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03 junho 2026

Ensino positivista crítico

No dia 13 de São Paulo de 172 (2.6.2026) realizamos nossa prédica, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira parte - conduta dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão continuamos a tratar de algumas leis científicas básicas, abordando antes o ensino crítico das ciências (ou seja, o ensino positivista propriamente dito).

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/zzCfNm_7WO8) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1968395457140176).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


Leis científicas básicas – II

(13 de São Paulo de 172/2.6.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Não temos celebrações nesta semana, mas vale a pena lembrarmos a Live AOP ocorrida em 8 de São Paulo (28.5.2026), com Luciano Alves, sobre o Movimento Brasil Laico

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: leis científicas básicas

5.1.   No sermão de hoje damos continuidade ao sermão que iniciamos na semana passada, sobre as leis naturais básicas

5.1.1. Para isso, seguimos o que nosso mestre apresentou na sétima conferência do Catecismo positivista, na parte do dogma dedicada à “ordem exterior, primeiro material, depois vital”: tratam-se, então, das leis das ciências inferiores: Matemática, Astronomia, Física, Química e Biologia

5.1.2. Por que queremos (re)apresentar essas leis? Porque com certa freqüência falamos do mundo, da realidade cósmica, das ciências inferiores etc. mas não temos clareza a respeito das leis próprias a cada ciência, ao âmbito de cada uma, nem mesmo dos principais nomes de cada uma delas

5.1.3. Na semana passada, vimos ou revimos algumas questões gerais preliminares:

5.1.3.1.          Por que o Positivismo teria começado como uma filosofia das ciências? O Positivismo tornou-se mais famoso devido à filosofia e à apreciação das ciências (por meio do Sistema de filosofia positiva, de 1830-1842), mas ele começou com a fundação da sociologia (em 1822-1824) e as preocupações sociais e seu objetivo era a reforma social

5.1.3.2.          Por que ele não é um cientificismo? O Positivismo rejeita a ciência pela ciência, afirma a necessidade de orientação social da ciência, a subordinação da inteligência aos sentimentos e às preocupações práticas: isso e muito mais distancia de maneira intensa o Positivismo do cientificismo (e do academicismo)

5.1.3.3.          Há espaço ou necessidade de considerações prévias à exposição das leis naturais? As considerações preliminares – como estas mesmas – são necessárias; várias delas foram organizadas na forma das leis da Filosofia Primeira, mas estas não esgotam as considerações prévias

5.1.4. Como já deve ter ficado claro na prédica anterior e como ficará ainda mais claro ao longo desta exposição, a apreciação positivista das ciências é uma apreciação “crítica”

5.1.4.1.          A gíria academicista-metafísica define a “apreciação crítica” como aquela que considera, por um lado, os fatores sociais, as motivações íntimas e sociopolíticas, os contextos e, por outro lado, a orientação subjetivista humana, a utilidade social etc.

5.1.4.2.          Evidentemente, a “orientação crítica” tem um viés destruidor (explícito ou, o mais das vezes, hipocritamente implícito), que o Positivismo rejeita

5.1.4.3.          A “orientação crítica” é crítica contra o Positivismo: além da má fé sistemática nesse procedimento, há também a criação e a disseminação de mitos e mentiras sobre o Positivismo

5.2.   Convém insistirmos em algumas outras idéias fundamentais:

5.2.1. O conhecimento das leis naturais impõe-se ao ser humano porque o mundo (ou seja, a realidade objetiva) impõe-se ao ser humano

5.2.1.1.          O conhecimento das leis é necessário para sabermos o que podemos e o que não podemos mudar: em um caso, com as leis modificamos o mundo conforme nossas possibilidades e necessidades; no outro caso, aceitamos e suportamos o jugo do mundo

5.2.1.2.          Dizermos que o “mundo (objetivo) impõe-se” é muito diferente de dizer (1) que a realidade não é modificável e (2) que o ser humano não possui vontade ou imaginação (ou seja, subjetividade)

5.2.2. Se o mundo impõe-se ao ser humano, já as interpretações que fazemos do mundo (ou seja, a subjetividade humana em ação) variam de acordo com as possibilidades e a acumulação histórica – de acordo com a lei intelectual dos três estados

5.2.2.1.          Dessa forma, embora tenhamos que lidar com o mundo, a maneira como lidamos muda com o tempo

5.2.2.2.          As primeiras interpretações lidam com o mundo considerando-o um ser humano diferente: é o fetichismo; depois, considera-se que o mundo é sem vida, movido por entidades variadas com vontades caprichosas: buscamos determinar e influenciar essas vontades (via súplicas e/ou ameaças), na teologia; finalmente, reconhecemos que o mundo tem atividade própria, um ordenamento que ocorre independentemente da vontade humana e que, conhecendo esse ordenamento, podemos modificar muito (embora não infinitamente) o mundo: é a positividade

5.2.3. O conhecimento das leis é necessário por questões intelectuais (conhecer o mundo e torná-lo inteligível) e por questões práticas (mudar o mundo conforme nossas possibilidades e necessidades)

5.2.3.1.          Embora o ser humano possa conhecer muitas leis, de verdade não são todas elas que precisam ser conhecidas: a positividade, por meio da utilidade, evita esse impulso ao mesmo tempo cientificista e academicista

5.2.3.2.          O cientificismo e o academicismo afirmam que precisamos conhecer todas de todas as leis, mesmo avançando orgulhosamente para a investigação absolutista das “causas”: sem medir palavras, temos que dizer que isso é uma estupidez sem tamanho

5.2.4. Restringir o conhecimento das leis naturais às nossas necessidades tem conseqüências práticas (não precisamos nem devemos buscar todas as leis), mas, principalmente, também tem conseqüências pedagógicas

5.2.4.1.          Ao contrário do que nos atribui com os habituais preconceitos e má vontade a pedagogia metafísica (“crítica”), no que se refere às leis naturais o ensino positivista afirma, por um lado, os parâmetros de positividade (ou seja, a apreciação filosófica e sociológica das ciências) e, por outro lado, leis naturais básicas (novamente, a partir da utilidade moral, intelectual e prática)

5.2.4.2.          Dito de outra forma, o ensino positivista não é uma coleção infindável de dados concretos, acumulados e decorados pelo suposto prazer de decorar e sem outro objetivo além de decorá-los: o ensino positivista é filosófico, tem por parâmetro a subjetividade humana e tem por meta a utilidade moral, intelectual e prática

5.2.5. Vejamos agora as leis naturais, conforme apresentadas no Catecismo positivista

5.3.   Matemática

5.3.1. As leis mais simples, mais gerais e mais grosseiras são as matemáticas; elas referem-se ao número, à extensão e ao movimento, ou seja, à quantidade, ao tamanho e ao movimento – donde: álgebra, geometria e mecânica

5.3.1.1.          A álgebra, a geometria e a mecânica constituem, para nosso mestre, três ciências distintas, mais que três partes de uma única grande ciência

5.3.1.2.          Há uma progressão lógica e histórica da álgebra à mecânica, passando pela geometria, com aumento da complicação

5.3.2. Algumas características filosóficas e científicas dessas ciências:

5.3.2.1.          Tudo o que não apresenta essas características (quantidade, extensão e movimento) existe apenas em nossa mente (ou em nosso coração)

5.3.2.2.          Os números aplicam-se aos seres (concretos, objetivos) e aos fenômenos (abstratos, subjetivos); por isso, eles são o único fenômeno plenamente universal

5.3.2.3.          A álgebra permite o desenvolvimento da dedução

5.3.2.4.          A extensão e o movimento referem-se diretamente aos seres reais: é com elas que a matemática funda a teoria da existência universal

5.3.2.5.          Com a mecânica há uma transição da matemática à física; em particular, há a afirmação clara e o desenvolvimento da indução, isto é, das pesquisas empíricas

5.4.   Mecânica (ainda no domínio matemático):

5.4.1. A mecânica apresenta três leis gerais do movimento, que permitem o tratamento matemático (dedutivo) geral da realidade:

5.4.1.1.          Primeira lei do movimento: descoberta por Kepler, estabelece que todo movimento tende a ser retilíneo e uniforme; os movimentos curvilíneos originam-se de impulsos sucessivos

5.4.1.2.          Segunda lei do movimento: descoberta por Galileu, estabelece que os movimentos particulares de alguns corpos são independentes dos movimentos que todos os corpos de um conjunto sofrem ao mesmo tempo; essa lei regula a composição dos movimentos

5.4.1.3.          Terceira lei do movimento: descoberta por Newton, estabelece a equivalência entre ação e reação em choques mecânicos, desde que se tome na devida conta as velocidades e as massas; essa lei regula a transmissão dos movimentos

5.4.2. Essas três leis permitem entender tanto o mundo material como também o mundo humano: a lei de Kepler é a base da lei da permanência; a lei de Galileu é a base da independência das ações individuais em meio aos esforços comuns (donde a conciliação da ordem com o progresso); a lei de Newton pode ser aplicada de maneira universal e direta

5.5.   Física:

5.5.1. O nome geral da “física” divide-se em três grandes ciências (astronomia, física propriamente e química)

5.5.1.1.          No âmbito geral da física, passa-se de um nível para o outro de maneira espontânea e natural; são as aplicações práticas que distinguem de maneira mais específica cada uma delas

5.5.2. A astronomia estuda as relações da Terra com os astros que podem modificar sua situação (em particular, o Sol, a Lua e os cinco planetas tradicionais (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno)); assim, são estudos geométricos e mecânicos

5.5.2.1.          Na positividade, a Terra ocupa subjetivamente o centro, enquanto na teologia ela ocupava objetivamente o centro

5.5.2.2.          O duplo movimento terrestre é essencial aqui: a rotação diária (ao redor do próprio eixo) e a translação anual (ao redor do Sol)

5.5.2.2.1.              A gravitação universal é o complemento teórico dessa teoria astronômica

5.5.2.3.          O duplo movimento terrestre foi a teoria que pôs por terra os dogmas teológicos, ao afirmar sem dúvidas o relativismo do conhecimento humano, contra o absolutismo teológico

5.5.3. A física propriamente dita surgiu com Galileu como transição entre a astronomia e a química

5.5.3.1.          Basicamente, a física e a química andam juntas ou próximas

5.5.3.2.          A física examina as propriedades propriamente físicas de todos os corpos (considerados como relativamente iguais entre si) e, em particular, as propriedades dos corpos que são inspiradas pelos sentidos (pressão, calor, eletrição, som etc.); já a química examina as leis de composição e decomposição dos corpos e as relações que essas composições mantêm entre si, considerando todos os corpos como diferentes entre si

5.5.3.3.          A física permitiu o desenvolvimento decisivo da indução, pela observação sistemática e pela experimentação; já a química permitiu o conhecimento efetivo da composição do mundo (incluindo o ar e a água) e também dos seres vivos; com isso, a química realizou a transição do conhecimento (e do entendimento) do mundo físico para o mundo vivo e, daí, para o ser humano

5.6.   Biologia:

5.6.1. As considerações de Augusto Comte sobre a biologia, no Catecismo positivista, são maiores que as sobre as outras ciências

5.6.1.1.          Isso se deve à importância do tema (como veremos, entre outros aspectos, a biologia estabelece a ligação entre o ser humano e o mundo físico, ou seja, entre o homem e o mundo), mas também se deve a que nosso mestre tinha um amplo conhecimento da biologia de sua época

5.6.2. Há vários aspectos da biologia que são importantes para a compreensão humana da vida e dos vínculos entre o mundo e o ser humano:

5.6.2.1.          O princípio básico para entender a biologia consiste em que as funções mais nobres subordinam-se às mais grosseiras; assim, a humanidade e, antes, a animalidade subordinam-se à vegetalidade, ou a vida de relação subordina-se à vida de nutrição: daí os fenômenos da vida ligam-se aos fenômenos físicos

5.6.2.2.          O único fenômeno biológico comum a todas as formas de vida deve-se a Bichat e consiste na composição e recomposição contínua dos organismos vivos; esse processo aproxima os seres vivos dos fenômenos químicos

5.6.2.3.          Os vegetais produzem seus alimentos diretamente da química; já os animais obtêm seus alimentos a partir de seres vivos: daí decorre a aptidão animal para discernir os alimentos e a faculdade de apreendê-los, donde sensibilidade, contratilidade e, no meio, os instintos

5.6.2.4.          A base geral de estudos da biologia refere-se aos vegetais; é a parte que realiza a transição entre os seres inanimados e os seres vivos e é a única parte que poderia ser plenamente desvinculada da sociologia (ou seja, do estudo específico do ser humano)

5.6.2.5.          A continuidade dos seres vivos é estabelecida pela escala subjetiva dos seres vivos, elaborada desde Aristóteles até Blainville, que vai dos mínimos vegetais aos seres humanos

5.6.2.6.          A escala específica dos animais serve principalmente como preparação para o estudo do ser humano; assim, as qualidades sociológicas e morais dos seres humanos são esboçadas nos animais superiores (e nas aves)

5.6.3. Augusto Comte determina sete leis biológicas gerais (três da vegetalidade, três da animalidade e uma sétima que sintetiza as anteriores):

5.6.3.1.          Três leis da vegetalidade:

5.6.3.1.1.              Todo ser vivo está sujeito à contínua renovação material

5.6.3.1.2.              Lei do desenvolvimento e do declínio, culminando na morte (que é um fenômeno à parte)

5.6.3.1.3.              Lei da reprodução, em que a espécie compensa a destruição dos indivíduos; esta lei resume o conjunto da vegetalidade

5.6.3.2.          Três leis da animalidade:

5.6.3.2.1.              Necessidade alternada de exercício e descanso

5.6.3.2.2.              Tendência de toda atividade intermitente virar habitual, ou seja, tendência a todo movimento permanecer após cessados os fatores que o originaram (lei do hábito); daí se segue o impulso à imitação

5.6.3.2.3.              Lei do aperfeiçoamento estático e dinâmico: o uso mantém e fortalece os órgãos, o desuso enfraquece-os; esta lei resume o conjunto da animalidade

5.6.3.3.          Lei final: lei da hereditariedade: as funções e os aperfeiçoamentos são transmitidos para as gerações futuras

5.7.   Para concluir: o objetivo desta prédica e da anterior não foi dar uma “aula de ciências”, mas apenas indicar algumas leis científicas elementares

5.7.1. O objetivo dessa exposição, além de apresentar as leis em si mesmas, foi indicar em que consiste a positividade (incluindo aí, em particular, o subjetivismo e o relativismo)

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica positiva “Cientificismo e epistemologia” (Curitiba, 6.São Paulo.172/26.5.20026): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/05/cientificismo-e-epistemologia.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up

11 julho 2023

Esboço de uma avaliação positiva do Chat GPT

No dia 24 de Carlos Magno de 169 (11.7.2023) fizemos nossa prédica positiva. Inicialmente demos continuidade à leitura comentada do Catecismo positivista, concluindo a "Sétima conferência", dedicada à filosofia das ciências naturais.

Na seqüência, na parte do sermão, expusemos algumas reflexões sobre o programa chamado "Chat GPT" e, de maneira mais ampla, sobre a chamada "inteligência artificial" e algumas de suas conseqüências sociais.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (aqui: https://ur1.app/AxImh) e Apostolado Positivista do Brasil (aqui: https://acesse.one/2nB2y). O sermão iniciou-se em 43' 33".

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Esboço de uma avaliação positiva do Chat GPT
  

-        As presentes anotações são uma breve súmula do artigo que escrevi no primeiro semestre de 2023, a convite do prof. Junqueira de Barros, para o livro Do Chat GPT a outras IA: a inteligência artificial e educações, organizado por Cristiane Porto (Universidade Tiradentes, Sergipe)

-        Em 30 de novembro de 2022 foi lançada a versão 3.0 do Chat GPT

o   Foi um sucesso imediato:

§  Seja porque é um programa divertido e inusitado – ele simula conversas (daí o nome “chat”, isto é, “bate-papo” em inglês)

§  Seja porque sua capacidade é gigantesca, incorporando 175 bilhões de parâmetros

§  Seja também – e é este, talvez, o motivo principal do espanto e do sucesso – porque ele simula com um altíssimo grau de semelhança as conversas humanas – e, em inúmeros casos, ele escreve melhor e com informações mais adequadas que os seres humanos

o   O nome do programa “Chat GPT” significa “chat generative pre-trained transformer”, ou seja, “tranformador generativo pré-treinado de conversa”

o   Assim como sua capacidade de simular conversas espantou, vários problemas e limitações do Chat GPT causaram ansiedade e geraram dúvidas e críticas:

§  Reprodução de estereótipos, preconceitos e discursos de ódio e subversivos

§  Informações incorretas, desatualizadas e/ou incoerentes

o   Assim, já em março de 2023 foi lançada a versão 4.0 do programa, procurando corrigir os defeitos acima

-        Direta ou indiretamente o Chat GPT exige uma reflexão toda própria – e, evidentemente, o Positivismo pode e deve realizar tal reflexão:

o   Considerando o Chat GPT como tecnologia que simula o ser humano

o   Considerando o Chat GPT como tecnologia que “organiza” e dissemina idéias, informações e valores

o   Considerando a tecnologia da informação em geral

o   Considerando a tecnologia da “inteligência artificial” em geral

-        A inteligência artificial consiste em mecanismos que coletam, organizam e calculam os termos, as expressões mais empregados pelos usuários e, a partir disso, sugerem resultados (expressões, palavras etc.)

o   A chamada inteligência artificial já é uma realidade e está em nossos dia-a-dias:

§  Robôs de teleatendimento

§  Mecanismos de busca na internet que se autocompletam ou que sugerem possibilidades

o   Os critérios definidos pelos programadores aumentam e refinam-se continuamente

o   Ao mesmo tempo, à medida que mais pessoas usam esses programas, maior a base de dados

o   Trata-se, então, de procedimentos pré-definidos que se realizam com base em operações estatísticas

o   Mas muitos programas estão obtendo resultados sem que os programadores saibam como esses programas chegaram aos resultados obtidos: são as “caixas pretas”

-        A informática emprega as expressões “lógica matemática” e “inteligência artificial”:

o   O sentido da “inteligência artificial” foi mais ou menos indicado acima

o   A “lógica matemática” consiste em operações matemáticas definidas pelos chamados “operadores lógicos”, a partir por exemplo dos princípios da identidade, da não contradição e do terceiro excluído

§  São os valores e as operações de verdade e falsidade, sim e não, incluído e excluído etc.

o   A inteligência, aí, acaba reduzindo-se à chamada “lógica matemática” e tornando-se sinônima dela: “pensar” ou “raciocinar” passa a equivaler a pensar de acordo com os princípios indicados acima

o   Com freqüência os programadores reconhecem a limitação desses conceitos – mas nem sempre o reconhecem

o   Por outro lado, os matemáticos de modo geral reconhecem ainda menos a limitação dos conceitos acima:

§  Seja porque não consideram o assunto

§  Seja porque entendem que essas definições são corretas

o   Assim, é importante termos em mente que os sentidos positivos de inteligência e de lógica

-        Eis o que Augusto Comte entendia por “inteligência” e por “lógica”:

o   Inteligência: é a capacidade de modificar a conduta conforme a situação:

“Ao caracterizar, de um lado, a inteligência conforme sua aptidão a modificar sua conduta conforme as circunstâncias de cada caso – o que constitui, com efeito, o principal atributo prático da razão propriamente dita –, é ainda evidente que, sob essa relação, não menos que sob a precedente, não há espaço para estabelecer realmente, entre a humanidade e a animalidade, nenhuma outra diferença essencial que a do grau mais ou menos pronunciado que pode comportar o desenvolvimento de uma faculdade, necessariamente comum, por sua natureza, a toda vida animal [...]”[1]

“[...] A faculdade de modificar sua conduta conforme sua situação, principal característica da inteligência”[2]

o   Lógica: conjunto de meios disponíveis capazes de inspirar concepções:

“Para caracterizar a lógica relativa que convém à síntese subjetiva, é preciso comparar a sua definição normal com o esboço que formulei, seis anos antes [atrás], na introdução da minha obra principal [Sistema de política positiva, v. 1, de 1851]. Guiado pelo coração, eu já ali proclamei e mesmo sistematizei a influência teórica do sentimento. Uma apreciação mais completa fez-me também consagrar, no mesmo lugar, o ofício fundamental das imagens nas especulações quaisquer. Sob este duplo aspecto, o referido esboço foi satisfatório pois abraçou o conjunto dos meios lógicos, retificando a redução que deles fazia a metafísica que só empregava os sinais. Toda a imperfeição desse esboço consiste em que o destino de tais meios achou-se excessivamente restrito, por não me haver eu desprendido bastante dos hábitos científicos [isto é, cientificistas e academicistas]. Parece, por essa definição, que a verdadeira lógica limita-se a desvendar-nos as verdades que nos convêm, como se o domínio fictício não existisse para nós, ou não comportasse nenhuma regra. Nós devemos sistematizar tanto a conjectura quanto a demonstração, votando todas as nossas forças intelectuais, bem com as nossas forças quaisquer, ao serviço contínuo da sociabilidade, única fonte da verdadeira unidade.

Reconstruída convenientemente, a definição da lógica, incidentemente formulada na página 448 do tomo primeiro da minha Política positiva, exige duas retificações conexas, não no que se refere aos meios mas sim no que se refere ao fim [ao seu objetivo]. Deve-se substituir nela desvendar as verdades por inspirar as concepções, para caracterizar a natureza essencialmente subjetiva das construções intelectuais, e a extensão total do seu domínio, não menos interior do que exterior. Com esta dupla retificação, a minha fórmula inicial torna-se plenamente suficiente. Então somos finalmente conduzidos a definir a lógica: O concurso normal dos sentimentos, das imagens, e dos sinais, para inspirar-nos as concepções que convêm às nossas necessidades morais, intelectuais e físicas [...]”[3].

-        Citação de Teixeira Mendes sobre a necessária utilidade social e humana da ciência e da tecnologia (Teixeira Mendes, 1899, p. 5-7)[4]:

“Seja qual for o problema que solicite a nossa atenção, podemos dispor em duas categorias o conjunto dos dados imprescindíveis à sua completa solução: de um lado, a série de considerações fornecidas pelo mundo; de outro lado, a soma de exigências resultantes dos interesses humanos. É isto que se exprime em linguagem filosófica, dizendo que todo problema tem condições objetivas, – referentes ao mundo, – e condições subjetivas – referentes ao homem. Por exemplo, quando se projeta uma estrada de ferro, não basta examinar as condições do terreno, os lucros pecuniários etc.; cumpre saber sobretudo se a sua realização não importa a ruína da população a cujo cargo estava antes o transporte das mercadorias. E, ao formular a solução, é imprescindível indicar os meios de prevenir semelhante cataclismo, sob pena de ser uma solução incompleta, cientificamente, e iníqua sob o ponto de vista social e moral.

[...]

É para o homem que o homem trabalha; e para o homem devem convergir todos os esforços humanos; fora deste círculo, tudo é imoralidade e anarquia, seja qual for o pretexto e o título com que o decorem.

Ora, o predomínio do ponto da vista humano significa a satisfação dos interesses coletivos, o bem estar de todos, e não as conveniências de um indivíduo, de uma cidade ou de uma nação. Toda a concepção da ordem social que não se mostrar compatível com a felicidade de todos os homens, seja qual for a sua condição e o seu grau de civilização, é um sistema imperfeito, incapaz de satisfazer às inteligências e aos corações bem formados”.

-        Possibilidades positivas do GPT:

o   Substituição ou complemento docente, especialmente em locais de difícil acesso ou com recursos escassos: “mentores virtuais”

o   Auxílio em buscas elementares

o   Elaboração e/ou sugestões de documentos que não exigem ineditismo e/ou autoria identificada: cartas comerciais, roteiros de aulas/exposições, roteiros de RPG, referências bibliográficas elementares

o   Elaboração de obras artísticas complementares (por exemplo: sugestão de conclusão da sinfonia inacabada de Schubert)

-        Correntemente há uma corrida para o desenvolvimento de tecnologias de IA cada vez mais sofisticadas

o   No início de 2023 várias personalidades do âmbito da informática propuseram u’a moratória de seis meses nesse desenvolvimento

§  Seis meses parecem pouco, mas no âmbito da informática isso é um período enorme

§  O mais importante nessa proposta foi o aspecto simbólico e a afirmação de que é necessário pôr o pé no freio e refletir com cuidado a respeito do que se faz

o   A Itália proibiu o uso do Chat GPT enquanto essa tecnologia não se submeter aos parâmetros nacionais e europeus de uso de dados

o   Mesmo os criadores do Chat GPT concordam com isso

-        Problemas do Chat GPT:

o   Possibilidade de enganar as pessoas e/ou de elaborar programas criminosos

o   Estímulo ao desemprego:

§  Perspectiva de extinção em massa de empregos industriais e de serviços repetitivos, que exigem pouca especialização e pouca criatividade

§  Suposta criação compensatória de novos empregos, em outros setores

§  Alienação moral, intelectual e social de muitos dos desenvolvedores de novas tecnologias de informática:

·         Celebração do caráter diruptivo da informática

·         Celebração do desemprego em massa

·         Celebração da substituição concreta dos seres humanos pelos robôs (ou seja, por bonecos animados)

o   Aumento da solidão

§  Ausência de contato humano

§  “Epidemia de solidão” nos EUA

o   Incapacidade de os robôs de teleatendimento resolverem os problemas dos clientes

o   Elaboração das respostas a partir de critérios estatísticos

o   Ausência de indicação das bases pesquisadas (falta de “referências bibliográficas”)

o   Apresentação de respostas com preconceitos, discursos de ódio etc.

o   Estímulo do plágio

§  O problema do ineditismo é secundário, em face dos outros aspectos

§  Mau caratismo intelectual

§  Estímulo à preguiça mental

o   Ausência de indicação de autoria:

§  Não há “autor”, mas o leitor comum considerará que existe, sim, um autor

§  As respostas são elaboradas com base estatística; assim, elas não correspondem a um pensamento, mas a um resumo do que está disponível

§  Constitui-se, assim, uma espécie de anonimato artificial, que dá a impressão de que é um autor de carne e osso: as respostas são “irresponsáveis”, isto é, irresponsabilizáveis

o   Degradação da função sacerdotal

-        Comentários finais:

o   O Chat GPT indica a capacidade humana de criar coisas e desenvolver seus talentos e habilidades

o   O Chat GPT só é possível graças ao respeito às leis naturais: “só dominamos a natureza submentendo-nos a ela” (Francis Bacon)

o   Como auxiliar em muitas funções, o Chat GPT pode ser útil; jamais como substituto do ser humano em geral

o   De modo geral, no que se refere ao conteúdo das informações divulgadas, ele apresenta dois problemas:

§  Informações com vieses negativos

§  Textos sem autoria e, portanto, irresponsáveis

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§  Isso tem conseqüências sobre as liberdades de pensamento, de expressão e de organização       



[1] Augusto Comte, Sistema de filosofia positiva, 4ª ed., Paris, Sociedade Positivista, 1893; lição 45, p. 623.

[2] Augusto Comte, Síntese subjetiva, Paris, 1856; p. 9.

[3] Augusto Comte, 1856, p. 26, apud Luís Bueno Horta Barbosa, Introdução geral ao estudo da lógica, ou matemática, Rio de Janeiro, Jornal do Comércio, 1933; p. 3-4.

[4] Raimundo Teixeira Mendes, Calendário positivista – precedido de indicações sumárias sobre a teoria positiva do calendário. Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1899.