a responsável pelo que critica em manifesto. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Estudantes universitários em sala de aula (foto: ABr)

Há algumas semanas, um grupo heterogêneo de professores universitários de ciências sociais lançou um Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica. Esse documento é notável tanto pelo que diz quanto pelo que não diz, bem como pelo local em que foi redigido e por seus subscritores iniciais, e exige algumas reflexões.

O documento foi originalmente assinado por cientistas sociais de grande projeção nacional, alguns dos quais têm colunas fixas em grandes jornais impressos (Maria Hermínia Tavares e Wilson Gomes, na Folha de S. Paulo, Pablo Ortellado, no Estadão). Para além disso, há subscritores habitualmente discretos e que costumam recusar-se a assinar manifestos político-acadêmicos. (Fui aluno e tenho relações de amizade com vários deles, vale notar.)

Por outro lado, esse documento foi elaborado e publicado originalmente em São Paulo, reunindo pesquisadores que circundam o ambiente paulista (ou seja, que trabalham e/ou que estudaram lá). Claro que há exceções a essa descrição geral, mas, basicamente, trata-se de um documento paulista, aberto à adesão dos demais.

O que esse documento afirma explicitamente? Ele afirma que as universidades públicas (federais e estaduais) nos últimos anos têm sido caracterizadas por um ambiente político tóxico, de restrição das liberdades de pensamento e de exposição, com agressivos impedimentos da manifestação de ideias, bem como do mais intenso patrulhamento moral e ideológico. Em face disso, clama-se pela reversão da intolerância e pela reinstalação da liberdade acadêmica.

O documento tem tido muitas adesões, o que sugere que o problema denunciado é real; de nossa parte, a esse respeito, concordamos totalmente.

Mas, como dissemos há pouco, esse manifesto é notável não só pelo que explicita, mas também pelo silencia. E os silêncios são tão, ou até mais, eloquentes que suas afirmações.

O manifesto denuncia alguns graves problemas e clama por sua reversão; ou seja, ele critica alguns efeitos e busca a sua inversão. Todavia, o documento mantém-se resolutamente em silêncio a respeito dos fatores que resultaram nesses fenômenos, bem como de seus agentes produtores.

Assim, o manifesto age no vazio ou no limbo. Fala-se dos efeitos, mas cala-se a respeito das causas e dos causadores. Os autores do manifesto são cientistas sociais, todos com décadas de pesquisas empíricas e teóricas; o silêncio a respeito das causas e de seus produtores não é casual, mas profundamente intencional.

O fato simples e direto é que os causadores da situação denunciada no documento são os próprios acadêmicos. Por certo que a maior parte dos autores do manifesto são mais ou menos inocentes a respeito e que alguns deles há muito tempo são críticos francos da situação denunciada. Ainda assim, os professores universitários, em seu conjunto, são os responsáveis pela situação que criticam e de cujos efeitos agora padecem.

É porque não querem assumir as próprias responsabilidades – em bom português: porque não querem assumir as próprias mancadas – que o documento se mantém obsequiosamente em silêncio a respeito da origem e dos autores desses problemas.

Por que os professores universitários são os responsáveis pelo atual ambiente tóxico, de patrulhamento agressivo e intolerante? Pura e simplesmente, porque os professores universitários estimularam durante décadas (quando não ainda estimulam) esse comportamento; ou, então, porque se mantiveram (e mantêm-se) omissos a respeito.

Na verdade, o que o documento denuncia é a realidade social mais ampla há muito tempo: os professores universitários reclamam agora porque eles próprios têm que lidar com as consequências de suas ações e de suas omissões que, até então, graciosamente eles reservavam para “os outros”. (Perseguições, favorecimentos, vingancinhas, filhotismo… a academia é plena desse gênero de mesquinharia, inclusive praticada por vários dos autores do manifesto: cinismo e hipocrisia.)

Mais que apoio ativo ou omissão para comportamentos práticos, os professores universitários são os responsáveis pelo que agora denunciam porque muitas ideias (“teorias”) que ensinam, propagam, pelas quais militam, são ideias que conduzem diretamente ao resultado prático agora vivido.

É sempre fácil se afirmar que as ideias são apenas ideias, que não têm resultados práticos por si sós. Ora, nem os autores nem os subscritores do manifesto aceitarão a concepção academicista da “torre de marfim”, segundo a qual a ciência deve ser cultivada pela própria ciência, ou que a erudição deve ser cultivada pela própria erudição.

Claro que há correntes teóricas que não sabem justificar por que fazem o que fazem (é o caso dos weberianos); ainda assim, pelo menos em princípio, todos concordam que as produções acadêmicas, aí incluídas as teóricas, devem ter alguma utilidade social.

Quais ideias conduzem ao que se critica no manifesto? É certo que os autores e os subscritores do manifesto não têm todos as mesmas ideias; aliás, certamente, estão muito longe de convergências nesse sentido.

A despeito disso, na acadêmica vige a concepção de que a “crítica” sistemática é uma virtude intelectual, moral e prática: não o exame cuidadoso das ideias, das realidades, o confronto sistemático entre uma coisa e outra, mas a crítica como a destruição sistemática de todas as concepções, a noção de que o progresso consistiria na destruição sistemática do passado.

A isso se junta a concepção de que “tudo é poder”: se tudo é poder e política, tudo é disputa e, portanto, não há espaço para acordo, diálogo, tolerância, paciência – nem convencimento, nem pesquisa científica efetiva.

Essa mentalidade originalmente foi instalada na academia com o marxismo. Mas o marxismo tem um intelectualismo que se ajusta bem à vida acadêmica e, em todo caso, ele não é mais tão relevante. É um bastardo do marxismo o responsável pela situação denunciada no manifesto: o identitarismo. Todas as situações denunciadas no documento – facciosismo, estímulo ao ódio e ao ressentimento, particularismo agressivo, intolerância – são características de identitarismo.

Ocorre que muitos dos autores e subscritores do manifesto são promotores ativos do identitarismo. E, quando não são adeptos/promotores, são pelo menos omissos a respeito – todos fingindo que essas ideias não têm, necessariamente, os resultados que têm e que agora se voltam contra a academia.

(Por falta de espaço, não comentaremos a busca ávida dos identitários por influir nas políticas públicas. Notemos apenas que os identitários, não por acaso, abominam a laicidade do Estado, ou seja, buscam usar o Estado para impor agressivamente suas crenças.)

O identitarismo é uma filosofia e uma prática política profundamente acadêmica. Quando autores e subscritores do manifesto calam-se a respeito das causas do que denunciam, é porque não querem assumir que a própria academia, ao manter e estimular o identitarismo, é a responsável pelo que critica.

Assim, critica-se uma situação, mas não se assume a responsabilidade pela situação criticada. Afinal, quem quer fazer um mea culpa? Mais fácil que assumir as próprias mancadas é criticar no limbo uma situação e fingir que a culpa é “dos outros”.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

20 maio 2026

Escala 5x2 e Abolição da Escravidão

No dia 27 de César de 172 (19.5.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira Parte - Postura dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão celebramos a data do 13 de Maio e defendemos a escala 5x2.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


A escala 5x2 à luz da Religião da Humanidade

(27 de César de 172/19.5.2026) 

1.     Abertura da prédica

1.1.   No dia 20 de César de 172 (12.5.2026) não tivemos prédica devido a uma enxaqueca (causada, por sua vez, por excesso de trabalho, incluindo aí, evidentemente, o trabalho dedicado ao Positivismo e à Religião da Humanidade); retomamos hoje, portanto, a programação normal

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 16 de César de 172 (8.5.2026): o blogue Filosofia Social e Positivismo atingiu a marca de 700.000 visitas!

2.2.   Dia 19 de César (11.5): fundação da Igreja Positivista do Brasil (1881 – 145 anos)

2.3.   Dia 21 de César (13.5): abolição da escravidão no Brasil (1889 – 138 anos): celebração da fraternidade entre os brasileiros

2.4.   Dia 24 de César (16.5): nascimento de Luís Lagarrigue (1864 – 162 anos)

2.5.   Mês de São Paulo: de 21 de maio a 17 de junho teremos o mês de São Paulo, sexto mês do ano, dedicado ao catolicismo

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: a escala 5x2 (e celebração do 13 de Maio)

5.1.   Um aviso inicial: como indicamos no início da prédica, o sermão de hoje deveria ter sido feito na semana passada; mas, devido a excesso de trabalho, padecemos de enxaqueca na semana passada; assim, o que deveria ter sido feito na semana passada será feito hoje

5.2.   O sermão de hoje celebra o dia 13 de Maio e, a partir disso, afirma a correção da proposta da escala 5x2

5.2.1. Várias das idéias abaixo foram apresentadas no artigo “Da abolição da escravidão à escala 5x2”, publicado no jornal carioca Monitor Mercantil de 11.5.2026

5.3.   Comecemos com o 13 de Maio

5.3.1. O feriado do 13 de Maio há muito tempo não é mais celebrado, mas o 13 de Maio com justiça já foi feriado nacional, que comemorava a fraternidade dos brasileiros, a partir da abolição da escravidão

5.3.1.1.          Esse feriado foi estabelecido pelo Decreton. 155-B, de 14 de janeiro de 1890 – um monumento belíssimo de celebrações cívicas

5.3.1.2.          Estabelecido a partir das sugestões positivistas (como, de resto, todo o Decreto n. 155-B), o nome do feriado já indicava que tal celebração não tinha nada a ver com a mistificação monarquista, antinacional e antirrepublicana em favor da Princesa Isabel

5.3.2. A celebração da fraternidade dos brasileiros, celebrada durante a I República no dia 13 de maio, conjuga de maneira impressionante inúmeros elementos:

5.3.2.1.          a valorização do trabalho e dos trabalhadores, contra as concepções de que o trabalho é degradante, que é um castigo e que os trabalhadores têm que ser tratados como escravos

5.3.2.2.          a libertação dos escravos, ocorrida em 1888 em relação aos descendentes dos africanos, trazidos à força ao Brasil, e em 1758 em relação aos índios, autóctones

5.3.2.3.          o necessário concurso das várias etnias para a constituição do Brasil – concurso que, de qualquer maneira, tem que ser pacífico e voluntário

5.3.3. É importante reforçar desde já um aspecto central: a celebração do 13 de Maio não era apenas pelo fim da escravidão negra, mas era principalmente pela valorização do trabalho e dos trabalhadores, bem como da fraternidade nacional, ou seja, do aspecto altruísta e generoso que a vida coletiva necessariamente tem que ter

5.3.4. Apesar de belas, importantes e necessárias, essas concepções foram e têm sido degradadas ao longo do tempo

5.3.4.1.          Não nos parece casual que isso ocorra ao mesmo tempo em que a própria noção de “república” seja desprezada e corrompida cada vez mais, nos últimos 140 anos

5.3.4.2.          No caso da celebração da fraternidade dos brasileiros, essa degradação começou logo após o 13 de maio de 1888, a partir de uma intensa mistificação monarquista, em favor da Princesa Isabel

5.3.4.3.          Essa mistificação, aliás, foi apoiada por movimentos sociais negros que, liderados por José do Patrocínio e baseados em uma equivocada gratidão, constituíram a lamentável milícia da “Guarda Negra”, que espancava os republicanos em defesa da monarquia

5.3.4.4.          Como se sabe, a mistificação monarquista foi no sentido de caracterizar a abolição como uma generosa concessão da monarquia (em vez de uma conquista verdadeiramente nacional e popular), em particular da Princesa Isabel, a fim de legitimá-la e tentar reverter a profunda repulsa de que ela era objeto (era ultracarola, seu marido era estrangeiro e, seguindo as ordens do próprio Dom Pedro, foi o responsável por dar caça a Solano López até o matar)

5.3.5. Assim, ao longo do tempo, em vez de investir-se nas noções de que a abolição da escravidão foi uma vitória do conjunto do país, de que ela valoriza os brasileiros descendentes de africanos e de que ela celebra a dignidade do trabalho e dos trabalhadores; em vez de investirmos no republicanismo em geral e na celebração da fraternidade em particular, os brasileiros praticamos o desprezo pela república (que se torna desculpa para golpes e revoluções, do fascismo, do comunismo, do clericalismo, do monarquismo etc.) e o estímulo ao mito monarquista

5.3.5.1.          Essa dupla degradação tem sido reafirmada nas últimas décadas mesmo pelo movimento identitário negro, contrário às noções de república e de fraternidade universal

5.3.5.2.          Aliás, o identitarismo negro finge que a Guarda Negra não existiu e estimula a mistificação monarquista contra a celebração republicana: isso em favor de um novo feriado nacional, que lamentavelmente mas não por acaso é particularista, contrário à fraternidade e, para piorar, que celebra uma figura que lutava contra a escravidão mantendo o seu próprio plantel de escravos

5.3.5.3.          Este é um caso exemplar que indica que, mesmo que um grupo social afirme defender uma determinada perspectiva e os interesses desse grupo, não é por isso que suas concepções são corretas, adequadas, altruístas e com efeitos positivos (no presente e/ou no futuro): o movimento identitário negro não apenas defende de maneira equivocada os interesses dos “negros” como sua defesa é daninha para eles e para o conjunto do país, ao ser particularista, faccioso e, como todo identitarismo, estimular o ressentimento e o ódio coletivos

5.3.6. É importante termos claro que a rejeição do 13 de Maio tem graves efeitos sociais e políticos:

5.3.6.1.          A rejeição rompe a continuidade histórica, tornando a história do
Brasil (e a história humana de modo geral) algo misterioso e irracional

5.3.6.2.          O rompimento da continuidade histórica apóia e reforça o desprezo pela República, ou seja, por seus ideais e seus esforços

5.3.6.3.          Apesar de supostamente se ser contra a mistificação monarquista, o desprezo pelo 13 de maio atinge a celebração republicana da fraternidade dos brasileiros, reforçando indiretamente o mito monarquista

5.3.6.4.          A rejeição despreza os esforços coletivos, de caráter nacional, em favor da abolição da escravidão e, depois, os esforços para a integração dos libertos e de seus descendentes

5.3.6.5.           A rejeição despreza o sentido altruísta e, literalmente, fraterno do feriado estabelecido pela República (e, deve-se notar: estabelecido pela República e não pela monarquia)

5.3.6.6.          A rejeição despreza o esforço concreto de constituição de uma pátria fraterna e altruísta, ao mesmo tempo em que reforça consciente e constantemente o discurso de um país agressivo e cruel

5.3.6.7.          A rejeição atua no sentido de afirmar o Brasil como a justaposição – violenta, ainda por cima – de etnias que não têm nada a ver uma com a outra, que não podem contribuir uma com a outra e cuja manutenção em conjunto seria uma balela violenta e hipócrita criada pelos dominadores

5.3.6.8.          Por fim, mas não menos importante, o conjunto dos problemas acima reforma a noção de que o trabalho é degradante, próprio à escravidão e que é “coisa de escravo”

5.4.   Passemos agora à escala 5x2

5.4.1. Como se pode ver pelos comentários que acabemos de fazer, o desprezo pelo feriado do 13 de Maio resulta no desprezo pelo trabalho e pelos trabalhadores, no desprezo pela fraternidade nacional e no desprezo pela luta nacional e popular que resultou na abolição da escravidão

5.4.1.1.          Esses múltiplos desprezos têm conseqüências morais, intelectuais e práticas de longo prazo, ao tornar desvincular a proposta da jornada 5x2 do esforço em prol da dignificação do trabalho e dos trabalhadores

5.4.2. Passando diretamente para a proposta da escala 5x2: ela surgiu como uma iniciativa da esquerda que, após décadas, finalmente apresentou uma proposta que não é exclusivista, particularista, facciosa e, ao contrário, beneficia todo o conjunto da população brasileira

5.4.2.1.          Mais importante que as disputas partidário-ideológicas, a proposta da escala 5x2 celebra uma concepção generosa e universalista da vida em sociedade, afirmando a fraternidade de todos os brasileiros, a dedicação dos trabalhadores para suas famílias, a dignidade humana em geral e a valorização do trabalho como atividade produtiva compartilhada

5.4.2.2.          Além disso, a escala 5x2 sacramenta o hábito ocidental de dois dias para o trabalhador dedicar-se à vida doméstica (sábado) e à vida coletiva (domingo) – o que, convenhamos, é o mínimo para uma vida digna e para uma justa retribuição pela atividade produtiva

5.4.3. Na verdade, a idéia de dois dias de descanso dedicados à vida doméstica e social dos trabalhadores foi proposta pelo Positivismo

5.4.3.1.          Originalmente, os dois dias de descanso foram tentados por Oliver Cromwell, ao longo de seu governo republicano na Inglaterra do século XVII

5.4.3.2.          Miguel Lemos chama a atenção exatamente para isso, em uma nota do Catecismo positivista:

Aproveitamos esta alusão incidente ao descanso semanal para dizer que meditações ulteriores levaram Augusto Comte a estabelecer dois dias consecutivos de folga por semana (domingo e lunedia[1]), votados um à vida pública e o segundo à vida privada, como já o havia tentado uma lei de Cromwell (V. Lettres à Edger, p. 69). Todos sabem, aliás, da tendência universal a não se trabalhar no lunedia (Miguel Lemos, Notas ao, Catecismo positivista, edição apostólica de 1934, p. 492)

5.4.3.3.          O trecho indicado acima das cartas de Augusto Comte a Henry Edger é este:

[...] O uso espontâneo do proletariado ocidental, para os dois dias de descanso consecutivos de cada semana, universalmente dedicados um à vida pública, o outro à vida privada: uma lei de Cromwell já o tentara [instituir]” (Lettres d’Auguste Comte à Henry Edger e à John Metcalf, Paris, Apostolat Positiviste, 1889, p. 69)

5.4.4. Em oposição à dignificação do trabalho e dos trabalhadores, consideremos as críticas à escala 5x2

5.4.4.1.          Podemos organizar as críticas em dois grandes grupos: (1) os argumentos economicistas e (2) os argumentos que degradam a vida coletiva e o trabalho – argumentos convergentes, aliás.

5.4.5. O economicismo considera apenas os aspectos econômicos da medida são os importantes; ele reduz o ser humano a u’a máquina de trabalhar e de produzir

5.4.5.1.          Há no economicismo um duplo cinismo: finge-se (1) que o trabalhador não é apenas um número que tem a obrigação de gerar riqueza e (2) que essa desumanização não é dirigida apenas contra os trabalhadores

5.4.5.2.          Entretanto, é mais do que evidente que nenhum capitalista aceitaria submeter a si próprio e à sua família aos raciocínios morais e às condições de trabalho envolvidos no argumento economicista; mas eles não têm pudor em exigir tal submissão aos “outros”

5.4.5.3.          Se isso não fosse pouco, argumenta-se também que os “custos” aumentarão e o “lucro” diminuirá com a escala 5x2: ora, cada vez mais temos à disposição (1) tecnologias que aumentam a produtividade, (2) o conhecimento de que qualidade de vida e satisfação aumentam a produtividade; (3) o aumento geral da renda com o aumento de trabalhadores no mercado de trabalho

5.4.6. Os argumentos que degradam o trabalho são mais diretos em sua rejeição ao maior tempo disponível para os trabalhadores

5.4.6.1.          São argumentos francamente reacionários, com enorme freqüência teológicos e todos são contra a dignidade do trabalho e da vida humana e a favor da ganância

5.4.6.2.          Por exemplo: deputados-pastores afirmam que a escala 5x2 deixará muito tempo livre para os trabalhadores, tempo ocupado pelo Diabo (!): assim, os trabalhadores devem trabalhar sem cessar para que se esgotem e não possam aproveitar a vida nem refletir a respeito dela

5.4.6.3.          Outros críticos da escala 5x2 são diretamente bíblicos: o trabalho é a punição divina pela traição de Adão (causada, aliás, pela suposta mesquinhez de Eva); assim, não seria correto aliviar o fardo humano que, afinal, teria sido imposto pela própria divindade

5.4.6.4.          É claro que, assim como no caso das críticas economicistas, os reacionários (teológicos) rejeitam para os outros a escala 5x2, mas fazem questão de mantê-la para si mesmos

5.4.7. Versões secularizadas disso consideram que o trabalho incessante e exaustivo seria a única forma de dignificar a vida: de acordo com essa concepção, viver-se-ia apenas para trabalhar, em vez de dignificar-se o trabalho como uma atividade entre outras que integra a vida

5.4.7.1.          Conseqüências imediatas disso: o salário deve ser o menor possível (forçando os trabalhadores a manterem-se em trabalhos ruins) e as condições de vida não podem ser muito boas (incluindo aí as longas horas entre a casa e o trabalho e o acúmulo com o trabalho doméstico)

5.4.7.2.          Essa concepção, que no fundo é apenas uma versão um pouco secularizada da concepção teológica do castigo divino, tem sido afirmada pelo bilionário sul-africano Elon Musk

5.4.8. Um aspecto que subjaz a todas as críticas à proposta de escala 5x2 e que os críticos não fazem muita questão de esconder é que a boa vida cabe apenas a alguns poucos – aos ricos –; em outras palavras, as críticas consideram que o trabalho serve apenas para o enriquecimento alheio, em vez de ser um esforço coletivo para a manutenção e a melhoria da sociedade

5.4.8.1.          Essa mentalidade prevalece nos Estados Unidos, onde a ganância é um valor fundamental (“Greed is good”, vemos Gordon Gekko dizer no filme Wall Street, de 2010)

5.4.8.2.          Entretanto, no fundo, ela tem uma origem mais antiga e insidiosa: ela não distingue o trabalho da escravidão

5.4.8.3.          Assim, não é casual que os monarquistas – que retornaram à ribalta na onda reacionária da última década – sejam críticos da escala 5x2: a monarquia no Brasil foi implantada exatamente para manter a escravidão. O antirrepublicanismo é pró-escravismo.

5.4.8.4.          Assim, a celebração do 13 de Maio tem tudo a ver com a defesa da escala 5x2 – e, inversamente, a defesa da escala 5x2 recupera (e exige a recuperação de) o feriado de 13 de Maio

5.5.   Em suma:

5.5.1. Celebremos, então, o 13 de Maio: o fim da escravidão, a fraternidade dos brasileiros e o republicanismo. Celebremos a dignidade do trabalho e dos trabalhadores: que venha a escala 5x2!

5.5.2.  

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Da Abolição da Escravidão à escala 5x2 (Curitiba, 11.5.2056): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/05/da-abolicao-da-escravidao-escala-5x2.html.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] “Lunedia” é o neologismo criado por Miguel Lemos para substituir no português a expressão “segunda-feira”, aproximar o português das demais línguas neolatinas (que usam, por exemplo, lunes em espanhol e lunedie em francês) e lembrar a evolução histórica do Ocidente (lunedia é o “dia da Lua”). Neologismos equivalentes foram criados para os demais dias úteis (ver Catecismo positivista, edição apostólica, 1934, notas de Miguel Lemos, p. 475).