25 agosto 2020

Portal Bonifácio: "Intérpretes do Brasil – os Positivistas"

Após quase um século de pesado e daninho desprezo político e intelectual da parte dos liberais, dos marxistas e/ou dos católicos, felizmente parece que aos poucos o Positivismo vem sendo recuperado e revalorizado pelas elites políticas e sociais brasileiras preocupadas com os destinos nacionais. Isso é motivo para grande comemoração.

 

O texto abaixo foi publicado em um portal eletrônico de caráter nacional-desenvolvimentista intitulado Bonifácio. O original do artigo encontra-se disponível aqui.

 

O autor do texto, entretanto, a despeito da boa vontade ao escrever o texto acima, cometeu alguns equívocos:

 

(1) o projeto positivista NÃO foi implantado durante o regime militar; na verdade, os militares que tomaram o poder eram influenciados pelo autoritarismo e pelo fascismo e combatiam encarniçadamente o Positivismo;

 

(2) o projeto social positivista levava em consideração a "sociedade industrial", que é a forma de organização social baseada no trabalho livre e na divisão entre trabalhadores e patrões; ela NÃO equivale a "industrialismo" ou ao primado das fábricas;

 

(3) simplesmente não está claro o que significa a afirmação segundo a qual Getúlio Vargas teria ampliado o castilhismo em nível nacional, após 1930; em particular, o Estado Novo foi incluenciado pelos fascistas (Góes Monteiro, Francisco Campos e até laivos de Plínio Salgado) e não pelos positivistas, assim como a queima das bandeiras estaduais foi um ato simbólico representativo de uma política radicalmente antifederalista e anticastilhista.

 

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Intérpretes do Brasil – Positivistas

 

Felipe Maruf Quintas

 

22/08/2020

 

O positivismo no Brasil foi, em grande parte, organizado e difundido pela Sociedade Positivista brasileira, fundada em 5 de setembro de 1878 por Benjamin Constant (1836-1891), Miguel Lemos (1854-1917) e Raimundo Teixeira Mendes (1855-1927). Ela foi um núcleo de pensamento e de organização política influenciado pelo positivismo francês, corrente teórica inaugurada pelo filósofo Augusto Comte, um dos fundadores da sociologia.

 

Segundo o conceituado sociólogo nacionalista Alberto Guerreiro Ramos, os positivistas foram os que “pela primeira vez, entre nós, colocaram com toda clareza o problema da formulação de uma teoria da sociedade brasileira como fundamento da ação política e social” (Ramos, 1957, p. 56). Isto é, o conhecimento científico da realidade social própria do Brasil era a condição basilar para a adequada intervenção política nos rumos do país. 

 

Caso contrário, a ação política limitar-se-ia ao simples empirismo, como teria sido o caso, de acordo com eles, da Inconfidência Mineira, da Revolução Pernambucana de 1817 e da Independência em 1822.

 

Os positivistas valorizaram a memória desses eventos fundadores da nacionalidade e, em particular, resgataram as figuras históricas de Tiradentes e de José Bonifácio, esquecidos durante a Monarquia, colocando-as no panteão dos Pais da Pátria. Propuseram, então, continuar e aprofundar o trabalho histórico de construção do Brasil soberano por eles iniciado, partindo da compreensão científica da realidade brasileira, cujos instrumentos teóricos e metodológicos ainda não teriam sido formulados nos contextos pretéritos em que a Independência havia sido tentada e conseguida.


O caráter analítico sustentaria, assim, o normativo. Os positivistas elaboraram um arrojado projeto de Nação, bastante influente nos anos iniciais da República e que seria aplicado, em essência, no século XX, durante a Era Vargas e o regime militar.

 

A Pátria foi entendida por eles como intermediária entre as famílias, unidade básica da sociedade, e a humanidade, ponto de referência superior da ação política. Tal concepção evitava, assim, o individualismo atomizante próprio da ideia britânica de Estado formulada por Thomas Hobbes e John Locke e, também, o chauvinismo belicista, em tudo contrário à disposição fraterna que os positivistas buscavam estabelecer nas relações internas ao Brasil e externas do nosso País com os demais.

 

Sendo considerada “uma reunião de famílias ligadas pelas mesmas tradições, pelos mesmos interesses, pelas mesmas aspirações” (Teixeira Mendes, 1902, p. 3), a Pátria deveria, então, ser venerada e celebrada em sua história, formadora das possibilidades presentes de construção de um futuro melhor. A ordem, construída pela história e mantida pelo culto aos ancestrais, era a base para o progresso, para o conjunto de melhoramentos aos que a Pátria estaria destinada.

 

Tais possibilidades de melhoria, por sua vez, dependeriam de uma direção intelectual, moral e política, que os positivistas se propunham assumir e colocar em prática por meio do planejamento governamental.

 

A organização nacional proposta pelos positivistas tinha como eixos a República, a centralidade do Poder Executivo, a supressão da hereditariedade dos cargos políticos, a abolição da escravatura sem indenização aos antigos senhores, a separação entre o Estado e a Igreja e as liberdades civis como a de pensamento, de expressão e de culto.

 

O desenvolvimento industrial – entendida a agricultura como a “indústria fundamental” – seria o cerne da estruturação do Brasil projetado pelos positivistas. Segundo eles, o industrialismo seria a base material da moralização da sociedade, ainda mais a brasileira, marcada pelo modelo dissipador do latifúndio escravista voltado ao atendimento prioritário da demanda externa.

 

A indústria elevaria o meio técnico de organização do trabalho, favorecendo uma maior produção e circulação dos bens necessários à elevação do padrão de vida do conjunto da população, bem como uma maior solidariedade social pelo aumento da divisão do trabalho.

 

Defensores da grande propriedade – a mais propícia, segundo eles, para encadear os efeitos positivos da indústria -, os positivistas não deixaram de assinalar a sua função eminentemente social. O capital, surgido do concurso coletivo ao longo de várias gerações, deveria servir ao bem estar das gerações presentes e vindouras. Não seria, portanto, meramente privado, mas um instrumento da sociedade a fim de encaminhar o progresso para todos, devendo ser planejado para essa finalidade.

 

A indústria deveria ser organizada do ponto de vista civil e social, seguindo um planejamento político, não de acordo com o laissez-faire propugnado pelo liberalismo. A ordem industrial não deveria ser guiada por interesses particulares desenfreados, mas pelos interesses de toda sociedade, quer dizer, de toda a Pátria. O desenvolvimento industrial estaria subsumido, assim, à Questão Nacional. Portanto, seria imperativa a incorporação dos trabalhadores, que constituíam a massa de cidadãos, à fruição das melhorias engendradas pela indústria.

 

Ainda que os positivistas enfatizassem a necessidade de uma reforma moral e intelectual dos industriais para conscientizá-los do papel social a que estavam destinados a cumprir, eles não perderam de vista a necessidade de mudanças institucionais.

 

Por isso, em 25 de dezembro de 1889, Teixeira Mendes, por intermédio de Benjamin Constant, apresentou ao Governo Provisório da República nascente um ambicioso projeto de reforma legal das condições de trabalho para proteger a “família proletária contra o empirismo industrialista”. Esse plano, elaborado a partir da consulta a cerca de 400 operários, e não a Carta del Lavoro da Itália fascista, foi a base para a legislação trabalhista adotada por Getúlio Vargas.

 

Entre as medidas propostas, constavam o salário mínimo, a jornada de trabalho de 7 horas diárias, a proibição do trabalho infantil, o direito a férias de 15 dias e à folga dominical, a estabilidade no emprego após 7 anos de serviço, a licença remunerada em caso de doença, aposentadoria por idade e por invalidez, pensões às viúvas e órfãos menores de idade.

 

Tais medidas, muito à frente do estágio então presente das forças produtivas brasileiras, foram arquitetadas deliberadamente para impedirem que a industrialização em nosso País se desse nas condições hostis ao trabalhador e sua família, verificadas na maioria dos países que compõem o centro capitalista norte-atlântico. O modelo de desenvolvimento propugnado pelos positivistas era, portanto, de cunho social, dirigido prioritariamente para o bem-estar da sociedade como um todo e não para a acumulação de riqueza nas mãos de poucos capitães de indústria.

 

Os positivistas brasileiros influenciaram significativamente os círculos militares e o movimento republicano, podendo ser considerados, com justiça, patronos da República brasileira.

 

Benjamin Constant teve papel decisivo na Proclamação da República, convencendo o até então monarquista Deodoro da Fonseca a aderir à causa republicana e dirigindo a rebelião militar para que a substituição de regime não desandasse em violência e revanchismo. A criação, em 1890, do Ministério da Instrução Pública, Correios e Telégrafos, voltado a organizar a educação básica no Brasil, atendeu a solicitação de Benjamin Constant, tendo sido desmantelado após o seu falecimento.

 

Teixeira Mendes, por sua vez, é o autor da atual bandeira nacional, tendo sido da sua iniciativa a preservação do traçado básico da bandeira imperial e a inclusão do lema “Ordem e Progresso”, derivado do lema comteano “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”. Foi estabelecida em contraposição à bandeira sugerida por Rui Barbosa, cópia verde-amarela da dos EUA, absolutamente incompatível com a nossa identidade e as nossas tradições.

 

Houve, pois, forte influência positivista no Exército e a participação decisiva de alguns dos seus principais quadros na Proclamação da República e, também, na instauração do Estado laico na primeira Constituição republicana.

 

Todavia, o reformismo social positivista, em grande parte, não obteve efetivação prática em âmbito nacional durante a Primeira República, principalmente a partir dos governos de Prudente de Morais e de Campos Sales, que consolidaram no comando do país a coalizão oligárquica capitaneada pelos cafeicultores paulistas.

 

Ainda assim, e possibilitado pelo federalismo adotado na República, o positivismo foi decisivo, em particular, no plano estadual do Rio Grande do Sul. Os governos do PRR (Partido Republicano Riograndense), liderados por Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros e Getúlio Vargas, estabeleceram uma direção fortemente positivista à administração desse estado, formando uma vertente política do positivismo alcunhada de castilhismo. Desse modo, o Rio Grande do Sul, em linha contrária ao do liberalismo oligárquico prevalecente na esfera federal, conheceu avanços substantivos em sua estrutura produtiva, na cobertura dos serviços públicos e na proteção aos trabalhadores. Essa última, inclusive, foi assegurada pela Constituição estadual de 1891, redigida por Castilhos e de elevada inspiração positivista.

 

O positivismo também foi marcante nos governos de Moniz Freire (1892-1896 e 1900-1904) no Espírito Santo, estado onde a Constituição também recebeu forte influência do positivismo; nos governos de Lauro Sodré (1891-1897 e 1917-1921) no Pará; e no governo de João Pinheiro (1906-1910) em Minas Gerais. A capital mineira, Belo Horizonte, havia sido planejada no final do século XIX por um engenheiro positivista, Aarão Reis (1853-1936), cuja contribuição para a economia política brasileira muito influenciou o futuro presidente Getúlio Vargas. Em todos esses estados, a prática do planejamento econômico levou a administrações inovadoras e a uma grande prosperidade material.  Em grande parte, o projeto delineado pela Sociedade Positivista alcançou realização empírica nesses estados.

 

No âmbito nacional, o projeto positivista de industrialização concomitante à formação de um Estado de bem-estar social tipicamente brasileiro somente veio a ser colocado em prática após a Revolução de 1930, que, de certa forma, amplificou o castilhismo em escala nacional. Em maior ou menor grau, os sucessivos governos nacionais até aproximadamente 1980 foram influenciados pelo positivismo, fazendo com que o Brasil se tornasse um dos países de maior crescimento industrial nesse período.

 

Tanto os postulados teóricos quanto as contribuições programáticas do positivismo permanecem atuais no século XXI.

 

A primazia dos interesses nacionais sobre os particulares e a superação dos conflitos e ódios em favor da unidade da Pátria são a base para o êxito de todos. A retomada da industrialização, necessária para incrementar a posição do Brasil e dos seus empresários na ordem internacional multipolar que se delineia, precisa ser compatível com o atendimento das necessidades materiais e espirituais de um contingente de mais de 200 milhões de compatriotas, que constituem a essência e a razão de ser da Nação. Em um país infelizmente marcado pela precariedade das condições de vida da maior parte da população, o desenvolvimento das forças produtivas deve servir à edificação de uma sociedade mais justa e generosa, de modo a solidificar os vínculos de solidariedade nacional, condição fundamental para o Brasil sobreviver e prosperar frente aos desafios desse século.

 

Referências e sugestões de leitura:

 – A Pátria Brasileira – Teixeira Mendes. 1902. Disponível em: http://www.biblio.com.br/conteudo/teixeiramendes/molduraobras.htm

18 agosto 2020

Roteiro da exposição sobre o oitavo mês dos calendários positivistas (Dante e politeísmo)

O roteiro abaixo consiste na estrutura escrita de uma exposição oral, que, por sua vez, encontra-se disponível aqui.

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Roteiro da exposição sobre o oitavo mês dos calendários positivistas


Dante, em lâmina da Igreja Positivista do Brasil


Parte I – Mês concreto: Dante

-        8º mês do calendário positivista concreto
o   Considerando o ano júlio-gregoriano de 2020 (ano bissexto), o mês de Dante começa em 15 de julho e termina em 11 de agosto
o   O oitavo mês concreto representa a epopéia moderna
§  É o primeiro mês da modernidade
·         Após os meses da Antigüidade e da Idade Média, começa agora a modernidade, com seis meses (Dante, Gutenberg, Shakespeare, Descartes, Frederico, Bichat)
§  Augusto Comte dedica dois meses à arte moderna, Dante (epopéia moderna) e Shakespeare (drama moderno)
·         De acordo com Frederic Harrison, esses dois meses devem ser entendidos em conjunto, representando a poesia (incluídas aí a literatura em prosa e o teatro), a música, a pintura, a arquitetura e a escultura
o   Eles constituem um total de 49 nomes, que vão do século XII ao XIX
·         Essa grande quantidade de tipos artísticos deve-se à ampliação das possibilidades e dos temas passíveis de serem tratados pela arte, na modernidade
·         A arte na Antigüidade referia-se a valores e a uma estrutura social mais aceitas, de modo que ela atingiu formas mais perfeitas
·         Em contraposição, a modernidade apresenta um movimento mais contraditório, mais conflitos e valores menos aceitos, o que torna a sua arte menos capaz de idealizar a realidade; mas, ao mesmo tempo, torna-a mais variada e mais audaciosa
o   O mês e as semanas correspondem ao seguinte:
§  Dante – representa a poesia que idealiza e julga (de maneira crítica) os homens e as situações, ou seja, idealiza e julga tanto os indivíduos quanto as sociedades
§  Ariosto – poetas em verso ou prosa que idealizam a natureza e a conduta humanas
§  Rafael – autores de obras “plásticas” (pintores, arquitetos, escultores); o que importa são as escolas e os estilos representados, não propriamente os autores de obras-primas
§  Tasso – autores de obras sobre a cavalaria e os valores cavalheirescos, além de romances históricos
§  Milton – literatura religiosa e afetiva, incluindo os místicos e os panteístas
-        Vale notar que Dante é um dos nomes mais importantes para Augusto Comte:
o   No Catecismo, ele é citado 12 vezes (subindo para 20 se considerarmos as notas de Miguel Lemos, na edição brasileira)
o   Dante integra o quadro de predecessores filosóficos (e sociológicos) de nosso mestre e, portanto, da própria Religião da Humanidade:
§  Antigüidade: Aristóteles
§  Idade Média: São Tomás de Aquino, Rogério Bacon e Dante
§  Modernidade: Bacon, Descartes e Leibniz; Hume (e Kant), Condorcet (e De Maistre), Bichat (e Gall)
o   Dante é considerado por nosso mestre como o maior poeta moderno e integra o triângulo dos 13 grandes poetas ocidentais:


Parte II – Mês abstrato: politeísmo

-        O oitavo mês do calendário positivista abstrato celebra o politeísmo
o   O politeísmo é a segunda fase das fases sociológicas históricas (dinâmicas) preparatórias; as demais são: o fetichismo (antes) e o monoteísmo (depois)
o   O politeísmo corresponde à “teologia” propriamente dita; por meio da astrolatria, ele surge do processo de abstração da realidade, em que a atividade dos corpos deixa de ser espontânea (no fetichismo) e passa a ser devida a causas externas – inicialmente os astros e depois os deuses
o   Essa passagem foi historicamente necessária para que o processo de abstração tivesse lugar – e, portanto, a constituição da própria ciência
§  Enquanto o fetichismo baseia-se na lógica afetiva diretamente, o politeísmo institui a lógica das imagens
§  A astrolatria surge naturalmente da aparente fixidez dos corpos celestes, além dos movimentos repetitivos dos dois grandes e impressionantes corpos, o Sol e a Lua
§  O politeísmo em sua forma conservadora, dominado pelos sacerdotes, constitui a teocracia propriamente dita
·         A teocracia inicial, além disso, busca regular toda a natureza humana, em um equilíbrio que só é possível por meio do seu caráter estático
·         Uma das formas mais estáveis de organizar a sociedade na teocracia é por meio das castas, nas quais as profissões assumem um caráter hereditário
§  Quando o equilíbrio sacerdotal é quebrado, o politeísmo passa de conservador para progressista (sob os guerreiros) – e, no caso do Ocidente, teve aí início a nossa longa tríplice transição (Grécia, Roma, Idade Média)
§  O politeísmo progressista tem uma característica social importante, que é sua “plasticidade”: o panteão de um povo sempre podia ser incorporado aos de outros povos, fosse por meio da assimilação pura e simples (como a egípcia Ísis, que foi integrada como deusa dos mensageiros ao panteão romano), fosse por meio da equiparação entre panteões (como o grego ao romano)
·         Essa plasticidade do politeísmo foi um dos fatores que permitiu a expansão dos impérios na Antigüidade, com uma correlata tolerância religiosa
·         Mas, por outro lado, o politeísmo guardava ainda um caráter de religião nacional, o que dificultava sua difusão à o monoteísmo, embora evidentemente seja muito menos “plástico” que o politeísmo, tem a vantajosa característica de ser mais universalizável que o politeísmo
o   São quatro as modalidades determinadas por nosso mestre no politeísmo, com as respectivas festas:
1)      Politeísmo conservador – Festa das castas
2)      Politeísmo intelectual (Salamina) – Estético (Homero, Ésquilo, Fídias)
3)      Politeísmo intelectual (Salamina) – Teórico (Tales, Pitágoras, Aristóteles; Hipócrates, Arquimedes; Apolônio, Hiparco)
4)      Politeísmo social (Cipião, César, Trajano)
-        Ao longo das obras de Augusto Comte as observações ao politeísmo são inúmeras, ocupando centenas de páginas, tanto em termos abstratos (avaliação do politeísmo em si) quanto em termos concretos (avaliação das fases e dos tipos ligados ao politeísmo)

 

Parte III – Comemorações de aniversários

-        Em termos de aniversários, comemoramos neste mês as seguintes figuras:
o   Em 1º de Dante (15 de julho):
§  Nascimento de Jean-Pierre Fili (1820-1892)
o   Em 14 de Dante (28 de julho)
§  Morte de Rafael (1483-1520)
o   Em 27 de Dante (10 de agosto)
§  Morte de Miguel Lemos (1854-1917)

Estátua de Dante em Florença

Dante, em ilustração de Gustavo Doré

Rafael Sanzio - Autorretrato com um amigo (c. 1580)
Auto-retrato de Rafael com um amigo

Rafael

Medalhão com efígie de Miguel Lemos

Miguel Lemos

Miguel Lemos, em foto oficial da Igreja Positivista do Brasil

Placa da rua Miguel Lemos, no Rio de Janeiro
Placa da rua Miguel Lemos, na cidade do Rio de Janeiro

Referências bibliográficas

Raimundo Teixeira Mendes: As últimas concepções de Augusto Comte
João Pernetta: Os dois apóstolos (2 v.)
David Carneiro: História da Humanidade através dos seus grandes tipos, v. 6
Ivan Lins: História do Positivismo no Brasil
Ângelo Torres: Calendário Filosófico
Diane Dosso: Comité destravaux historiques et scientifiques, « Sociétés savantes »

25 julho 2020

Aforismos sociológicos X: anotações sobre o politicamente correto


Anotações sobre o politicamente correto

-        Antes de mais nada, é importante notar que a expressão “politicamente correto” é uma tradução incorreta para o português do original em inglês “political correctness”, que, adequadamente traduzido, significa “correção política”

-        A origem remota da expressão está na adequação e na submissão de opiniões quaisquer às disputas políticas travadas pelo Partido Comunista soviético; nesse sentido, muitas opiniões não poderiam ser manifestadas caso entrassem em choque com a doutrina oficial do partido, fosse diretamente, fosse porque sugeriria uma nuança na argumentação empregada

o   Assim, a origem da expressão está ligada ao controle das opiniões e, portanto, à submissão (servil, além de tudo) do poder Espiritual ao poder Temporal

-        A partir dos anos 1980, talvez um pouco antes, a esquerda estadunidense passou a propagar mudanças de valores que refletiriam na linguagem utilizada; essas mudanças propostas passaram a ser chamadas também de “politicamente corretas”

o   O politicamente correto[1] dos anos 1980 baseava-se por um lado na política identitária (ou seja, correspondia ao abandono de um projeto universalista) e, por outro lado, no pós-modernismo (ou seja, nas concepções ultrassubjetivistas, ultra-relativistas e textualistas da realidade)

o   Esse politicamente correto buscava respeitar os grupos identitários, modificando expressões consideradas ofensivas, degradantes, “subalternizantes” etc.

§  Até onde sei, não há continuidade entre o controle político exercido pelos soviéticos sobre as opiniões quaisquer e a prática desenvolvida pela esquerda estadunidense

§  A vinculação da expressão “politicamente correto” à política identitária dos anos 1980 ocorreu pelos críticos à direita (conservadores) dessa mesma política identitária; independentemente da nossa concordância ou discordância com essa prática política, talvez a intenção dos seus críticos fosse associá-la ao controle mental exercido pelos soviéticos

§  O caráter lingüístico e ao mesmo tempo identitário do politicamente correto torna-o bastante arredio (para não dizer refratário) à noção de cidadania, na medida em que esta é ao mesmo sócio-política, universalizante e includente

o   A nova “política lingüística” instituída pelo politicamente correto substituiu a política “real”, isto é, a política que se concentra(va) em questões de classe, de poder (e, no caso dos EUA, de raça)

o   O raciocínio empregado pela política lingüística é ambígüo, considerando que mudanças lingüísticas podem resultar com o passar do tempo em mudanças reais ou, em uma versão mais forte da tese, que essas mudanças lingüísticas são tudo o que importa para a política

-        As críticas ao politicamente correto são variadas:

o   Critica-se a pretensão de que as mudanças lingüísticas conduzam necessariamente a mudanças reais

o   Também se critica a pretensão de que as mudanças lingüísticas bastem, desconsiderando as mudanças reais

o   De um ponto de vista lingüístico, as críticas acima opõem-se à “hipótese Whorf-Sapir”, que em sua versão forte é de fato insustentável[2]

o   Também se critica a instituição de uma polícia lingüística, estabelecida e mantida por grupos político-sociais e que, a partir do controle das expressões, acaba controlando as idéias

o   Em um sentido menos duro que a crítica anterior, também se critica o uso reiterado de eufemismos para descrever grupos sociais, em substituição a expressões consideradas “duras” (como “maior idade” ou “melhor idade” no lugar de “idosos”)

§  No caso dos eufemismos, com freqüência se busca empregar longos circunlóquios para descrever situações ou coisas que se pode descrever com uma ou poucas palavras (sejam eufemísticas ou não essas poucas palavras)

§  Em sentido semelhante ao item anterior, critica-se a censura a expressões habituais como “criado-mudo” (suposta apologia à opressão de trabalhadores, em particular trabalhadores negros) ou “a situação ficou preta” (suposto racismo) – sendo que tais expressões não são necessariamente degradantes (seja em sua origem, seja em seu uso atual)

o   Uma forma radical de “política lingüística” instituída pelo politicamente correto é a pretensão ­– de origem claramente identitária – de realizar uma completa revolução lingüística a partir de parâmetros estritamente políticos, como no caso de forçar no português a neutralidade de gênero para todos os casos, por meio da substituição das desinências “o” e “a” por “x” e/ou “e” (por exemplos: “pessoes” ou “pessoxs” no lugar de “pessoas”)

§  Esse projeto, além de tudo, é encarado por seus defensores como eminentemente “progressista”

-        Uma avaliação positiva do politicamente correto segue as seguintes linhas:

o   Antes de mais nada, vale notar que o sentido original da “correção política” é inaceitável: o controle político das idéias não pode ocorrer nunca, em nenhuma situação

§  Para que o controle político das idéias não ocorra, é necessário respeitar-se criteriosamente a separação entre os dois poderes (Espiritual e Temporal)

§  Essa advertência inicial é tão mais necessária quanto considera-se que os movimentos que defendem o politicamente correto são movimentos “políticos”, no duplo sentido de que têm em vista objetivos políticos e que desprezam os procedimentos morais; além disso, os movimentos que defendem o politicamente correto são “revolucionários” e apodam a defesa da moralidade como “conservadora”[3]; mas o principal é que tais movimentos elegem a ação política como preferencial, o que significa que tendem a querer que suas pautas sejam implementadas, ou melhor, impostas pelo Estado

o   A inspiração afetiva básica do politicamente correto atual é aceitável e em linhas gerais é correta, na medida em que seu objetivo é evitar-se expressões degradantes e ofensivas

§  Essa inspiração corresponde tanto a uma aplicação específica do altruísmo quanto à fraternidade, em que a inteligência seleciona expressões que não correspondem aos sentimentos atuais de respeito ao ser humano e à diversidade social

§  A atenção a ser dada ao emprego de determinadas palavras e expressões corresponde a um refinamento da nossa sensibilidade, bem como a uma atualização dessa sensibilidade, em que se presta maior atenção à correspondência entre os valores professados e as expressões empregadas correntemente

o   O meio selecionado pelo politicamente correto basicamente atua no âmbito do poder Espiritual, pois refere-se aos valores e às palavras empregadas para expressar tais valores, além de alguns valores cristalizados (ou, quem sabe, fossilizados) em algumas expressões

§  Parte das críticas sofridas pelo politicamente correto devem-se ao desajuste entre os valores próprios ao politicamente correto e o conjunto da sociedade, no sentido de que o conjunto da sociedade resiste a rever seus valores e a agir em conformidade com essa revisão

§  Embora em si mesmas as mudanças propostas pelo politicamente correto compitam ao poder Espiritual, a origem revolucionária do movimento politicamente correto leva-o a adotar meios políticos para problemas espirituais

o   Para qualquer pessoa sensata, e para qualquer pessoa com sensibilidade histórica, deve ser claro que qualquer mudança social implica também uma alteração lingüística, no sentido de que novas expressões tornam-se correntes, outras perdem relevância, outras mudam de sentido e outras são explicitamente rejeitadas

§  Na verdade, o politicamente correto inverte radicalmente a ordem das mudanças: em vez de haver mudanças sociais seguidas por mudanças lingüísticas, ele quer que as mudanças linguísticas ocorram antes das mudanças sociais

§  No caso do politicamente correto, a mudança social é vista como ocorrendo apenas ou principalmente por meio da mudança lingüística; assim, a língua concentra as disputas sociais

o   A indução de mudanças sociais por meio de alterações lingüísticas é aceitável; em certo sentido, isso corresponde precisamente à atuação do poder Espiritual

§  As mudanças sociais a partir das mudanças lingüísticas não ocorrem apenas porque as palavras mudam, mas porque as sensibilidades, as idéias e os valores alteram-se

§  A lógica do poder Espiritual, portanto, corresponde à seguinte seqüência: mudança de valores e idéias à mudança de sensibilidade à mudança de palavras

§  A lógica do politicamente correto pode ser descrita pelo seguinte esquema: mudança de palavras à mudança de sensibilidade à mudança de valores e idéias

§  O esquema acima deixa claro que, em relação à lógica positiva, em vez de o politicamente correto adequar-se à inspiração afetiva e, a partir daí, alterar de maneira conforme os sinais empregados (ou seja, a linguagem), ele despreza a lógica positiva, despreza a origem afetiva e quer forçar os sentimentos por meio dos sinais

o   Por outro lado, a maior parte das críticas ao politicamente correto são acertadas:

§  ele não é relativista e, ao contrário, é absoluto, anti-histórico e antissociológico

§  despreza a historicidade das expressões (ou seja, as expressões e as palavras mudam de sentido com o passar do tempo); ela também força interpretações negativas em palavras e expressões que, em si mesmas, não são ofensivas e cujos sentidos originais perderam-se com o tempo

§  reduz a subjetividade humana apenas à linguagem; em vez de buscar regular e sistematicamente acordos e consensos nessa subjetividade (mesmo que reduzida), transforma a linguagem em palco de disputas políticas

§  a concepção de política que adota freqüentemente não tem em vista a coletividade, a harmonia nem o bem comum, mas tem um caráter bélico (amigos vs. inimigos) e particularista (afinal, é identitária)

§  tem uma visão adolescente da vida social e política: adota um tudo-ou-nada e a lei de Talião como princípios diretivos, assim como a culpa e o inculpar-se como princípios de justiça

§  em vez de pautar-se pelo altruísmo e pela fraternidade universal, o princípio afetivo que o orienta é o ressentimento

§  tende a desprezar a realidade, no sentido de que adota a interpretação textualista do pós-modernismo e que rejeita a realidade material da sociedade

-        Em suma: de modo geral, o politicamente correto é um desvio, mesmo uma corrupção, do altruísmo, que, imbuído de um espírito crítico, assume um direcionamento revolucionário, violento e político, em vez de manter-se no poder Espiritual, estritamente no âmbito do aconselhamento, com a aplicação cuidadosa e circunstanciada da revisão das palavras como passo seguinte à mudança geral de sentimentos

o   Além disso, falta ao politicamente correto o emprego altruísta dos sentimentos altruístas, no sentido de que como regra o politicamente correto não formula a hipótese mais simpática, dando sempre ênfase às hipóteses mais negativas e destruidoras

o   Vale notar que o politicamente correto de modo geral assume um caráter repressivo, que está de acordo com a inspiração geral da sociedade estadunidense, marcadamente protestante nesse como em outros aspectos 



[1] Embora, como vimos, a tradução adequada de political correctness seja “correção política”, usarei “politicamente correto” por uma questão de comodidade.

[2] Em termos bastante simples, a hipótese Whorf-Sapir estabelece que os limites da compreensão que um grupo social (e, por extensão, cada indivíduo) tem é dado pelos limites descritivos de cada língua; assim, para que um determinado grupo social amplie compreensão do mundo ele deve “importar” palavras de outras línguas. De qualquer maneira, a versão forte da hipótese propõe que a ampliação da língua é condição sine qua non para ampliação do entendimento, em vez de ser sua conseqüência. Vale notar que os próprios Edward Lee Whorf e Edward Sapir não elaboraram a hipótese a eles atribuída, pelo menos em sua versão forte.

[3] Para tais grupos, a moralidade só é aceitável na medida em que for a própria moralidade e em que eles próprios defendam pautas morais; a moralidade de outros grupos, especialmente aquelas de quem eles discordam, é sempre, por definição, vista como “conservadora”, “dominadora” e hipócrita. Além disso, a moralidade não raro é entendida como um meio para um fim, em vez de ser ela mesma um fim em si própria.