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13 julho 2026

O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história

No dia 13 de julho de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou nosso artigo "O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história - 1".

O texto original encontra-se disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/o-brasil-da-rejeicao-do-ocidente-a-ilusao-do-reinicio-da-historia-1/.

O artigo pode ser lido abaixo.

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Mapa Múndi (foto de Leandro Barreto na Unsplash).

O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história – 1

Nos afastamos de nossa ocidentalidade. Esse afastamento, ou essa rejeição, são graves e muito ruins. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Um dos traços mais notáveis da política brasileira no último século é a nossa insistente dificuldade, ou nossa franca rejeição, de conjugarmos (1) a filiação à civilização ocidental com (2) a autonomia nacional e perspectivas universalistas. Essa conjugação não tem nada de excepcional e não é em si mesma contraditória, mas sua realização exige vontade e esforços conscientes. Cada vez mais o que se vê é que tais vontade e esforços não ocorrem – bem ao contrário, aliás.

Genericamente e a princípio, as perspectivas universalistas são o respeito a todas as culturas e civilizações existentes, bem como a abertura e o bom relacionamento com elas, a partir de critérios aplicáveis a todas, com dignidade e uniformidade.

A autonomia nacional corresponde à capacidade de decidirmos o que desejamos fazer, com quem desejamos relacionar-nos, quais os valores que nos orientam – o que tem um aspecto interno e outro externo.

Já a filiação à civilização ocidental corresponde ao fato de que o Brasil surgiu a partir dos esforços expansionistas europeus, sob a orientação política, cultural e moral portuguesa, com diversas modalidades de interação com as populações autóctones e de outras áreas nesse esforço.

Muitas vezes os europeus foram brutais, mesmo criminosos, gerando situações que se tornaram problemáticas; ainda assim, daí surgiram novas sociedades, sob a orientação do que posteriormente se ampliou para a concepção de “Ocidente” – e que não se reduz aos seus aspectos problemáticos, apresentando muitos e importantes aspectos positivos.

A autonomia nacional brasileira é um valor que mais ou menos não se discute, pelo menos ao afirmar-se internamente a originalidade de nossa sociedade e, em decorrência, as nossas preocupações externas específicas. Mas – e é esse o começo do problema que desejamos comentar – essa autonomia (interna e externa) é entendida como rejeição do pertencimento ao Ocidente, o que, por sua vez, conduz a um universalismo no mínimo claudicante.

Não se pode fingir que o Ocidente teve ao longo da história um comportamento exemplar. A própria noção de “Ocidente” com frequência é manipulada para induzir, ou impor, comportamentos que beneficiam apenas alguns países em particular; além disso, em inúmeros períodos ela justificou práticas odiosas, como a escravidão e/ou extermínio de outros povos.

A expressão “fardo do homem branco” (white man’s burden) resume isso muito bem, em termos de colonialismo imperialista ou de restrição do próprio “Ocidente” a alguns países (em particular Alemanha, Inglaterra e, mais recentemente, Estados Unidos).

Os problemas ligados ao “Ocidente” não são poucos e muitos deles são realmente graves: isso explica e às vezes justifica inúmeras reações, começando pela descolonização, passando por distanciamentos variados e chegando à franca rejeição. Depois de 1945, isso assumiu as formas do Movimento dos Países Não-Alinhados, do Movimento do Terceiro Mundo e atualmente do Sul Global. Esses movimentos transitam entre o distanciamento e a rejeição, com a crítica ao (ou a um) falso universalismo e eventualmente com a defesa de particularismos supostamente virtuosos.

Mas, em contraposição aos problemas acima, o Ocidente é o fundamento efetivo da identidade de dezenas de países, tanto na Europa quanto nas Américas e em outras partes. Além disso, concepções fundamentais da vida contemporânea têm origem no Ocidente, em particular o universalismo secular, a tolerância e a atividade pacífica e cooperativa. Essas concepções fundamentam várias das mais importantes instituições atuais, organizadas no sistema da Organização das Nações Unidas, mas não somente nele.

Por outro lado, muitas das demandas não-ocidentais valem-se explicitamente das concepções ocidentais, como o uso sistemático da “crítica”, a exigência de tolerância, autonomia e soberania nacionais etc. Essas concepções são usadas por países não-ocidentais mesmo quando as concepções próprias a esses países são diametralmente opostas às ocidentais; muitos dos países que criticam o Ocidente adotam, eles mesmos, comportamentos criticáveis: imperialismo, colonialismo, falso universalismo etc., resultando em hipocrisias múltiplas e cruzadas.

Esse comportamento, que de maneira suave podemos chamar apenas de “ambíguo”, é compartilhado por intelectuais, em particular pelos intelectuais “críticos”. Assim como vários países, muitos intelectuais frequentes vezes usam o universalismo criado pelo Ocidente para sabotar esse mesmo universalismo, em favor de concepções e práticas que muitas vezes são particularistas, autoritárias, discriminatórias etc.

Essa conduta dos intelectuais é ainda estimulada pela teoria e prática do identitarismo; no fundo, ele é apenas uma variedade de etnocentrismo e, portanto, potencialmente “universal”, mas a sua forma específica, em voga desde há algumas décadas, é estadunidense (logo, plenamente ocidental). O identitarismo sistematiza e estimula os ressentimentos de grupos sociais e políticos que são minoritários ou que se vêem assim, enfatizando de maneira agressiva os particularismos e os facciosismos: é claro que as ambiguidades do Ocidente são um campo fértil para o identitarismo.

É nesse intrincado ambiente que se inclui a situação brasileira, que é muito específica, em múltiplos sentidos. Somos um país de dimensões continentais, o que nem sempre percebemos com clareza e que nos conduz a concentrar-nos em demasia em nossos problemas internos, ignorando o ambiente externo e a dependência de todos os países em relação a isso.

Também somos o único país lusofalante nas Américas, cercado por sete países hispanofalantes; além disso, em um continente republicano, nossa independência manteve a monarquia, para garantir a escravidão e o território gigantesco. Mas fomos colonizados por um povo ibérico, cuja plasticidade social é universalmente reconhecida. Além disso, compartilhamos também os aspectos positivos do Ocidente, herdando o racionalismo universalista, a trilha para a atividade livre e cooperativa, o estímulo à tolerância etc.

Retornamos aqui à afirmação inicial deste artigo: nós, brasileiros, lidamos muito mal com nosso caráter ocidental. Certamente que os problemas próprios ao Ocidente (e que, lamentavelmente, não são exclusivos do Ocidente) não ajudam nessa relação, como nos casos dos valores compartilhados e dos falsos universalismos usados externamente como pretextos para a dominação e a exploração, ou, internamente, para degradações étnicas.

Esses aspectos negativos estimulam a rejeição dos nossos aspectos ocidentais; a agressividade identitária de origem estadunidense dá uma camada extra à problemática relação que mantemos com nossa identidade nacional.

O resultado disso tudo é que nos afastamos de nossa ocidentalidade – e, no limite, tendemos a rejeitá-la. Deveria ser evidente que esse afastamento, ou essa rejeição, são graves e muito ruins. Ainda assim, uma série de práticas daí derivadas deixa claro que essa evidência, infelizmente, não é tão evidente assim, o que justifica as presentes reflexões.

Desenvolveremos essas questões em nosso próximo artigo.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.

21 maio 2026

Liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização

No dia 20 de maio de 2026, o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um texto de nossa autoria em que tratamos do Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica.

Embora concordemos de modo geral com o conteúdo desse manifesto, ele apresenta uma série de defeitos que exigem reflexão.

O original do nosso artigo está disponível aqui. O nosso texto está reproduzido abaixo.

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Manifesto pela liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização

A própria comunidade acadêmica é a responsável pelo que critica em manifesto. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Estudantes universitários em sala de aula (foto: ABr)

Há algumas semanas, um grupo heterogêneo de professores universitários de ciências sociais lançou um Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica. Esse documento é notável tanto pelo que diz quanto pelo que não diz, bem como pelo local em que foi redigido e por seus subscritores iniciais, e exige algumas reflexões.

O documento foi originalmente assinado por cientistas sociais de grande projeção nacional, alguns dos quais têm colunas fixas em grandes jornais impressos (Maria Hermínia Tavares e Wilson Gomes, na Folha de S. Paulo, Pablo Ortellado, no Estadão). Para além disso, há subscritores habitualmente discretos e que costumam recusar-se a assinar manifestos político-acadêmicos. (Fui aluno e tenho relações de amizade com vários deles, vale notar.)

Por outro lado, esse documento foi elaborado e publicado originalmente em São Paulo, reunindo pesquisadores que circundam o ambiente paulista (ou seja, que trabalham e/ou que estudaram lá). Claro que há exceções a essa descrição geral, mas, basicamente, trata-se de um documento paulista, aberto à adesão dos demais.

O que esse documento afirma explicitamente? Ele afirma que as universidades públicas (federais e estaduais) nos últimos anos têm sido caracterizadas por um ambiente político tóxico, de restrição das liberdades de pensamento e de exposição, com agressivos impedimentos da manifestação de ideias, bem como do mais intenso patrulhamento moral e ideológico. Em face disso, clama-se pela reversão da intolerância e pela reinstalação da liberdade acadêmica.

O documento tem tido muitas adesões, o que sugere que o problema denunciado é real; de nossa parte, a esse respeito, concordamos totalmente.

Mas, como dissemos há pouco, esse manifesto é notável não só pelo que explicita, mas também pelo silencia. E os silêncios são tão, ou até mais, eloquentes que suas afirmações.

O manifesto denuncia alguns graves problemas e clama por sua reversão; ou seja, ele critica alguns efeitos e busca a sua inversão. Todavia, o documento mantém-se resolutamente em silêncio a respeito dos fatores que resultaram nesses fenômenos, bem como de seus agentes produtores.

Assim, o manifesto age no vazio ou no limbo. Fala-se dos efeitos, mas cala-se a respeito das causas e dos causadores. Os autores do manifesto são cientistas sociais, todos com décadas de pesquisas empíricas e teóricas; o silêncio a respeito das causas e de seus produtores não é casual, mas profundamente intencional.

O fato simples e direto é que os causadores da situação denunciada no documento são os próprios acadêmicos. Por certo que a maior parte dos autores do manifesto são mais ou menos inocentes a respeito e que alguns deles há muito tempo são críticos francos da situação denunciada. Ainda assim, os professores universitários, em seu conjunto, são os responsáveis pela situação que criticam e de cujos efeitos agora padecem.

É porque não querem assumir as próprias responsabilidades – em bom português: porque não querem assumir as próprias mancadas – que o documento se mantém obsequiosamente em silêncio a respeito da origem e dos autores desses problemas.

Por que os professores universitários são os responsáveis pelo atual ambiente tóxico, de patrulhamento agressivo e intolerante? Pura e simplesmente, porque os professores universitários estimularam durante décadas (quando não ainda estimulam) esse comportamento; ou, então, porque se mantiveram (e mantêm-se) omissos a respeito.

Na verdade, o que o documento denuncia é a realidade social mais ampla há muito tempo: os professores universitários reclamam agora porque eles próprios têm que lidar com as consequências de suas ações e de suas omissões que, até então, graciosamente eles reservavam para “os outros”. (Perseguições, favorecimentos, vingancinhas, filhotismo… a academia é plena desse gênero de mesquinharia, inclusive praticada por vários dos autores do manifesto: cinismo e hipocrisia.)

Mais que apoio ativo ou omissão para comportamentos práticos, os professores universitários são os responsáveis pelo que agora denunciam porque muitas ideias (“teorias”) que ensinam, propagam, pelas quais militam, são ideias que conduzem diretamente ao resultado prático agora vivido.

É sempre fácil se afirmar que as ideias são apenas ideias, que não têm resultados práticos por si sós. Ora, nem os autores nem os subscritores do manifesto aceitarão a concepção academicista da “torre de marfim”, segundo a qual a ciência deve ser cultivada pela própria ciência, ou que a erudição deve ser cultivada pela própria erudição.

Claro que há correntes teóricas que não sabem justificar por que fazem o que fazem (é o caso dos weberianos); ainda assim, pelo menos em princípio, todos concordam que as produções acadêmicas, aí incluídas as teóricas, devem ter alguma utilidade social.

Quais ideias conduzem ao que se critica no manifesto? É certo que os autores e os subscritores do manifesto não têm todos as mesmas ideias; aliás, certamente, estão muito longe de convergências nesse sentido.

A despeito disso, na acadêmica vige a concepção de que a “crítica” sistemática é uma virtude intelectual, moral e prática: não o exame cuidadoso das ideias, das realidades, o confronto sistemático entre uma coisa e outra, mas a crítica como a destruição sistemática de todas as concepções, a noção de que o progresso consistiria na destruição sistemática do passado.

A isso se junta a concepção de que “tudo é poder”: se tudo é poder e política, tudo é disputa e, portanto, não há espaço para acordo, diálogo, tolerância, paciência – nem convencimento, nem pesquisa científica efetiva.

Essa mentalidade originalmente foi instalada na academia com o marxismo. Mas o marxismo tem um intelectualismo que se ajusta bem à vida acadêmica e, em todo caso, ele não é mais tão relevante. É um bastardo do marxismo o responsável pela situação denunciada no manifesto: o identitarismo. Todas as situações denunciadas no documento – facciosismo, estímulo ao ódio e ao ressentimento, particularismo agressivo, intolerância – são características de identitarismo.

Ocorre que muitos dos autores e subscritores do manifesto são promotores ativos do identitarismo. E, quando não são adeptos/promotores, são pelo menos omissos a respeito – todos fingindo que essas ideias não têm, necessariamente, os resultados que têm e que agora se voltam contra a academia.

(Por falta de espaço, não comentaremos a busca ávida dos identitários por influir nas políticas públicas. Notemos apenas que os identitários, não por acaso, abominam a laicidade do Estado, ou seja, buscam usar o Estado para impor agressivamente suas crenças.)

O identitarismo é uma filosofia e uma prática política profundamente acadêmica. Quando autores e subscritores do manifesto calam-se a respeito das causas do que denunciam, é porque não querem assumir que a própria academia, ao manter e estimular o identitarismo, é a responsável pelo que critica.

Assim, critica-se uma situação, mas não se assume a responsabilidade pela situação criticada. Afinal, quem quer fazer um mea culpa? Mais fácil que assumir as próprias mancadas é criticar no limbo uma situação e fingir que a culpa é “dos outros”.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

14 abril 2026

A laicidade contra a misoginia

No dia 13 de abril de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o nosso artigo "A laicidade contra a misoginia". 

O artigo está reproduzido abaixo. A versão original encontra-se disponivel aqui: https://monitormercantil.com.br/a-laicidade-contra-a-misoginia/.

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A laicidade contra a misoginia

Misoginia é tratada como blasfêmia, sujeito ao punitivismo identitário Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Na conturbada sociedade em que vivemos, é correto que cada vez mais se dissemine a noção de que a misoginia deve ser combatida. O desrespeito às mulheres, a violência contra elas, a concepção de que as mulheres seriam versões imperfeitas ou degradadas dos homens – tudo isso tem que ser visto como errado e degradante.

A relevância moral e a urgência política (mesmo policial) do tema exigem que o digamos com clareza, com todas as letras: as mulheres devem ser valorizadas e respeitadas; o fato de elas serem fisicamente mais frágeis não as diminui e, bem ao contrário, torna-as mais merecedoras de cuidado e atenção. Aliás, é exatamente a relativa fragilidade que justifica a novidade penal brasileira correspondente ao “feminicídio” e que torna essa forma de homicídio tão aviltante.

(Apenas pessoas abrutalhadas consideram que os mais fracos são desprezíveis; apenas o culto à violência, à lei do mais forte, chega à conclusão degradante de que ser mais fraco, mais frágil e, por vezes, mesmo inferior seria motivo para humilhação e desrespeito. Ao longo de nossas vidas, todos nós, em vários momentos, somos mais ou menos frágeis e ocupamos posições de inferioridade. Em si mesmo, nada disso é ou precisa ser degradante ou humilhante.)

Enfim, se felizmente há um crescente consenso de que a misoginia deve ser combatida, parece que há também um infeliz consenso a respeito dos meios a empregar nisso. O projeto de lei que está atualmente em tramitação no Congresso Nacional e que transforma em crime a misoginia corresponde precisamente a esse infeliz consenso.

Nossa época ultrapolitizada afirma que tudo é política, ou seja, tudo é poder e dominação. Essa dominação não corresponde ao mando com legitimidade a partir de critérios públicos, compartilhados e livremente aceitos. Se “tudo é política”, quem manda exerce o poder de maneira agressiva, submetendo passivamente os demais. Isso rejeita o verdadeiro consenso, os valores morais, as concepções compartilhadas etc.

Em suma, essa política consiste apenas na aplicação brutal e cínica da máxima “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Não por acaso, essa concepção foi defendida pelos nazistas Carl Schmitt e Martin Heidegger e, a partir deles, foi popularizada por Michel Foucault – que é o teórico do identitarismo.

Desprezo pelos inferiores (e pela inferioridade), brutalidade na política, rejeição de valores livremente compartilhados: aplicando-se todas essas concepções ao problema da misoginia, o resultado não poderia ser diferente da simples e direta criminalização da misoginia.

Deveria ser evidente que a misoginia basicamente é uma questão de opinião – ideias que, por sua vez, baseiam-se em valores e que, por sua vez, podem converter-se em atos concretos. Claro que podemos considerar muitas ideias como erradas e muitos valores como degradantes; mas ideias e valores não são atos concretos.

Quando necessária, a punição deve considerar atos, não ideias e valores; aliás, nem todos os atos podem ser punidos, na medida em que evidentemente há graus de aceitação de comportamentos inadequados. Os atos mais agressivos e/ou de efeitos mais duradouros: esses devem ser punidos com o poder do Estado; em todo caso, opiniões e valores são opiniões e valores e não podem ser punidos como tais.

A criminalização da misoginia deixa de lado os atos e vai para as ideias e opiniões. Essa é a tendência geral vista no Brasil recente – a renovada criminalização de ideias e valores. Aliás, de maneira exemplar, não há uma deputada federal que processa judicialmente toda e qualquer pessoa que ouse discordar publicamente dela?

Essa criminalização é promovida pelos grupos identitários – no presente caso da misoginia, por grupos feministas e simpáticos ao feminismo. Esses grupos têm restabelecido o crime de blasfêmia, o que não deixa de ser surpreendente e chocante, na medida em que tais grupos são quase todos anticlericais.

O emprego da violência do Estado para impor censura oficial sobre ideias e valores corresponde às concepções gêmeas de que tudo é política e de que valores livremente compartilhados são tolice. Essas concepções, longe de melhorarem a sociedade e diminuírem a violência, pioram a agressividade social ao apostarem na brutalidade e no punitivismo sistemático.

São concepções e práticas brutais; as ideias e os sentimentos estimulam a misoginia por si só (e também o desprezo aos/às fracos/as), e as práticas conduzem à violência contra as mulheres. É notável: embora afirmem defender grupos desrespeitados, os identitários apostam em concepções e práticas que conduzem exatamente ao desrespeito e à violência.

Essas concepções têm sido defendidas ativamente, de maneira militante, à direita e à esquerda, pelo Governo Federal (e por governos estaduais), pelos membros do Congresso Nacional, pelo Ministério Público, por grandes jornais diários e até pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Não há república e não há sociedade que resistam a tal assédio.

Em inúmeras ocasiões, observamos que os grupos identitários rejeitam a separação entre igreja e Estado, a chamada “laicidade do Estado”. A laicidade do Estado pressupõe que nem tudo na sociedade é política e que é inaceitável usar o poder do Estado para impor ideias e valores – ou, o que é equivalente, que é inaceitável usar o Estado para a censura.

A laicidade pressupõe também a realidade autônoma da sociedade civil, cuja dinâmica não se limita ao poder e à disputa política; em consequência disso, a sociedade civil mobiliza valores e ideias, que devem ser respeitados e que orientam a ação do Estado.

É importante indicarmos também que as concepções gêmeas de laicidade do Estado e de sociedade civil pressupõem a legitimidade dos valores morais. A ultrapolitização punitivista atual despreza os valores morais, tachando-os de “moralismo”. Entretanto, como devemos chamar as concepções de dignidade humana, de respeito às mulheres, de fraternidade, de pacifismo etc., senão de “valores morais”?

Se tudo é apenas política, essas concepções “morais” seriam apenas palavras a serem usadas de maneira cínica em disputas sem fim (e sem objetivo); mas, se tais palavras significam alguma coisa, elas têm necessariamente e, acima de tudo, um valor moral, que deve ser entendido como superior à disputa política.

Ao assumir a existência e a autonomia da sociedade civil, a laicidade do Estado pressupõe que problemas morais exigem soluções morais. Para o tema que nos preocupa, isso significa que a misoginia, por mais criticável que seja – e que de fato é – deve ser tratada como uma questão de debate e convencimento na sociedade civil, e não como um crime de blasfêmia, sujeito ao vigilante punitivismo identitário.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

17 setembro 2025

Ordem e Progresso contra o fascismo

No dia 7 de Shakespeare de 171 (16.9.2025) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Primeira Parte - doutrina apropriada aos verdadeiros conservadores).

Também manifestamos apoio à decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal em 2 de Shakespeare de 171 (11.9.2025) que condenou o núcleo duro da organização fascista que, a partir da Presidência da República, tentou (mas felizmente fracassou) um golpe de Estado.

Da mesma forma, também lemos um artigo de nossa autoria que explica o "Ordem e Progresso" e como ele pode e deve ser aplicado para combater ao mesmo tempo o fascismo e o identitarismo.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (aqui: https://youtube.com/live/takXxHZBrf0) e Igreja Positivista Virtual (aqui: https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1518644569156731).

As anotações que serviram de base para a noss exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Leitura comentada do Apelo aos conservadores

(7.Shakespeare.171/16.9.2025) 

1.      Invocação inicial

2.      Datas e celebrações:

2.1.   Dia 1º de Shakespeare (10.9): início do mês de Shakespeare, dedicado ao drama moderno

2.2.   Dia 5 de Shakespeare (14.9): nascimento de Sofia Bliaux (1804 – 221 anos)

2.3.   Dia 6 de Shakespeare (15.9): transformação de Paulo de Tarso Monte Serrat (2014 – 11 anos)

2.4.   Dia 8 de Shakespeare (17.9): transformação de Rodolfo Paula Lopes (1984 – 41 anos)

3.      Apoio à condenação, realizada pelo Supremo Tribunal Federal, de Jair Bolsonaro e seus asseclas, por tentativa de golpe de Estado, para instauração de um Estado fascista, autoritário e, portanto, extremamente violento

3.1.   O julgamento terminou em 2 de Shakespeare de 171 (11.9.2025)

3.2.   Apesar de a condenação em si ser motivo de comemoração, no final das contas isso é motivo de grande tristeza e lamento

3.2.1.     O golpe de Estado tentado mas felizmente fracassado resultaria, conforme as previsões mais serenas dos golpistas, em guerra civil, assassinatos, censura, perseguições, atentados etc. Tudo isso é chocante, desprezível e a condenação foi correta

3.2.2.     É importante lembrar que todo o processo ocorreu seguindo o devido processo legal, com direito ao contraditório, acesso às provas etc.

3.2.3.     Mas: os fatos de ter-se tentado um golpe de Estado no Brasil e de tanto o Brasil como o mundo indicam que se vive uma situação social, política, filosófica – religiosa, em uma palavra – que permite não apenas que o fascismo e o identitarismo surjam, mantenham-se, desenvolvam-se e prosperem mas que, no caso do fascismo, chegue a quase ter êxito em um golpe de Estado violento e fratricida. Isso é motivo de tristeza e grande preocupação

3.2.4.     O livro de nosso mestre, Apelo aos Conservadores, cuja leitura comentada estamos realizando, e o nosso artigo que leremos daqui a pouco tratam exatamente das situações sociais, políticas e filosóficas que permitiram e mantêm o fascismo e o identitarismo, bem como da única solução real e possível para esses problemas, dada exclusivamente pelo Positivismo e pela Religião da Humanidade

4.      Leitura do artigo “Ordem e Progresso” em tempos de fascismo e identitarismo, publicado em 8.9.2025 no Monitor Mercantil

4.1.   Disponível aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/09/ordem-e-progresso-em-tempos-de-fascismo.html

4.2.   Como indicamos há pouco, o livro de nosso mestre, Apelo aos Conservadores, cuja leitura comentada estamos realizando, e o esse nosso artigo tratam exatamente das situações sociais, políticas e filosóficas que permitiram e mantêm o fascismo e o identitarismo, bem como da única solução real e possível para esses problemas, dada exclusivamente pelo Positivismo e pela Religião da Humanidade

5.      Exortações

5.1.   Sejamos altruístas!

5.2.   Façamos orações!

5.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

6.      Leitura comentada do Apelo aos conservadores

6.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

6.1.1.     O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

6.1.1.1.           O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

6.1.1.2.           Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

6.2.   Outras observações:

6.2.1.     Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

6.2.2.     O capítulo em que estamos é a “Primeira Parte”, cujo subtítulo é “Doutrina apropriada aos verdadeiros conservadores”

6.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

7.      Invocação final

 

Referências

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris, L. Mathias, 1851-1854).

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), “Ordem e Progresso” em tempos de fascismo e identitarismo (Monitor Mercantil, Rio de Janeiro, 8.9.2025): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/09/ordem-e-progresso-em-tempos-de-fascismo.html.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



09 setembro 2025

"Ordem e Progresso" em tempos de fascismo e identitarismo

No dia 8.9.2025 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o meu artigo "Ordem e Progresso" em tempos de fascismo e identitarismo.

O original está disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/ordem-e-progresso-em-tempos-de-fascismo-e-identitarismo/.

Reproduzimos abaixo o texto.

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‘Ordem e Progresso’ em tempos de fascismo e identitarismo

Desmoralização da direita e da esquerda e fim dessa polarização Por Gustavo Biscaia de Lacerda


Bandeira do Brasil - Ordem e Progresso (foto de André Maceira, CC)

Com uma certa e triste frequência, a frase “Ordem e Progresso” é alvo de polêmica. Geralmente, essas polêmicas envolvem o sentido da ordem e sua importância para o progresso, resultando em oposição entre direita e esquerda.

Um exemplo disso é o artigo que Djamila Ribeiro publicou em 28 de agosto na Folha de S. Paulo, intitulado “Independência ou morte”. O subtítulo desse texto resume as ideias e o conhecimento que a autora tem do “Ordem e Progresso”: “Pensar de forma independente é recusar o mito da ordem e progresso”.

Em um artigo que se esmerou em citar autoras feministas, a autora referiu-se uma única vez ao “Ordem e Progresso”, foi incapaz de explicar o que significa essa frase e resumiu a “ordem” à “manutenção da desigualdade”.

À parte sua escandalosa superficialidade, a autora repetiu um procedimento que, infelizmente, é corrente na esquerda, ao resumir a “ordem” ao status quo, à sociedade capitalista, à paz de cemitério ou a uma combinação desses sentidos.


Embora a esquerda faça questão de degradar dessa forma a noção de ordem, a direita faz questão de não se sair melhor ao tratar do “Ordem e Progresso”, na medida em que, por seu turno, despreza o progresso.

Ora, os erros da direita e da esquerda sobre o “Ordem e Progresso” são mais que fruto de ignorância; eles são mais que fruto de preconceitos e revelam disposições morais e políticas profundas e altamente danosas para a sociedade brasileira e para a Humanidade.


2 erros simétricos da direita e da esquerda

Direita e esquerda cometem erros simétricos a respeito do “Ordem e Progresso”. Elas assumem que: (1) ordem e progresso podem e devem ser encarados separadamente; (2) a ordem deve vir antes do progresso. É claro que essas considerações podem ser feitas isoladamente, mas, no caso da frase “Ordem e Progresso”, presente na bandeira nacional, todas elas estão erradas.

É natural que direita e esquerda considerem a ordem separadamente do progresso; na verdade, suas respectivas perspectivas exigem tal separação e definem-se exatamente pela parcialidade de suas vistas. Enquanto a direita valoriza a ordem contra o progresso, a esquerda afirma o progresso contra a ordem.

Para a direita, a ordem é o valor social primordial, tomando como base a memória das relações sociais antigas; o progresso, que implica mudança, corresponde à alteração sistemática das relações sociais — o que, para eles, é ruim. Essa concepção é estática; não por acaso, na direita estão os “conservadores”, embora, no fundo, eles devam ser chamados de “retrógrados”.

Já a esquerda quer o progresso sistemático; sua concepção é dinâmica, mas, por outro lado, ela considera que o passado (quando não o presente) é uma constante e eterna injustiça, que, portanto, deve ser destruída. Embora deseje ser progressista, a esquerda busca ser revolucionária e, ainda mais, destruidora.

Direita e esquerda entendem de maneira oposta a ordem e o progresso. A direita sacrifica o progresso em nome de uma ordem estática que tende a ser retrógrada; a esquerda sacrifica a ordem em nome de um progresso que tende a ser destruidor. É evidente que essas duas perspectivas são inconciliáveis e insustentáveis. A única solução é unir, de maneira íntima, a ordem com o progresso, entendendo-os como dois aspectos de uma realidade única.


Nos termos de Comte, ordem e progresso não são opostos e excludentes

Ora, embora possa parecer banal e trivial, é necessário que ordem e progresso não sejam definidos de maneiras opostas e excludentes, mas complementares. Para que ordem e progresso sejam dois aspectos de uma realidade única, a ordem tem que ser vista como dinâmica, e o progresso tem que considerar a manutenção da sociedade.

Nos termos claros e precisos de Augusto Comte, “o progresso é o desenvolvimento da ordem” e “a ordem é a consolidação do progresso”: apenas dessa forma é possível superar a oposição sociológica, filosófica e política entre a ordem e o progresso.

Unir a ordem ao progresso e, inversamente, o progresso à ordem implica necessariamente que a ordem tem que deixar de ser retrógrada e o progresso tem que deixar de ser destruidor. A direita tem que reconhecer o movimento e a busca de melhorias; a esquerda tem que abandonar o espírito destruidor e a concepção de que a ordem é sempre estática. Ambas têm que deixar de lado as concepções de que o antigo é bom ou ruim e que o novo é ruim ou bom apenas porque o antigo é antigo e o novo é novo.

Direita e esquerda — ou melhor, ordem e progresso — definem-se um em relação ao outro. A oposição mútua entre eles tem vários resultados negativos. O primeiro deles é que, se um nega o outro, nenhum deles é realmente levado a sério e nenhum dos dois se mantém.

Em segundo lugar, a negação mútua da ordem e do progresso faz com que os traços negativos de cada um deles se acentuem: a ordem torna-se cada vez mais retrógrada e o progresso, cada vez mais revolucionário, tornando-se anárquico. Em consequência disso, o embate mútuo torna-se ao mesmo tempo retrógrado e anárquico.

Em terceiro lugar, esse embate descamba para uma oscilação social e política, com períodos de ordem (estática) e de progresso (revolucionário). Essa é a dinâmica ocidental (e, por extensão, mundial) desde a Revolução Francesa.

As narrativas liberais e marxistas reproduzem a oposição entre direita e esquerda, ou seja, entre ordem e progresso, e são incapazes de perceber e reconhecer a oscilação: o século 19 caracterizou-se por isso; o período da II Guerra dos 30 Anos (1914-1945) caracterizou-se pela mesma oscilação; e a Guerra Fria (1947-1991) transformou a oscilação em disputa geopolítica.

A afirmação atual entre, por um lado, os tradicionalismos e sua forma política mais extrema, o neofascismo, e, por outro, os identitarismos, é apenas a versão mais recente e agressiva da oposição entre ordem e progresso.


Superação da oposição entre ordem e progresso

A superação da oposição entre ordem e progresso não é uma política de “centro”; é uma política que é ao mesmo tempo progressista, sem ser revolucionária, e que busca manter as instituições sociais sem ser retrógrada.

Essa política não é de extrema esquerda, o que a torna suspeita para a esquerda; ela não é de extrema direita, o que a torna suspeita para a direita. Ela respeita a história, sem ser tradicionalista; ela afirma o progresso, sem ser destruidora. Essa política não apenas rejeita os graves e profundos erros da direita e da esquerda, como torna esses dois lados (e sua oposição mútua) irrelevantes.

Não é por acaso que essa política é alvo dos fascistas e dos identitários; não é por acaso que tanto os asseclas dos Bolsonaros quanto Djamila Ribeiro critiquem o “Ordem e Progresso”. Eles não o conhecem, não o entendem e rejeitam-no; mas, com certeza, intuem que o “Ordem e Progresso” corresponde à superação de suas perspectivas opostas, ou seja, da necessária desmoralização desses opostos irreconciliáveis e do urgente fim dessa polarização.

Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em Sociologia Política e sociólogo da UFPR.