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27 maio 2026

Cientificismo e epistemologia

No dia 6 de São Paulo de 172 (26.5.20026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira Parte - postura dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão abordamos algumas questões gerais prévias à exposição de leis naturais, em particular: 

(1) o Positivismo teria começado como uma filosofia das ciências? 

(2) Por que ele não é um cientificismo? 

(3) Há espaço ou necessidade de considerações prévias à exposição das leis naturais?

Também lemos a postagem "Comentário pessoal/confissão: três cuidados que tomo" (https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/05/reflexao-pessoalconfissao-tres-cuidados.html)

Da mesma forma, divulgamos a publicação no Internet Archive das músicas positivistas compostas por Luiz Gustavo Mota:

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*    *    *


Leis científicas básicas – I

(6 de São Paulo de 172/26.5.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 8 de São Paulo de 172 (28.5): Live AOP com Luciano Alves: o Movimento Brasil Laico

2.1.1. Como de hábito, a transmissão será exclusiva no canal Positivismo do Youtube (Youtube.com/ThePositivism), a partir das 19h

2.2.   Mês de São Paulo: de 21 de maio a 17 de junho teremos o mês de São Paulo, sexto mês do ano, dedicado ao catolicismo

3.     Comentário pessoal/confissão: três cuidados que tomo

3.1.   Postagem feita em 21.5.2026 (https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/05/reflexao-pessoalconfissao-tres-cuidados.html)

3.2.   Em minhas prédicas e, de modo geral, em minha atuação como positivista, procuro desde sempre tomar três cuidados, na forma de comportamentos que evito:

3.2.1. evito falar sobre o que desconheço e não finjo saber o que ignoro

3.2.2. evito apresentar-me como a única pessoa capaz de falar sobre o Positivismo ou (na medida em que não sou o Sumo Pontífice da Religião da Humanidade) em nome de todos os positivistas

3.2.3. evito personalizar as minhas manifestações e de apresentá-las como se fossem exercícios de vaidade pessoal

3.3.   Assim, ao evitar a arrogância, o orgulho e a vaidade, creio que posso dizer que exercito a humildade

3.4.   Um sacerdote da Humanidade (e mesmo um apóstolo da Humanidade) não pode ter medo de expor-se e de afirmar-se perante os demais; mas isso é muito diferente de ser sistematicamente ignorante, pretensioso e muito vaidoso. Esses defeitos são inaceitáveis em qualquer pessoa que pretenda ser apóstolo ou sacerdote da Humanidade

3.5.   Em oposição a esses comportamentos reprováveis, procuro desde sempre adotar as seguintes práticas:

3.5.1. conhecer sobre o que falo, assumir que desconheço muita coisa e buscar conhecer (ou informar-me sobre) o que é importante para os outros

3.5.2. respeitar as perspectivas alheias e, em particular, as várias iniciativas pessoais e coletivas dos positivistas

3.5.3. reconhecer os esforços realizados pelos outros (especialmente pelos que vieram antes de mim) e manifestar-me sempre me referindo aos esforços coletivos.

3.6.   As indicações acima simplificam bastante as possibilidades; mas como queremos que estas reflexões sejam curtas, neste caso aceitamos tal simplificação

4.     Publicação das músicas compostas por Luiz Gustavo Mota

4.1.   Em uma bela e importante iniciativa que retoma uma antiga mas – até agora – abandonada tradição, nosso correligionário Luiz Gustavo Mota compôs músicas positivistas. Luiz Gustavo redigiu as letras e solicitou à inteligência artificial que compusesse a melodia e que interpretasse as canções. Os resultados estão abaixo.

4.2.   São duas músicas, disponíveis abaixo, a partir da coleção “Positivism” do Internet Archive (https://archive.org/details/positivism-collection):

4.2.1. “Canção ao Positivismo Religioso”: https://archive.org/details/luiz-gustavo-mota-cancao-ao-positivismo-religioso

4.2.2. “Hino a Clotilde, anjo da Humanidade”: https://archive.org/details/luiz-gustavo-mota-hino-a-clotilde-anjo-da-humanidade

4.3.   A letra do Hino a Clotilde está disponível aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/05/musicas-positivistas.html

5.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

6.     Exortações

6.1.   Sejamos altruístas!

6.2.   Façamos orações!

6.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

6.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

7.     Sermão: leis científicas básicas

7.1.   O tema de hoje é um daqueles que podemos chamar de “polêmicos”, especialmente no âmbito do Positivismo: afinal, ele refere-se diretamente a um dos preconceitos mais disseminados sobre o Positivismo (e, talvez, o primeiro deles, o cientificismo)

7.1.1. O que nos interessa no sermão de hoje (e no da semana que vem) é apresentar algumas leis naturais básicas, seguindo para isso o que nosso mestre apresentou na sétima conferência do Catecismo positivista, na parte do dogma dedicada à “ordem exterior, primeiro material, depois vital”

7.1.2. Por que queremos (re)apresentar essas leis? Porque com certa freqüência falamos do mundo, da realidade cósmica, das ciências inferiores etc. mas não temos clareza a respeito das leis próprias a cada ciência, ao âmbito de cada uma, nem mesmo dos principais nomes de cada uma delas

7.1.3. Mas, antes de apresentarmos essas leis, algumas considerações elementares são necessárias, ou pelo menos convenientes; por ora, considero pelo menos as seguintes: (1) o Positivismo teria começado como uma filosofia das ciências? (2) Por que ele não é um cientificismo? (3) Há espaço ou necessidade de considerações prévias à exposição das leis naturais?

7.2.   Comecemos entendendo por que o Positivismo teria começado com um estudo das ciências inferiores

7.2.1. Em primeiro lugar, isso se relaciona à vida de nosso mestre e às etapas que ele, pessoalmente, tinha que percorrer para constituir sua obra e, de qualquer maneira, para amadurecer

7.2.1.1.          O exame histórico-filosófico das ciências desenvolveu-se ao longo dos vários volumes do Sistema de filosofia positiva, em particular dos volumes 1 a 3, dedicados à matemática, à astronomia, à física, à química e à biologia, escritos entre 1830 e 1838 (os volumes 4 a 6 foram dedicados à sociologia e escritos entre 1839 e 1842)

7.2.2. Em particular, duas necessidades urgentes e convergentes apresentavam-se a ele:

7.2.2.1.          Por um lado, ele percebia as urgentes necessidades sociais da sua época, em particular no sentido de reorganizar a sociedade em bases humanas, pacíficas, relativas e demonstráveis, ultrapassando a teologia e a guerra

7.2.2.2.          Por outro lado, ele percebia o alto poder explicativo e o grande poder prático das ciências, limitadas até então às ciências inferiores mas dirigindo-se com celeridade para a constituição das ciências superiores

7.2.3. O exame das ciências inferiores foi necessário não como u’a medida em si mesma, para cultivo das ciências por si sós, mas como instrumento e como passo prévio para inúmeros objetivos de longo prazo (e de longo prazo tanto para nosso mestre como para a sociedade):

7.2.3.1.          Definir e entender o que o ser humano conhece da realidade

7.2.3.2.          Entender em que consiste a cientificidade e como ela manifesta-se progressivamente em cada uma das ciências

7.2.3.2.1.              Isso, aliás, tem a importantíssima conseqüência, que os comentadores e os críticos do Positivismo fazem questão de ignorar, que cada ciência tem procedimentos próprios e que suas características necessariamente mudam com a variação de abstração, generalidade, empirismo

7.2.3.3.          Definir a positividade – inicialmente restrita e confundida com a mera cientificidade –, seja em termos de relativismo (oposto ao absolutismo), seja em oposição à teologia e à metafísica

7.2.3.4.          Delimitar e distinguir o que é real e o que é útil no conhecimento científico, bem como investigar o que havia, há e pode haver de absoluto/metafísico na prática científica (em particular, na forma do que chamamos hoje de cientificismo e de academicismo e que já eram duramente criticados por nosso mestre, desde o início de sua carreira)

7.2.3.5.          Tudo isso como elementos para definir o que seria a cientificidade da ciência social, seus aspectos e seus limites teóricos, suas metodologias específicas, suas possibilidades de atuação prática

7.2.3.5.1.              É importante notar que isso consiste no que se chama atualmente, conforme o academicismo, de “perspectiva crítica” da e sobre a ciência

7.2.3.6.          Determinar as mudanças sociais ocorridas devido ao desenvolvimento da ciência e, antes, as mudanças que resultaram na constituição da ciência

7.2.3.7.          Elaborar a sociologia como um instrumento superior (às ciências inferiores, ou ciências “naturais”) para o entendimento da realidade pelo ser humano

7.2.3.8.          Elaborar a sociologia como um instrumento para lidar (e resolver) os problemas sociais

7.2.4. É importante indicar que todas essas reflexões prévias sobre as ciências inferiores são, ao mesmo tempo, filosóficas e sociológicas, por um lado, e estáticas e dinâmicas, por outro lado; em outras palavras, ao mesmo tempo em que refletia sobre a cientificidade em geral e a cientificidade de cada uma das ciências em particular, nosso mestre levava em consideração a história de cada uma das ciências e como ela contribuiu (e contribui) para o desenvolvimento humano em geral

7.2.4.1.          O exame histórico-filosófico presente no Sistema de filosofia positiva é um exame sociológico: não se trata de fazer como fazem os historiadores profissionais de modo geral (e os metafísicos em particular), que reduzem a história à mera sucessão de eventos (com alguma interligação entre eles): a historicidade para o Positivismo é sociológica, em que uma determinada conjuntura social prepara as seguintes, assim como é preparada pelas anteriores; essa maneira de encarar a realidade social foi chamada por nosso mestre de “filiação histórica”

7.2.5. O exame das ciências inferiores serviu então, ao mesmo tempo, como (1) preparação para a ciência social, (2) aplicação prática da nascente ciência social e (3) aplicação do método subjetivo (que só seria desenvolvido mais tarde, a partir do v. 1 do Sistema de política positiva, de 1851)

7.2.5.1.          Deveria ser mais notado que o exame sociológico-filosófico das ciências (no Sistema de filosofia positiva, de 1830 a 1842) ocorreu depois da publicação dos Opúsculos de filosofia social (escritos entre 1819 e 1828), em particular após as duas edições do Plano dos trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade (1822 e 1824): em outras palavras, a filosofia das ciências desenvolveu-se depois (e bem depois) da fundação da sociologia

7.2.6. Sem esgotar as possibilidades de entendimento do Sistema de filosofia positiva, devemos ter clareza então de que ele não é e jamais se buscou ser um “resumo” da ciência da época de Augusto Comte: é simplesmente por isso que ele não é “datado”

7.3.   Vejamos agora, mais uma vez, por que o Positivismo não é um cientificismo

7.3.1. O cientificismo pode ser entendido como uma série de posturas e de comportamentos que mitificam a ciência, e/ou que a entendem de maneira absoluta

7.3.1.1.          A absolutização da ciência ocorre (1) quando a ciência investiga questões absolutas, ou seja, quando persegue objetivos metafísicos (ou melhor, objetivos teológicos), disfarçados de científicos, (2) quando a ciência recusa-se a submeter-se a apreciações morais e sociais e/ou (3) quando a ciência assume a postura de ser um fim em si mesma

7.3.1.1.1.              É importante notar que a idéia da “ciência pura” (em oposição à “ciência aplicada”) é tipicamente uma concepção que justifica a ciência pela ciência

7.3.1.2.          Quando se afirma que somente os procedimentos analíticos, materialistas, intelectualistas correspondem à verdade, está-se diante do cientificismo

7.3.1.3.          Uma outra possibilidade de cientificismo é a afirmação das ciências inferiores sobre as ciências superiores e sobre a realidade humana em geral (trata-se, portanto, de uma combinação de imperialismo filosófico com reducionismo e materialismo e também com prepotência política)

7.3.1.4.          De maneira mais específica, o cientificismo afirma a superioridade moral, intelectual e prática da inteligência sobre os sentimentos e sobre a atividade prática

7.3.1.4.1.              Esse é o mito da “Razão”, que todos aqueles que alimentam venenosos, cômodos e convenientes preconceitos contra o Positivismo atribuem a nós

7.3.1.4.2.              O Positivismo não endeusa a “Razão” nem atribui ao racionalismo (ou à inteligência) a superioridade na organização geral do ser humano (bem ao contrário, a inteligência está abaixo dos sentimentos e da atividade prática, sendo instrumentos deles)

7.3.1.5.          O cientificismo também é altamente intelectualista e analítico e põe-se contra uma série de recursos e possibilidades humanas que o Positivismo desenvolve: as apreciações filosóficas; as elaborações artísticas; a aplicação do método subjetivo; a definição, incorporação e aplicação do neofetichismo, com a elaboração da Trindade Positiva

7.3.2. Associado ao cientificismo com enorme freqüência está o academicismo, que são as posturas e os comportamentos que mitificam os comportamentos próprios à academia

7.3.2.1.          Assim, quando se afirma (ou quando se considera) que somente o que se faz na academia é aceitável, ou correto, ou verdadeiro, isso é tanto academicista quanto cientificista

7.3.2.2.          A combinação da prepotência teórica cientificista com a prepotência prática do academicismo conduz à pedantocracia, que nos dias atuais é chamada, de maneira limitada, de “tecnocracia”

7.3.3. O cientificismo é intelectualista, estritamente racionalista, recusa a superioridade sobre si dos sentimentos e da atividade prática: tudo isso é o oposto do que afirma e pratica o Positivismo; logo, não faz sentido nem é justo atribuir-nos o caráter de cientificista

7.3.3.1.          Essa acusação só faz algum sentido devido a dois motivos: (1) o sucesso da primeira grande obra de nosso mestre, o Sistema de filosofia positiva, que para o conhecimento (acadêmico) vulgar parece apenas um longo resumo e um longo elogio das ciências (em particular das ciências inferiores); (2) o sucesso da propaganda de Émile Littré, que era realmente cientificista (por exemplo, ele negava e desprezava o método subjetivo), e que disseminou uma versão caricata do Positivismo (Stuart Mill também colaborou nesse sentido, difundindo sua própria versão caricata do Positivismo)

7.4.   Devemos agora considerar se há necessidade e/ou espaço para considerações prévias às leis naturais

7.4.1. No início de sua carreira, como parte de seu amadurecimento, nosso mestre foi um tanto ambíguo a respeito: por um lado ele criticava as exposições científicas precedidas por apreciações filosóficas; mas, por outro lado, ele sempre fez considerações histórico-filosóficas sobre as ciências, sobre seu desenvolvimento e seu papel na sociedade; essas considerações, aliás, tornaram-se cada vez maiores, passando de prefácios e capítulos introdutórios (o “Prefácio” ao Curso de astronomia popular, os dois primeiros capítulos do Sistema de filosofia positiva) para volumes inteiros (o Discurso sobre o espírito positivo, o Discurso sobre o conjunto do Positivismo)

7.4.1.1.          Mas o fato é que nosso mestre, aprofundando suas reflexões históricas, filosóficas e morais, com o passar do tempo deu-se conta de que era realmente necessário sistematizar uma preparação filosófica para o estudo das ciências

7.4.1.2.          Tal sistematização, para além dos livros filosóficos, realizou-se na forma da “Filosofia Primeira”, que nosso mestre apenas esboçou

7.4.2. Em que consiste a Filosofia Primeira e por que ela foi apenas “esboçada”?

7.4.2.1.          A Filosofia Primeira corresponde às leis gerais de todos os fenômenos: são os princípios válidos para todas as leis científicas e, bem vistas as coisas, para o entendimento humano em geral

7.4.2.2.          As leis da Filosofia Primeira consistem em princípios descritivos (o que é) e prescritivos (como deve ser), objetivos (relativos às coisas) e subjetivos (relativos ao ser humano), morais e históricos

7.4.2.3.          A título de exemplos, consideremos duas leis, as de n. 1 e n. 7:

7.4.2.3.1.              A primeira é a mais importante e, por isso, é chamada de “lei-mãe”: “Formar a hipótese mais simples e mais simpática que comporta o conjunto dos dados a representar”

7.4.2.3.2.              A sétima é a lei intelectual dos três estados: “Cada entendimento oferece a sucessão dos três estados, fictício, abstrato e positivo, em relação às nossas concepções quaisquer, mas com uma velocidade proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes”

7.4.2.4.          Em termos contemporâneos, pode-se dizer que a Filosofia Primeira apresenta a “epistemologia” do Positivismo, embora essa expressão não seja muito adequada nem muito correta (por ser muito academicista, muito cientificista e porque a “epistemologia” positivista não está toda ela contida na Filosofia Primeira)

7.4.3. A Filosofia Primeira é composta por 15 princípios, ou leis; nosso mestre organizou essas leis, mas não redigiu nenhuma obra explicando-as ou aplicando-as; o primeiro trabalho nesse sentido foi de Pierre Laffitte (Curso de filosofia primeira, de 1889), mas, francamente, o de Teixeira Mendes (As últimas concepções de Augusto Comte, de 1898) é muito superior

7.4.3.1.          A exposição de Teixeira Mendes é superior à de Laffitte não apenas porque a compreensão do nosso apóstolo era realmente superior à do autointitulado “diretor do Positivismo”, como porque Teixeira Mendes integrou o neofetichismo à Filosofia Primeira, em particular no sentido de indicar que o Grão-Meio (o Espaço) é o âmbito abstrato no qual têm lugar as leis da Filosofia Primeira

7.4.4. A Filosofia Primeira é a primeira de três “filosofias”:

7.4.4.1. A Filosofia Primeira contém as leis gerais a todos os fenômenos

7.4.4.2. A Filosofia Segunda apresenta as leis específicas aos graus de abstração (são as leis naturais habituais)

7.4.4.3. Por fim, há a Filosofia Terceira, que consiste na aplicação prática dos princípios abstratos e nas regras práticas – grosso modo, são as “tecnologias”

7.4.4.3.1.          Colocamos entre aspas a palavra “tecnologia”, acima, porque essa expressão é aceitável apenas para as ciências inferiores (da Matemática à Química, mais a Biologia); no que se refere às ciências superiores (a Sociologia e a Moral), a mera noção de tecnologias derivadas das ciências é inadequada, incorreta e imoral

7.4.4.3.2.              A aplicação prática (ou a Filosofia Terceira) correspondente à Sociologia é a política positiva: o Positivismo rejeita a concepção de aplicações técnicas, “tecnológicas”, da Sociologia; a Sociologia é um guia geral para a política, não um conhecimento a ser aplicado com planilhas e pranchetas

7.4.4.3.3.              Já a aplicação prática da Moral são a pedagogia e o aconselhamento – e a respeito de ambos o Positivismo também rejeita a concepção de aplicações “técnicas”

7.5.   Na próxima prédica daremos continuidade à presente exposição, passando a tratar das leis naturais das ciências particulares (ou seja, trataremos da Filosofia Segunda)

8.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up

12 março 2025

O que é a espiritualidade positiva?

No dia 14 de Aristóteles de 171 (11.3.2025) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos Conservadores (concluindo a "Introdução").

Na parte do sermão abordamos a espiritualidade positiva.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


A espiritualidade positiva

(14 de Aristóteles de 171/11.3.2025) 

1.       Abertura

2.       Exortações iniciais

2.1.    Sejamos altruístas!

2.2.    Façamos orações!

2.3.    Como somos uma igreja, ministramos os sacramentos: quem tiver interesse, entre em contato conosco!

2.4.    Precisamos de sua ajuda; há várias maneiras para isso:

2.4.1. Divulgação, arte, edição de vídeos e livros! Entre em contato conosco!

2.4.2. Façam o Pix da Positividade! (Chave pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

3.       Datas e celebrações:

3.1.    Dia 19 de Aristóteles (16.3): nascimento de Moisés Westphalen (1908)

4.       Publicação de tradução

4.1.    A Revista de Teoria da História, da Universidade Federal de Goiás, em seu v. 27, n. 2, de 2024, publicou uma tradução anotada que fizemos de duas cartas de Augusto Comte enviadas a seu discípulo marselhês Jorge Audiffrent em 1856.

4.2.    Essas duas cartas têm o aspecto central de, entre outros temas, indicarem que a verdadeira positividade constitui-se em um quarto estágio do pensamento, superior à mera cientificidade. Assim, essas duas cartas apresentam a maior importância filosófica, sociológica e histórica, motivo pelo qual foram traduzidas.

4.3.    Vale notar que a tradução da íntegra dessas cartas é inédita em português (a íntegra em francês foi publicada em 1980, por Paulo Carneiro; trechos delas foram traduzidos por Teixeira Mendes em 1898).

4.4.    O texto, que foi publicado com o título “Augusto Comte – a positividade filosófica como quarto estágio intelectual”, pode ser lido aqui (https://revistas.ufg.br/teoria/article/view/80260) ou aqui (https://revistas.ufg.br/teoria/article/view/80260/42103).

5.       Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.1.    Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

5.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

5.1.1.1.             O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

5.1.1.2.             Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

5.1.2. A religião estabelece parâmetros morais, intelectuais e práticos para a existência humana e, portanto, orienta a política, estabelece as suas metas, as suas possibilidades e os seus limites

5.1.2.1.             A religião, conforme o Positivismo estabelece, não é sinônima de “teologia”

5.2.    Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

5.3.    O capítulo em que estamos é a “Introdução”, cujo subtítulo é “Advento dos verdadeiros conservadores”

5.4.    Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

6.       Sermão: a espiritualidade positiva

6.1.    Todos ouvimos falar sobre espiritualidade

6.1.1. Em nossa época metafísica, graças à mistura entre crenças orientais (o budismo, em particular) e o catolicismo, mas também com elementos de espiritismo, há uma valorização da espiritualidade, entendida em termos metafísicos

6.1.2. Entretanto, a partir dessa concepção metafísica disseminada, surge naturalmente a pergunta: é possível e é aceitável falar-se em espiritualidade positiva, em espiritualidade no âmbito do Positivismo?

6.1.3. Além disso, convém notar outro aspecto: atualmente se fala em espiritualidade como algo ligado ao bem-estar, especialmente individual

6.1.3.1.             A vinculação da “espiritualidade” ao bem-estar é algo bastante curioso e bastante contemporâneo; isso se aproxima da positividade, mas – aliás, até mesmo porque se aproxima da positividade – afasta-se (muito) de concepções e práticas anteriores

6.1.3.2.             É claro que as práticas de espiritualidade resultam, ou podem resultar, em bem-estar; mas esses resultados são secundários em relação aos objetivos propriamente teológicos ou místicos

6.1.3.3.             Também convém notar que o bem-estar buscado, quando se pratica a “espiritualidade” em busca especificamente do bem-estar, tem um caráter individual, para não dizer individualista, além de hedonista (a busca do prazer pelo prazer)

6.2.    Evidentemente, como a lei dos três estados sugere, há diversas concepções do que seja a espiritualidade; para os nossos propósitos, consideraremos quatro: teológicas, metafísico-místicas, metafísico-materialistas e positivas

6.3.    Concepções teológicas:

6.3.1. As concepções teológicas são as iniciais, em termos históricos e sociológicos

6.3.1.1.             Claro, o caráter inicial dessas concepções sugere apenas respeito devido à antigüidade e à necessidade histórica, mas não implica serem elas corretas ou verdadeiras em seus conteúdos intelectuais

6.3.1.2.             As práticas teológicas e também as místicas correspondem a experiências, testes, tentativas que podem e devem ser positivadas

6.3.1.2.1.                   Alguns exemplos claros de espiritualidades teológicas e místicas que se sugeriu serem positivadas são:

6.3.1.2.1.1.  A Imitação de Cristo, publicada por Tomás de Kempis em 1441, cuja positivação foi sugerida por Augusto Comte e que foi parcialmente realizada por Américo Brasílio Silvado, com sua Imitação maternal (1940), e por Paulo de Tarso Monte Serrat, com sua Profilaxia da neurose (1982)

6.3.1.2.1.2.  As práticas bramanisto-budistas de meditação, que foram positivadas recentemente por Sam Harris, como se vê no livro Despertar: um guia para a espiritualidade sem religião (2015)

6.3.1.2.1.3.  Um outro exemplo, curiosamente também oriundo do budismo, é o livro de Matthieu Ricard, A revolução do altruísmo (2015)

6.3.1.3.             Vale também notar que muitas concepções teológicas, apesar de suas limitações e defeitos, muitas vezes apresentam concepções gerais sobre o ser humano – o que, evidentemente, é um aspecto a ser valorizado e respeitado (e que, por oposição, é desvalorizado pelas concepções metafísicas cientificistas)

6.3.2. De acordo com as concepções teológicas, o ser humano possui uma “alma” que anima o corpo; essa alma, ou “espírito”, tem origem divina

6.3.2.1.             A alma é entendida como um “núcleo duro” da subjetividade humana, da sua “essência”, que não mudaria nunca (nem ao longo da vida, nem em face das diversas situações que o ser humano enfrenta)

6.3.2.1.1.                   A imutabilidade da alma é uma decorrência do caráter absoluto dessas concepções

6.3.2.2.             A alma é a parte que supostamente vale; o corpo é material e, portanto, secundário e, para algumas concepções, desprezível

6.3.2.3.             Como para essa concepção o corpo e a alma são distintos, contemporaneamente há quem afirme no âmbito teológico (mas também místico) que existe o bem-estar (ou saúde) físico, o bem-estar psicológico e o bem-estar espiritual

6.3.2.4.             Espelhando um pouco a dicotomia corpo-espírito, no âmbito do catolicismo – e, a partir daí, do cristianismo – o ser humano é naturalmente egoísta; o altruísmo provém da intervenção divina

6.3.3. A espiritualidade teológica consiste no exercício da alma para que ela encontre, reencontre e/ou mantenha contato com a divindade

6.3.3.1.             Essa busca dá-se por meio da concentração isolada e individual, com orações e exercícios de “meditação”, que correspondem à repetição de palavras (ou sons), a técnicas de respiração, à alienação mais ou menos controlada do mundo

6.3.3.1.1.                   A busca do contato com a divindade é o que explica e justifica os longos exercícios de isolamento monástico; como as divindades são ficções, esse contato é impossível e ocorre apenas por meio de sonhos, transes místicos e experiências metafóricas e simbólicas

6.3.3.2.             Como o corpo e a alma são distintos entre si e são valorizados diferentemente, a espiritualidade teológica basicamente despreza o corpo

6.3.3.3.             Entretanto, essas concepções filosóficas podem assumir diferentes formas de prática, ou seja, de ascese, e podem variar desde a autoflagelação próxima à automutilação até a dedicação social com ou sem desprezo pelo corpo, passando por práticas que ignoram o corpo

6.3.4. Como a alma é individual e o relacionamento com a divindade também é individual, o objetivo da espiritualidade teológica é individualista, embora por vezes a ascese possa ser coletiva

6.4.    Concepções metafísicas místicas:

6.4.1. As concepções metafísicas místicas, como é natural para as concepções metafísicas de modo geral, guardam estreitas relações com as concepções teológicas

6.4.2. Assim como indicamos a respeito da teologia, vale notar que muitas concepções metafísicas místicas, apesar de suas limitações e defeitos, muitas vezes apresentam concepções gerais sobre o ser humano – o que, evidentemente, é um aspecto a ser valorizado e respeitado

6.4.2.1.             Essas concepções gerais, por oposição, são desvalorizadas pelas concepções metafísicas cientificistas

6.4.2.2.             Muitas concepções místicas de origem oriental, ao difundirem-se no Ocidente, propagaram nas últimas décadas a expressão “holismo”, com isso querendo referir-se à integração com a “totalidade cósmica” (no sentido panteísta), embora às vezes essa expressão seja usada com um sentido mais secularizado

6.4.3. As concepções místicas mantêm a noção de “alma”, mas não a de divindade, que é substituída pela “natureza”, pelo “universo” ou por outras concepções semelhantes, como o “nirvana”

6.4.3.1.             Bem vistas as coisas, a “natureza”, o “universo” e mesmo algumas concepções de nirvana correspondem a diferentes formas de panteísmo (“deus é e está em tudo”)

6.4.4. Enquanto na teologia a espiritualidade busca o diálogo com a divindade, no misticismo a espiritualidade consiste em buscar uma harmonia interior que é orientada para essas concepções vagas

6.4.4.1.             Na prática, o que se deseja com essas práticas é uma anulação do egoísmo e da sensação de individualidade

6.4.4.2.             Muitas das concepções místicas são confusas nesse sentido, pois desejam anular o egoísmo a partir de objetivos e de meios egoístas

6.4.5. A proximidade com a teologia torna possível repetir a respeito do misticismo várias observações feitas sobre a teologia:

6.4.5.1.             A alma é a parte que supostamente vale; o corpo é material e, portanto, secundário e, para algumas concepções, desprezível

6.4.5.2.             Como para essa concepção o corpo e a alma são distintos, há quem afirme, no âmbito místico, que existe o bem-estar espiritual, o bem-estar físico e o bem-estar psicológico

6.4.5.3.             Essa busca dá-se por meio da concentração isolada e individual, com orações e exercícios de “meditação”, que correspondem à repetição de palavras (ou sons), a técnicas de respiração, à alienação mais ou menos controlada do mundo

6.4.5.4.             Como o corpo e a alma são distintos entre si e são valorizados diferentemente, a espiritualidade mística assume diferentes formas de ascese, isto é, pode variar desde a autoflagelação próxima à automutilação até a dedicação social com ou sem desprezo pelo corpo, passando por práticas que ignoram o corpo

6.5.    Concepções metafísicas materialistas:

6.5.1. Pode parecer estranho falar-se em “espiritualidade materialista”, mas isso é necessário, tanto por questões teóricas quanto práticas

6.5.1.1.             No âmbito do materialismo, a espiritualidade pode ser encarada (1) de uma perspectiva cientificista atéia ou (2) de uma perspectiva socialista

6.5.2. Para o materialismo, não existe a “alma” ou o “espírito” distinto do corpo; é por esse motivo que, em um primeiro momento, para o materialismo não existe espiritualidade

6.5.3. Evidentemente, a concepção materialista associa-se à ciência e corresponde seja à prevalência da mentalidade própria às ciências inferiores (reducionismo), seja à manutenção da concepção de mundo vigente durante a constituição das ciências inferiores e do método objetivo (cientificismo)

6.5.3.1.             Assim, a concepção materialista vincula-se de modo geral à constituição da ciência, mas antes ou contra a elaboração/renovação positiva

6.5.3.2.             Um traço importante do materialismo e do cientificismo é, de modo geral, é a sua recusa em aceitar concepções gerais da realidade

6.5.4. O materialismo cientificista e ateu rejeita e insiste na negação da noção de alma e, daí, na negação da noção de espiritualidade; além disso, como, em linha com a teologia, o ateísmo afirma uma perspectiva profundamente individualista, o objetivo da espiritualidade materialista, ou, talvez, o objetivo da vida nessa perspectiva é cada indivíduo viver bem, talvez em harmonia com outros indivíduos; mas esse objetivo é individualista e rejeita a concepção sociológica

6.5.4.1.             A perspectiva cientificista muitas vezes – na verdade, bem vistas as coisas, na maior parte dos casos – adota a teoria e a prática da “mente partida”, a partir da teoria metafísica que opõe “razão e fé”: profissionalmente são profundamente cientificistas (e materialistas) (é a “razão”), mas fora do local de trabalho vão a missas, cultos etc. de caráter teológico e/ou metafísico (é a “fé”)

6.5.5. O materialismo socialista mantém a rejeição cientificista-atéia à noção de “espiritualidade” (devido à sua origem teológica), mas, em contraposição, afirma que o ser humano realiza-se na vida em comum, na dedicação aos outros

6.5.5.1.             Dessa forma, embora o materialismo socialista permaneça intelectualmente na negatividade, em termos práticos e até afetivos ele avança rumo à positividade, ultrapassando o individualismo, o solipsismo e até o imobilismo próprios ao ateísmo

6.6.    Duas observações adicionais sobre a espiritualidade metafísica:

6.6.1. Por um lado, há toda uma literatura puramente metafísica, isto é, destruidora e “ontológica”, que muitas vezes não se assume como espiritualidade, embora exerça esse papel: pensamos em particular no existencialismo de Sartre e de sua esposa, a feminista Simone de Beauvoir, além do niilismo de Nietzsche e do criptonazismo de Heidegger

6.6.2. Por outro lado, o academicismo consagra o espírito metafísico no que este tem de pior, isto é, em seu aspecto sistematicamente destruidor e de vistas parciais; na verdade, é motivo de orgulho acadêmico ser sempre parcial e provisório e rejeitar esforços mais amplos e duradouros

6.7.    Concepção positiva:

6.7.1. A concepção positiva de espiritualidade, evidentemente, é a positivista, é a da Religião da Humanidade

6.7.1.1.             A noção positiva de espiritualidade em grande parte confunde-se com a noção positiva de religião; desse modo, corremos um pouco o risco de repetirmos o que sempre falamos sobre a religião positiva

6.7.2. O objetivo da espiritualidade positiva é a harmonia, que deve realizar-se, na medida das possibilidades e em todos os âmbitos da existência humana

6.7.3. Comecemos então observando que a concepção positiva de espiritualidade tem uma perspectiva geral da realidade (a visão de conjunto) – que, aliás, está na base da nossa concepção de “religião” –: concepção e regulação geral e coordenada da existência humana, em termos (1) afetivos, intelectuais e práticos; (2) objetivos e subjetivos; (3) coletivos e individuais; (4) estáticos e dinâmicos; (5) de passado, futuro e presente

6.7.3.1.             Além disso, não podemos deixar de mencionar em particular o relativismo, que é o que permite apreciarmos e valorizarmos, sem incoerência, as espiritualidades anteriores, entendendo-as em particular como formas necessárias, mas transitórias e já exaustas

6.7.3.2.             A espiritualidade positiva orienta a vida individual, mas não a separa da existência coletiva; mais do que isso: sem negar um espaço legítimo e necessário para a privacidade e para a vida doméstica, não há uma separação radical entre o público e o privado, de tal maneira que o privado prepara-nos para a vida pública e a vida pública consolida e desenvolve o privado

6.7.3.3.             Além disso, em termos individuais, a positividade vincula a lei do dever com a regra da felicidade, no “viver para outrem”

6.7.4. A noção teológico-metafísica de alma é substituída por uma concepção positiva de alma; não se trata mais de uma entidade externa ao corpo que magicamente entra no corpo e que lhe dá vida: a alma é o próprio corpo e, em particular, é o cérebro

6.7.4.1.             Assim, em termos positivos não se pode falar em harmonia (ou saúde) mental, “espiritual” e física, mas apenas em saúde moral e física

6.7.4.2.             Se a alma humana está no cérebro, ela corresponde ao conjunto das funções cerebrais: daí a importância lógica e teórica do “Quadro cerebral” de Augusto Comte, passo fundamental para a positivação e para a fundação da ciência da moral

6.7.4.3.             O quadro cerebral de Augusto Comte estabelece 18 funções elementares: dez motores afetivos, cinco funções intelectuais e três qualidades práticas

6.7.4.4.             A vinculação real entre alma e corpo é assumida implicitamente em várias concepções teológicas e/ou místicas no caso dos gêmeos xipófagos

6.7.4.4.1.                   Os gêmeos xipófagos são aqueles que têm um corpo e duas cabeças

6.7.4.4.2.                   De acordo com a teologia, se cada alma corresponde a um único corpo, os xipófagos teriam apenas uma única alma

6.7.4.4.3.                   Mas os teológicos consideram que os xipófagos têm duas almas, cada uma delas correspondente a um cérebro: implicitamente, isso confirma a concepção positiva e nega a concepção teológica

6.7.5. O cérebro certamente é individual, mas isso não estabelece o individualismo: o ser humano – e, portanto, o cérebro humano, ou seja, a alma humana – só se constitui, desenvolve e amadurece a partir das relações com o ambiente, em particular e acima de tudo o ambiente social, ao longo de toda a vida (incluindo aí, é claro, a vida subjetiva)

6.7.6. Um aspecto central que sempre devemos indicar, na medida em que está na base teórica da prática da espiritualidade positiva, é o relacionamento entre altruísmo e egoísmo

6.7.6.1.             Entre os motores afetivos, há sete egoístas e três altruístas, sendo que os egoístas são mais fortes que os altruístas

6.7.6.2.             Enquanto os motores egoístas não conseguem nunca prevalecer senão em arranjos temporários e instáveis, os motores altruístas conseguem conciliar-se entre si e permitem disciplinar o egoísmo

6.7.6.3.             Assim, a maior força inicial do egoísmo é suplantada, com prática e tempo, pela disciplina do altruísmo

6.7.6.4.             A prevalência do altruísmo não implica, nunca, a negação ou a destruição do egoísmo

6.7.6.5.             Na verdade, muitas vezes o altruísmo pode e deve valer-se da força do egoísmo, seja para iniciar sua atividade, seja para mantê-la; isso é uma forma de dizer que se pode e deve-se empregar de maneira altruísta os nossos pendores egoístas

6.7.7. Como falamos muito em ciência, cientificidade e cientificismo e como esses termos são associados ao Positivismo, convém tratarmos deles um pouco

6.7.7.1.             Do que se viu acima, a ciência é apenas uma base teórica e, até certo ponto, metodológica e prática para a espiritualidade positiva: mas a ciência em si mesma não é a espiritualidade positiva, nem poderia ser

6.7.7.2.             Entregue a si mesma, embora seja a base das concepções relativas e reais, a ciência tende a consagrar apenas o método objetivo (com o reducionismo das “ciências naturais”) e a manter as vistas parciais

6.7.7.2.1.                   Como Augusto Comte reconheceu desde o início, a ciência – em particular na forma do cientificismo e do academicismo – tende com facilidade a degradar-se em concepções absolutas e metafísicas

6.7.7.3.             A espiritualidade positiva exige a visão de conjunto e a aplicação sistemática do método subjetivo, nos termos que temos visto até aqui

6.7.7.4.             As limitações da ciência, em particular para a constituição de uma espiritualidade renovada, foram objeto de críticas reiteradas dos teológicos, dos místicos e mesmo de alguns científicos (como Paul Feyerabend)

6.7.7.4.1.                   É extremamente comum, a ponto de ser chocante e escandaloso, muitos acadêmicos dizerem que a ciência em si não pretende constituir uma nova espiritualidade mas, ao mesmo tempo, combaterem qualquer constituição de uma nova espiritualidade (em particular, ao combaterem ativamente o Positivismo) e manterem as antigas espiritualidades: para ficar apenas no âmbito das ciências sociais, esse foi e é o procedimento de Marx, Weber, Durkheim, Bourdieu, Foucault, Boas, Mauss, Merton, Morin etc. etc. etc.

6.7.8. Resumindo e um pouco repetindo o que se disse acima: a espiritualidade positiva, a partir das noções de visão de conjunto, de vínculo entre o público e o privado e do quadro cerebral, resume-se na subordinação do egoísmo ao altruísmo

6.7.8.1.             O foco da espiritualidade positiva é a Humanidade, que resume e corporifica todas as noções acima, além de diversas outras

6.7.8.2.             A espiritualidade positiva é consagrada na sétima ciência fundamental, a ciência da Moral, que também é entendida como a ciência suprema, que coroa e resume todas as ciências anteriores e inferiores

6.7.8.2.1.                   O objeto da ciência da Moral é o indivíduo, que é estudado a partir de sua situação e sua condição social

6.7.8.2.2.                   É importante lembrar que, se por um lado a ciência da Moral é a ciência suprema e que ela consagra a espiritualidade positiva, por outro lado a moralidade positiva baseia-se no caráter social do ser humano; nesse sentido, a base da moralidade positiva é sociológica

6.7.9. A partir da experiência histórica, seja espontânea, seja sistemática, das religiões anteriores, o Positivismo adota e positiva uma série de instituições, procedimentos, práticas:

6.7.9.1.             A incorporação do fetichismo à positividade, em termos afetivos, intelectuais e práticos

6.7.9.2.             Os sacramentos positivos, em número de nove

6.7.9.3.             A oração positiva, os anjos da guarda

6.7.9.4.             As propostas de culto positivista feitas por Richard Congreve e Raimundo Teixeira Mendes

7.       Término da prédica