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20 maio 2026

Escala 5x2 e Abolição da Escravidão

No dia 27 de César de 172 (19.5.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira Parte - Postura dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão celebramos a data do 13 de Maio e defendemos a escala 5x2.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


A escala 5x2 à luz da Religião da Humanidade

(27 de César de 172/19.5.2026) 

1.     Abertura da prédica

1.1.   No dia 20 de César de 172 (12.5.2026) não tivemos prédica devido a uma enxaqueca (causada, por sua vez, por excesso de trabalho, incluindo aí, evidentemente, o trabalho dedicado ao Positivismo e à Religião da Humanidade); retomamos hoje, portanto, a programação normal

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 16 de César de 172 (8.5.2026): o blogue Filosofia Social e Positivismo atingiu a marca de 700.000 visitas!

2.2.   Dia 19 de César (11.5): fundação da Igreja Positivista do Brasil (1881 – 145 anos)

2.3.   Dia 21 de César (13.5): abolição da escravidão no Brasil (1889 – 138 anos): celebração da fraternidade entre os brasileiros

2.4.   Dia 24 de César (16.5): nascimento de Luís Lagarrigue (1864 – 162 anos)

2.5.   Mês de São Paulo: de 21 de maio a 17 de junho teremos o mês de São Paulo, sexto mês do ano, dedicado ao catolicismo

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: a escala 5x2 (e celebração do 13 de Maio)

5.1.   Um aviso inicial: como indicamos no início da prédica, o sermão de hoje deveria ter sido feito na semana passada; mas, devido a excesso de trabalho, padecemos de enxaqueca na semana passada; assim, o que deveria ter sido feito na semana passada será feito hoje

5.2.   O sermão de hoje celebra o dia 13 de Maio e, a partir disso, afirma a correção da proposta da escala 5x2

5.2.1. Várias das idéias abaixo foram apresentadas no artigo “Da abolição da escravidão à escala 5x2”, publicado no jornal carioca Monitor Mercantil de 11.5.2026

5.3.   Comecemos com o 13 de Maio

5.3.1. O feriado do 13 de Maio há muito tempo não é mais celebrado, mas o 13 de Maio com justiça já foi feriado nacional, que comemorava a fraternidade dos brasileiros, a partir da abolição da escravidão

5.3.1.1.          Esse feriado foi estabelecido pelo Decreton. 155-B, de 14 de janeiro de 1890 – um monumento belíssimo de celebrações cívicas

5.3.1.2.          Estabelecido a partir das sugestões positivistas (como, de resto, todo o Decreto n. 155-B), o nome do feriado já indicava que tal celebração não tinha nada a ver com a mistificação monarquista, antinacional e antirrepublicana em favor da Princesa Isabel

5.3.2. A celebração da fraternidade dos brasileiros, celebrada durante a I República no dia 13 de maio, conjuga de maneira impressionante inúmeros elementos:

5.3.2.1.          a valorização do trabalho e dos trabalhadores, contra as concepções de que o trabalho é degradante, que é um castigo e que os trabalhadores têm que ser tratados como escravos

5.3.2.2.          a libertação dos escravos, ocorrida em 1888 em relação aos descendentes dos africanos, trazidos à força ao Brasil, e em 1758 em relação aos índios, autóctones

5.3.2.3.          o necessário concurso das várias etnias para a constituição do Brasil – concurso que, de qualquer maneira, tem que ser pacífico e voluntário

5.3.3. É importante reforçar desde já um aspecto central: a celebração do 13 de Maio não era apenas pelo fim da escravidão negra, mas era principalmente pela valorização do trabalho e dos trabalhadores, bem como da fraternidade nacional, ou seja, do aspecto altruísta e generoso que a vida coletiva necessariamente tem que ter

5.3.4. Apesar de belas, importantes e necessárias, essas concepções foram e têm sido degradadas ao longo do tempo

5.3.4.1.          Não nos parece casual que isso ocorra ao mesmo tempo em que a própria noção de “república” seja desprezada e corrompida cada vez mais, nos últimos 140 anos

5.3.4.2.          No caso da celebração da fraternidade dos brasileiros, essa degradação começou logo após o 13 de maio de 1888, a partir de uma intensa mistificação monarquista, em favor da Princesa Isabel

5.3.4.3.          Essa mistificação, aliás, foi apoiada por movimentos sociais negros que, liderados por José do Patrocínio e baseados em uma equivocada gratidão, constituíram a lamentável milícia da “Guarda Negra”, que espancava os republicanos em defesa da monarquia

5.3.4.4.          Como se sabe, a mistificação monarquista foi no sentido de caracterizar a abolição como uma generosa concessão da monarquia (em vez de uma conquista verdadeiramente nacional e popular), em particular da Princesa Isabel, a fim de legitimá-la e tentar reverter a profunda repulsa de que ela era objeto (era ultracarola, seu marido era estrangeiro e, seguindo as ordens do próprio Dom Pedro, foi o responsável por dar caça a Solano López até o matar)

5.3.5. Assim, ao longo do tempo, em vez de investir-se nas noções de que a abolição da escravidão foi uma vitória do conjunto do país, de que ela valoriza os brasileiros descendentes de africanos e de que ela celebra a dignidade do trabalho e dos trabalhadores; em vez de investirmos no republicanismo em geral e na celebração da fraternidade em particular, os brasileiros praticamos o desprezo pela república (que se torna desculpa para golpes e revoluções, do fascismo, do comunismo, do clericalismo, do monarquismo etc.) e o estímulo ao mito monarquista

5.3.5.1.          Essa dupla degradação tem sido reafirmada nas últimas décadas mesmo pelo movimento identitário negro, contrário às noções de república e de fraternidade universal

5.3.5.2.          Aliás, o identitarismo negro finge que a Guarda Negra não existiu e estimula a mistificação monarquista contra a celebração republicana: isso em favor de um novo feriado nacional, que lamentavelmente mas não por acaso é particularista, contrário à fraternidade e, para piorar, que celebra uma figura que lutava contra a escravidão mantendo o seu próprio plantel de escravos

5.3.5.3.          Este é um caso exemplar que indica que, mesmo que um grupo social afirme defender uma determinada perspectiva e os interesses desse grupo, não é por isso que suas concepções são corretas, adequadas, altruístas e com efeitos positivos (no presente e/ou no futuro): o movimento identitário negro não apenas defende de maneira equivocada os interesses dos “negros” como sua defesa é daninha para eles e para o conjunto do país, ao ser particularista, faccioso e, como todo identitarismo, estimular o ressentimento e o ódio coletivos

5.3.6. É importante termos claro que a rejeição do 13 de Maio tem graves efeitos sociais e políticos:

5.3.6.1.          A rejeição rompe a continuidade histórica, tornando a história do
Brasil (e a história humana de modo geral) algo misterioso e irracional

5.3.6.2.          O rompimento da continuidade histórica apóia e reforça o desprezo pela República, ou seja, por seus ideais e seus esforços

5.3.6.3.          Apesar de supostamente se ser contra a mistificação monarquista, o desprezo pelo 13 de maio atinge a celebração republicana da fraternidade dos brasileiros, reforçando indiretamente o mito monarquista

5.3.6.4.          A rejeição despreza os esforços coletivos, de caráter nacional, em favor da abolição da escravidão e, depois, os esforços para a integração dos libertos e de seus descendentes

5.3.6.5.           A rejeição despreza o sentido altruísta e, literalmente, fraterno do feriado estabelecido pela República (e, deve-se notar: estabelecido pela República e não pela monarquia)

5.3.6.6.          A rejeição despreza o esforço concreto de constituição de uma pátria fraterna e altruísta, ao mesmo tempo em que reforça consciente e constantemente o discurso de um país agressivo e cruel

5.3.6.7.          A rejeição atua no sentido de afirmar o Brasil como a justaposição – violenta, ainda por cima – de etnias que não têm nada a ver uma com a outra, que não podem contribuir uma com a outra e cuja manutenção em conjunto seria uma balela violenta e hipócrita criada pelos dominadores

5.3.6.8.          Por fim, mas não menos importante, o conjunto dos problemas acima reforma a noção de que o trabalho é degradante, próprio à escravidão e que é “coisa de escravo”

5.4.   Passemos agora à escala 5x2

5.4.1. Como se pode ver pelos comentários que acabemos de fazer, o desprezo pelo feriado do 13 de Maio resulta no desprezo pelo trabalho e pelos trabalhadores, no desprezo pela fraternidade nacional e no desprezo pela luta nacional e popular que resultou na abolição da escravidão

5.4.1.1.          Esses múltiplos desprezos têm conseqüências morais, intelectuais e práticas de longo prazo, ao tornar desvincular a proposta da jornada 5x2 do esforço em prol da dignificação do trabalho e dos trabalhadores

5.4.2. Passando diretamente para a proposta da escala 5x2: ela surgiu como uma iniciativa da esquerda que, após décadas, finalmente apresentou uma proposta que não é exclusivista, particularista, facciosa e, ao contrário, beneficia todo o conjunto da população brasileira

5.4.2.1.          Mais importante que as disputas partidário-ideológicas, a proposta da escala 5x2 celebra uma concepção generosa e universalista da vida em sociedade, afirmando a fraternidade de todos os brasileiros, a dedicação dos trabalhadores para suas famílias, a dignidade humana em geral e a valorização do trabalho como atividade produtiva compartilhada

5.4.2.2.          Além disso, a escala 5x2 sacramenta o hábito ocidental de dois dias para o trabalhador dedicar-se à vida doméstica (sábado) e à vida coletiva (domingo) – o que, convenhamos, é o mínimo para uma vida digna e para uma justa retribuição pela atividade produtiva

5.4.3. Na verdade, a idéia de dois dias de descanso dedicados à vida doméstica e social dos trabalhadores foi proposta pelo Positivismo

5.4.3.1.          Originalmente, os dois dias de descanso foram tentados por Oliver Cromwell, ao longo de seu governo republicano na Inglaterra do século XVII

5.4.3.2.          Miguel Lemos chama a atenção exatamente para isso, em uma nota do Catecismo positivista:

Aproveitamos esta alusão incidente ao descanso semanal para dizer que meditações ulteriores levaram Augusto Comte a estabelecer dois dias consecutivos de folga por semana (domingo e lunedia[1]), votados um à vida pública e o segundo à vida privada, como já o havia tentado uma lei de Cromwell (V. Lettres à Edger, p. 69). Todos sabem, aliás, da tendência universal a não se trabalhar no lunedia (Miguel Lemos, Notas ao, Catecismo positivista, edição apostólica de 1934, p. 492)

5.4.3.3.          O trecho indicado acima das cartas de Augusto Comte a Henry Edger é este:

[...] O uso espontâneo do proletariado ocidental, para os dois dias de descanso consecutivos de cada semana, universalmente dedicados um à vida pública, o outro à vida privada: uma lei de Cromwell já o tentara [instituir]” (Lettres d’Auguste Comte à Henry Edger e à John Metcalf, Paris, Apostolat Positiviste, 1889, p. 69)

5.4.4. Em oposição à dignificação do trabalho e dos trabalhadores, consideremos as críticas à escala 5x2

5.4.4.1.          Podemos organizar as críticas em dois grandes grupos: (1) os argumentos economicistas e (2) os argumentos que degradam a vida coletiva e o trabalho – argumentos convergentes, aliás.

5.4.5. O economicismo considera apenas os aspectos econômicos da medida são os importantes; ele reduz o ser humano a u’a máquina de trabalhar e de produzir

5.4.5.1.          Há no economicismo um duplo cinismo: finge-se (1) que o trabalhador não é apenas um número que tem a obrigação de gerar riqueza e (2) que essa desumanização não é dirigida apenas contra os trabalhadores

5.4.5.2.          Entretanto, é mais do que evidente que nenhum capitalista aceitaria submeter a si próprio e à sua família aos raciocínios morais e às condições de trabalho envolvidos no argumento economicista; mas eles não têm pudor em exigir tal submissão aos “outros”

5.4.5.3.          Se isso não fosse pouco, argumenta-se também que os “custos” aumentarão e o “lucro” diminuirá com a escala 5x2: ora, cada vez mais temos à disposição (1) tecnologias que aumentam a produtividade, (2) o conhecimento de que qualidade de vida e satisfação aumentam a produtividade; (3) o aumento geral da renda com o aumento de trabalhadores no mercado de trabalho

5.4.6. Os argumentos que degradam o trabalho são mais diretos em sua rejeição ao maior tempo disponível para os trabalhadores

5.4.6.1.          São argumentos francamente reacionários, com enorme freqüência teológicos e todos são contra a dignidade do trabalho e da vida humana e a favor da ganância

5.4.6.2.          Por exemplo: deputados-pastores afirmam que a escala 5x2 deixará muito tempo livre para os trabalhadores, tempo ocupado pelo Diabo (!): assim, os trabalhadores devem trabalhar sem cessar para que se esgotem e não possam aproveitar a vida nem refletir a respeito dela

5.4.6.3.          Outros críticos da escala 5x2 são diretamente bíblicos: o trabalho é a punição divina pela traição de Adão (causada, aliás, pela suposta mesquinhez de Eva); assim, não seria correto aliviar o fardo humano que, afinal, teria sido imposto pela própria divindade

5.4.6.4.          É claro que, assim como no caso das críticas economicistas, os reacionários (teológicos) rejeitam para os outros a escala 5x2, mas fazem questão de mantê-la para si mesmos

5.4.7. Versões secularizadas disso consideram que o trabalho incessante e exaustivo seria a única forma de dignificar a vida: de acordo com essa concepção, viver-se-ia apenas para trabalhar, em vez de dignificar-se o trabalho como uma atividade entre outras que integra a vida

5.4.7.1.          Conseqüências imediatas disso: o salário deve ser o menor possível (forçando os trabalhadores a manterem-se em trabalhos ruins) e as condições de vida não podem ser muito boas (incluindo aí as longas horas entre a casa e o trabalho e o acúmulo com o trabalho doméstico)

5.4.7.2.          Essa concepção, que no fundo é apenas uma versão um pouco secularizada da concepção teológica do castigo divino, tem sido afirmada pelo bilionário sul-africano Elon Musk

5.4.8. Um aspecto que subjaz a todas as críticas à proposta de escala 5x2 e que os críticos não fazem muita questão de esconder é que a boa vida cabe apenas a alguns poucos – aos ricos –; em outras palavras, as críticas consideram que o trabalho serve apenas para o enriquecimento alheio, em vez de ser um esforço coletivo para a manutenção e a melhoria da sociedade

5.4.8.1.          Essa mentalidade prevalece nos Estados Unidos, onde a ganância é um valor fundamental (“Greed is good”, vemos Gordon Gekko dizer no filme Wall Street, de 2010)

5.4.8.2.          Entretanto, no fundo, ela tem uma origem mais antiga e insidiosa: ela não distingue o trabalho da escravidão

5.4.8.3.          Assim, não é casual que os monarquistas – que retornaram à ribalta na onda reacionária da última década – sejam críticos da escala 5x2: a monarquia no Brasil foi implantada exatamente para manter a escravidão. O antirrepublicanismo é pró-escravismo.

5.4.8.4.          Assim, a celebração do 13 de Maio tem tudo a ver com a defesa da escala 5x2 – e, inversamente, a defesa da escala 5x2 recupera (e exige a recuperação de) o feriado de 13 de Maio

5.5.   Em suma:

5.5.1. Celebremos, então, o 13 de Maio: o fim da escravidão, a fraternidade dos brasileiros e o republicanismo. Celebremos a dignidade do trabalho e dos trabalhadores: que venha a escala 5x2!

5.5.2.  

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Da Abolição da Escravidão à escala 5x2 (Curitiba, 11.5.2056): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/05/da-abolicao-da-escravidao-escala-5x2.html.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] “Lunedia” é o neologismo criado por Miguel Lemos para substituir no português a expressão “segunda-feira”, aproximar o português das demais línguas neolatinas (que usam, por exemplo, lunes em espanhol e lunedie em francês) e lembrar a evolução histórica do Ocidente (lunedia é o “dia da Lua”). Neologismos equivalentes foram criados para os demais dias úteis (ver Catecismo positivista, edição apostólica, 1934, notas de Miguel Lemos, p. 475).

12 maio 2026

Da Abolição da Escravidão à escala 5x2

O jornal carioca Monitor Mercantil publicou em 19 de César de 172 (11.5.2026) o nosso artigo "Da Abolição da Escravidão à escala 5x2".

A publicação original encontra-se disponível aqui

Reproduzimos abaixo o texto.

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Da abolição da escravidão à escala 5×2

Críticos à redução da jornada não distinguem o trabalho da escravidão 

Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Esacala 6x1 ( foto de José Cruz/Agência Brasil)

É uma feliz coincidência que este artigo sobre a escala 6×1 (ou melhor, escala 5×2) seja publicado no dia 11 de maio, antevéspera do 13 de Maio. Há muito tempo a data não é mais celebrada, mas o 13 de Maio, com justiça, já foi feriado nacional, que comemorava a fraternidade dos brasileiros a partir da abolição da escravidão.
Estabelecido pelo Decreto 155-B, de 14 de janeiro de 1891 – um monumento belíssimo de celebrações cívicas –, o nome do feriado já indicava que tal celebração não tinha nada a ver com a mistificação monarquista, antinacional e antirrepublicana em favor da Princesa Isabel.
A celebração da fraternidade dos brasileiros, celebrada durante a I República no dia 13 de maio, conjuga de maneira impressionante inúmeros elementos:

  1. a valorização do trabalho e dos trabalhadores, contra as concepções de que o trabalho é degradante, que é um castigo e que os trabalhadores têm que ser tratados como escravos;
  2. a libertação dos escravos, ocorrida em 1888 em relação aos descendentes dos africanos trazidos à força ao Brasil e, em 1758, em relação aos índios autóctones;
  3. o necessário concurso das várias etnias para a constituição do Brasil – concurso que, de qualquer maneira, tem que ser pacífico e voluntário.

Apesar de belas, importantes e necessárias, essas concepções foram e têm sido degradadas ao longo do tempo; como a própria noção de “república”, seu sentido tem sido desprezado e corrompido cada vez mais nos últimos 140 anos.

No caso da celebração da fraternidade dos brasileiros, essa degradação começou logo após o 13 de maio de 1888, a partir de uma intensa mistificação monarquista – mistificação, aliás, apoiada por movimentos sociais negros que, baseados em uma equivocada gratidão, constituíram a lamentável milícia da “Guarda Negra”, que espancava os republicanos em defesa da monarquia.

Ao longo do tempo, em vez de investir-se nas noções de que a abolição da escravidão foi uma vitória do conjunto do país, de que ela valoriza os brasileiros descendentes de africanos e de que celebra a dignidade do trabalho e dos trabalhadores; em vez de investirmos no republicanismo em geral e na celebração da fraternidade em particular, os brasileiros praticamos o desprezo pela república (que se torna desculpa para golpes e revoluções, do fascismo, do comunismo, do clericalismo, do monarquismo etc.) e o estímulo ao mito monarquista.

Essa dupla degradação tem sido reafirmada nas últimas décadas mesmo pelo movimento identitário negro, contrário às noções de república e de fraternidade universal. Aliás, o identitarismo negro finge que a Guarda Negra não existiu e estimula a mistificação monarquista contra a celebração republicana: isso em favor de um novo feriado nacional, lamentavelmente, mas não por acaso, particularista, contrário à fraternidade e, para piorar, que celebra uma figura que lutava contra a escravidão mantendo o seu próprio plantel de escravos.

O que isso tem a ver com a escala 5×2? Tudo. A proposta da mudança do regime de trabalho no Brasil surgiu como uma iniciativa da esquerda que, após décadas, finalmente apresentou uma proposta que não é exclusivista, particularista, facciosa e, ao contrário, beneficia todo o conjunto da população brasileira.

Mais importante que as disputas partidário-ideológicas, a proposta da escala 5×2 celebra uma concepção generosa e universalista da vida em sociedade, afirmando a fraternidade de todos os brasileiros, a dedicação dos trabalhadores para suas famílias, a dignidade humana em geral e a valorização do trabalho como atividade produtiva compartilhada.

Além disso, a escala 5×2 sacramenta o hábito ocidental de dois dias para o trabalhador dedicar-se à vida doméstica (sábado) e à vida coletiva (domingo) – o que, convenhamos, é o mínimo para uma vida digna e para uma justa retribuição pela atividade produtiva.

Nesse sentido, é revelador que os críticos da escala 5×2 adotem argumentos (1) economicistas e (2) que degradam a vida coletiva e o trabalho – argumentos convergentes, aliás.

O economicismo considera que apenas os aspectos econômicos da medida são os importantes; ele reduz o ser humano a uma máquina de trabalhar e de produzir. Há no economicismo um duplo cinismo: finge-se (1) que o trabalhador não é apenas um número que tem a obrigação de gerar riqueza e (2) que essa desumanização não é dirigida apenas contra os trabalhadores.

Nenhum capitalista aceitaria submeter a si próprio e à sua família aos raciocínios morais e às condições de trabalho envolvidos no argumento economicista; mas eles não têm pudor em exigir tal submissão aos “outros”.

Se isso não fosse pouco, argumenta-se também que os “custos” aumentarão e o “lucro” diminuirá com a escala 5×2: ora, cada vez mais temos à disposição (1) tecnologias que aumentam a produtividade, (2) o conhecimento de que qualidade de vida e satisfação aumentam a produtividade, (3) o aumento geral da renda com o aumento de trabalhadores no mercado de trabalho.

Os argumentos que degradam o trabalho são mais diretos; reacionários, com frequência são teológicos, todos são contra a dignidade do trabalho e da vida humana e a favor da ganância. Por exemplo: deputados-pastores afirmam que a escala 5×2 deixará muito tempo livre para os trabalhadores, tempo ocupado pelo Diabo (!): assim, os trabalhadores devem trabalhar sem cessar para que se esgotem e não possam aproveitar a vida nem refletir a respeito dela.

Outros críticos da escala 5×2 são diretamente bíblicos: o trabalho é a punição divina pela traição de Adão (causada, aliás, pela suposta mesquinhez de Eva).

Versões secularizadas disso consideram que o trabalho incessante é a única forma de dignificar a vida; viver-se-ia apenas para trabalhar, em vez de dignificar o trabalho como uma atividade que integra a vida, entre muitos outros aspectos.

Consequências imediatas disso: o salário deve ser o menor possível (forçando os trabalhadores a manterem-se em trabalhos ruins), e as condições de vida não podem ser muito boas (incluindo aí as longas horas entre a casa e o trabalho e o acúmulo com o trabalho doméstico).

Na crítica à escala 5×2, também há a noção de que a boa vida cabe apenas a alguns poucos – aos ricos; o trabalho serve para o enriquecimento alheio. Essa mentalidade prevalece nos Estados Unidos, onde a ganância é um valor fundamental; mas, no fundo, ela tem uma origem mais antiga e insidiosa: ela não distingue o trabalho da escravidão.

Não é casual que os monarquistas – que retornaram à ribalta na onda reacionária da última década – sejam críticos da escala 5×2: a monarquia no Brasil foi implantada exatamente para manter a escravidão. O antirrepublicanismo é pró-escravismo.

Celebremos, então, o 13 de Maio: o fim da escravidão, a fraternidade dos brasileiros e o republicanismo. Celebremos a dignidade do trabalho e dos trabalhadores: que venha a escala 5×2!

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

13 maio 2025

13 de Maio: Abolição da Escravidão; Toussaint Louverture e Zumbi

Augusto Comte, o fundador da Sociologia, do Positivismo e da Religião da Humanidade, incluiu Toussaint no Calendário Positivista concreto. Da mesma forma, os positivistas ortodoxos brasileiros incluíram Toussaint em sua campanha abolicionista desde 1875 e, após o 1888, também em suas celebrações anuais; na verdade, a memória de Toussaint foi mantida no Brasil graças aos positivistas.



15 agosto 2019

Abolição e política identitária na Ciência Hoje para Crianças

Nos últimos anos, a “discussão” sobre a abolição da escravidão no Brasil tem tomado alguns rumos inesperados mas, ao mesmo tempo, nefastos.

Antes de mais nada, é evidente (ou deveria ser evidente) que a valorização dos movimentos negros (escravos, livres ou libertos) na campanha pela abolição da escravidão é algo corretíssimo e tem que ser valorizado; todavia, isso não pode, de maneira nenhuma, corresponder a negar-se o papel desempenhado nessa campanha por outros brasileiros, que, na falta de melhor expressão, chamaríamos de “brancos” (quer fossem populares, quer fossem da elite, quer fossem de classe média).

O que importa notar, nesse sentido, é que a campanha pela abolição foi um movimento verdadeiramente nacional, no duplo sentido de que (1) ocorreu de Norte a Sul (e de Leste a Oeste) do país e, principalmente, (2) mobilizou todas as classes sociais, todos os grupos sociais. Nesse sentido, vale lembrar que a lei da abolição, antes de ser sancionada pela Princesa Isabel, fora aprovada pelo parlamento brasileiro: essa aprovação indica o quanto a sociedade como um todo mobilizara-se previamente, forçando o parlamento a aceitar o projeto.

É fundamental insistirmos em que consiste em um mito a idéia de que Princesa Isabel teria sido a “redentora”, isto é, de que a abolição teria ocorrido graças à pura vontade unilateral da regente do Império brasileiro. Aliás, esse mito foi criado já em 1888, para tentar valorizar a monarquia decadente e também para tentar legitimar um eventual terceiro reinado dos Órleans e Braganças, a ser assumido pelo casal composto pela Princesa Isabel e seu marido, o francês Conde d’Eu.

Mas se é correto desmistificar a atuação “redentora” da Princesa Isabel, assim como é importante valorizar a atuação dos movimentos negros na campanha abolicionista, por outro lado é importante não negar a atuação de toda a sociedade brasileira da época. Nesse sentido, por exemplo, vale notar que partes do próprio “movimento negro” afirmaram desde 1888 elementos do mito da “redentora”: afinal, após o 13 de maio constituiu-se sob o comando de José do Patrocínio (um dos antigos campeões negros da causa abolicionista) a “Guarda Negra”, que servia para defender a monarquia escravocrata contra a república e os republicanos, sem temer o emprego de espancamentos, linchamentos etc. Esse triste fato não costuma ser lembrado – mesmo nos dias de hoje! – nem pelos reacionários que defendem a monarquia nem pelo movimento negro.

Há outro motivo, mais profundo, para preocupação com os rumos atuais sobre os “debates” a respeito da campanha abolicionista: trata-se de que muito da historiografia revisionista das últimas duas décadas tem um fortíssimo caráter de política identitária. Ora, a política identitária baseia-se nas “identidades de grupo”, isto é, naqueles elementos que cada grupo social considera como exclusivos seus e que, portanto, separam esses grupos do conjunto da sociedade e dos demais grupos.

Referi-me a “muito da historiografia”, ou seja, muitos historiadores, mas também muitos cientistas sociais atuais adotam esses parâmetros identitários para fazerem suas análises, que se caracterizam cada vez mais pela brutal dicotomia que separa de maneira seca e dura “brancos” de “negros”, sem categorias intermediárias (os mulatos) mas com um fortíssimo elemento moral (em que, evidentemente, os “brancos” por definição não prestam). (Esse procedimento tem sido adotado por cientistas sociais independentemente da sua “raça”.)

Isso tem ocorrido graças à importação, completamente acrítica e despudorada, feita pelo movimento negro brasileiro dos esquemas mentais e sociais próprios ao racismo dos Estados Unidos e das estratégias sociopolíticas adotadas pelo movimento negro estadunidense – com todos os vícios que isso acarreta, em particular a reprodução ocorrida aqui do racismo e do divisionismo existentes lá. Sinal simples e escandaloso disso é a afirmação de que “miscigenação é genocídio” em faixas e cartazes que integrantes do movimento negro brasileiro exibem com orgulho em manifestações públicas, ainda que com isso apenas (e infelizmente) reproduzam aqui e a favor dos negros a nefanda regra da “gota única de sangue” (“one drop rule”), vigente nos EUA e que fundamenta sociologicamente o racismo lá.

Não posso deixar de observar que, muito diferente disso tudo, resultando em ações e práticas muito diversas, com efeitos sociais e políticos amplos (também diversos), foi a atuação dos positivistas. Os positivistas brasileiros celebravam no dia 13 de Maio a união da raças no Brasil, com a colaboração de cada uma delas para o progresso nacional; aliás, os positivistas brasileiros foram alguns dos mais ardorosos defensores da abolição da escravidão imediata e sem compensação financeira para os donos de escravos: aliás, nos grêmios positivistas, ser dono de escravo causava a expulsão sumária. Não é por acaso que, entre 1890 e 1930, o 13 de Maio era feriado nacional (e muita gente, mesmo nos dias de hoje, ainda se lembra disso): proposto pelos positivistas logo no início da República, esse feriado celebrava a fraternidade nacional nos termos indicados acima – mas muito diferentes da apologia reacionária que cultuava a “redentora” e também muito diferente da política identitária, segregacionista e não raro racista do dia da “consciência negra”.

Faço essas extensas considerações porque a revista Ciência Hoje para Crianças (CHC), em sua edição n. 299, de maio de 2019, dedicou o número a tratar da abolição da escravidão, dando ênfase aos negros envolvidos no movimento. Como observei antes, essa ênfase é histórica e politicamente necessária, mas ela não pode conduzir a negar o papel desempenhado pelo conjunto da sociedade brasileira – que, aliás, atuou como um conjunto – nessa campanha. Em particular, nesse número da CHC, a matéria “13 de Maio ainda seria data para celebrar?” (disponível aqui: http://chc.org.br/artigo/13-de-maio/) deixa entrever os problemas que comentei acima. É bastante claro o quão problemático, quando não desastroso, que, em nome de uma proposta bem intencionada, mas errada no final das contas, uma revista de divulgação científica leve adiante a “correção política” (que é a tradução correta do “politicamente correto”) e a política identitária sob a forma de conteúdo “educativo” para crianças.

14 maio 2018

Ambigüidades brasileiras sobre o 13 de Maio

A comemoração do 13 de maio é algo bastante problemático no Brasil atual.
Muitos sociólogos e historiadores afirmam que o Brasil tem uma espécie de amnésia a respeito da escravidão; pode ser, mas com certeza temos uma profunda "má consciência" disso, isto é, é uma lembrança profundamente incômoda, desagradável; é uma chaga que nos persegue.
Essa "má consciência" pode ser entendida de duas formas: (1) ou uma tentativa de simplesmente apagar o passado e fingir que esse passado não ocorreu; (2) ou uma forma de impulsionar mudanças efetivas no presente, para o futuro, a fim de corrigir erros e problemas anteriores.
É claro que essas duas formas da "má consciência" não são necessariamente excludentes entre si, embora elas possam, de fato, separar-se.
Quando sociólogos e historiadores afirmam a "amnésia" a respeito da escravidão, eles insistem na primeira possibilidade, deixando implícita ou em segundo plano a segunda possibilidade.
Mas, ao mesmo tempo, como é sabido, o 13 de maio acarretou a libertação dos escravos, mas não a integração dos ex-escravos à sociedade em termos sociais e políticos; eles tornaram-se livres, mas não se tornaram cidadãos.
É claro que essa lacuna aumenta dramaticamente o peso que a escravidão tem sobre o Brasil e sobre a memória coletiva sobre ela.
Os positivistas brasileiros, desde 1881 (fundação da Igreja Positivista do Brasil), passando por 1888 (Abolição da Escravidão), mas ainda mais após 1889 (Proclamação da República), envidaram os maiores esforços para, inicialmente, acabar com a escravidão e, em seguida, incorporar os ex-escravos - aliás, de modo geral, todos os "excluídos" - à sociedade, como cidadãos respeitados, valorizados e produtivos. Sinal inequívoco disso foi o estabelecimento, em 1890, do dia 13 de maio como feriado dedicado à confraternização de todos os brasileiros
Enfim, a ambigüidade brasileira a respeito do dia 13 de maio aumenta ainda mais quando se constata que os movimentos negros atuais criticam as limitações do 13 de maio - críticas que, nesse sentido, são corretas e mesmo necessárias - para realizarem de uma única vez inúmeras ações daninhas para o país: (1) negam a importância da abolição da escravidão; (2) afirmam o particularismo negro (por meio da "consciência negra"); (3) estimulam o racismo (seja por meio do "racismo reverso", isto é, dos "negros" contra os "brancos", seja por meio da separação da sociedade brasileira entre "negros" e "brancos") e (4) como suposta solução para esses problemas, afirmam a validade, a legitimidade e a eficácia do "racismo reverso" e dos privilégios baseados na raça (as "ações afirmativas", que institucionalizam o racismo de Estado).
Em suma, a comemoração do 13 de maio no Brasil é problemática porque ela recorda-nos de uma gigantesca nódoa em nossa história. O impulso geral básico no Brasil é por esquecermos essa nódoa, em vez de usarmos a vergonha do passado para melhorarmos o presente e o futuro; por fim, os ativistas sociais contemporâneos pretendem que o melhor curso de ação é aquele que, conscientemente, aumenta o racismo, em vez de diminuí-lo; que cria privilégios, em vez de aumentar a cidadania.

12 junho 2017

"Teoria do Brasil" dos positivistas: composição étnica e unidade nacional

A revista Política & Sociedade - da Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) - acabou de publicar, em seu número mais recente (v. 16, n. 35, jan.-abr.2017) um artigo de minha autoria, intitulado "A “Teoria do Brasil” dos Positivistas Ortodoxos Brasileiros: composição étnica e independência nacional".

O texto pode ser obtido aqui.

Eis o resumo e as palavras-chave do artigo:

Resumo: Podemos definir como “teoria do Brasil” o conjunto de concepções que um autor ou um grupo político-intelectual possui a respeito da história e da estrutura da sociedade e do Estado brasileiros, bem como de suas relações mútuas; essas concepções costumam ser incluídas no “pensamento político e social brasileiro”. Nesse sentido, os positivistas ortodoxos brasileiros – ou seja, aqueles ligados à Igreja Positivista do Brasil, especialmente Miguel Lemos e Raimundo Teixeira Mendes – tinham a sua “teoria do Brasil”. Embora haja estudos sobre alguns aspectos do pensamento e da prática dos positivistas (como a respeito da escravidão), há uma importante lacuna na literatura a respeito da sua “teoria do Brasil”. Dessa forma, o presente artigo pretende abordar precisamente essa questão, tratando de modo específico (1) da formação étnica brasileira e (2) das condições sociais e políticas brasileiras que conduziram à Independência nacional, em 1822; para isso, serão analisados alguns documentos escritos por Teixeira Mendes. Preliminarmente serão expostos alguns elementos da doutrina positivista, conforme definida por Augusto Comte; já nas conclusões são expostas algumas considerações sobre a importância política e intelectual dos positivistas no Brasil e na área acadêmica do “pensamento político brasileiro”.

Palavras-chave: Positivistas ortodoxos. Teoria do Brasil. Evolução sócio-política. Formação étnica. Independência do Brasil. Raimundo Teixeira Mendes. 

07 setembro 2015

7 de setembro – Independência do Brasil e comemoração de José Bonifácio

7 de setembro – Independência do Brasil e comemoração de José Bonifácio


Autoria do cartaz: João Carlos Silva Cardoso.
  

Celebração do Brasil, comemoração de José Bonifácio

No dia 7 de setembro celebramos a Independência do Brasil, no quase bicentenário ano de 1822, e, por isso mesmo, comemoramos a figura de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o grande "Patriarca da Independência".

Condições e exigências da política moderna

A política moderna baseia-se na existência de pátrias livres; essas pátrias têm que ser menores do que costumam ser ainda hoje, mas, de qualquer maneira, a liberdade é uma condição fundamental e insuperável.

O que significa essa "liberdade"? Significa a possibilidade de decidir com autonomia os rumos a tomar, sem imposições externas, e de acordo com os parâmetros específicos de cada país. Ao mesmo tempo em que cada pátria deve poder decidir o que deseja fazer, sua conduta deve caracterizar-se ao mesmo tempo pelo respeito a todas as outras nações, no que se refere à sua dignidade e às suas condições de existência, e ao desenvolvimento de ações pacíficas e coordenadas com vistas à melhoria material e moral de todas.

Em outras palavras, a política moderna não pode ser definida pela "soberania", isto é, pela consideração de que cada país é o juiz único e último de suas ações, em desrespeito e desconsideração aos demais países. A dificuldade está em que a necessária interdependência política, material e moral não pode ser entendida e usada como desculpa para intromissões e invasões de uns países sobre os outros.

Em termos internos, cada país deve buscar a integração social, a redução e o fim da miséria, o combate e o fim das discriminações sociais, o desenvolvimento técnico, científico e moral etc. No caso do Brasil do início do século XIX, José Bonifácio tinha clareza desses objetivos e dessas condições e foi por isso que tratou de organizar as condições propícias para a independência do Brasil – e que, sendo a eminência parda por detrás do então Príncipe Regente, obteve de fato a independência nacional no 7 de setembro de 1822.

Propostas de José Bonifácio

É importantíssimo lembrar que José Bonifácio tinha clareza a respeito dos problemas e das condições brasileiras de então. Para ele, cumpria integrar o imenso território nacional, assim como permitir e realizar a integração dos três grandes elementos étnicos, o português, o africano e o indígena. Mas, ao mesmo tempo, percebendo que o país tinha sua economia baseada na escravidão, em um regime que não tinha perspectivas para desaparecer, entendeu que só seria possível manter o Brasil unido por meio da monarquia: afinal de contas, para ele, a escravidão era inimiga da República.

Essas propostas foram expostas com grande beleza pelo pintor Eduardo de Sá, na tela "José Bonifácio, a fundação da pátria brasileira".  


Eduardo de Sá, "José Bonifácio, a fundação da pátria brasileira".

Os desfiles militares não representam a República

Nesse sentido, nem a proposta cívica de José Bonifácio nem o caráter pacífico-industrial da política moderna aceitam as demonstrações usuais de "civismo": desde pelo menos o século XIX – portanto bem antes do regime inaugurado em 1964 –, as comemorações do 7 de setembro resumem-se a paradas militares. Os desfiles de pelotões, tanques e armamentos acabam concentrando nas Forças Armadas as idéias de "civismo" e "patriotismo" e desvirtuando a convergência pacífica dos cidadãos em prol do bem comum – que é o fundamento e o objetivo da política republicana.

O 7 de setembro deve resumir-se em "A sã política é filha da moral e da razão"

A sabedoria política de José Bonifácio pode ser avaliada por esta frase, que resume de maneira brilhante o programa da política moderna: "A sã política é filha da moral e da razão". É devido a concepções como essas que, juntamente com a Independência do Brasil, no dia 7 de setembro comemoramos também a imponente figura do grande santista que foi José Bonifácio.