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01 abril 2026

Nacionalismo e internacionalismo à luz do Positivismo

No dia 6 de Arquimedes de 172 (31.3.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - Conduta dos positivistas em relação aos retrógrados).

No sermão abordamos os conceitos e as práticas do nacionalismo e do internacionalismo, à luz do Positivismo.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Nacionalismo e internacionalismo à luz do Positivismo

(6 de Arquimedes de 172/31.3.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações:

2.1.   Dia 1º de Arquimedes (26 de março): início do quarto mês do ano, Arquimedes, dedicado à ciência antiga

2.2.   Dia 4 de Arquimedes (29 de março): nascimento de David Carneiro (1904 – 122 anos)

2.3.   Dia 7 de Arquimedes (1º de abril): nascimento de Eduardo de Sá (1866 – 160 anos)

2.4.   Dia 9 de Arquimedes (3 de abril): nascimento de Clotilde de Vaux (1815 – 211 anos)

2.5.   Dia 11 de Arquimedes (5 de abril): transformação de Clotilde (1846 – 180 anos)

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

3.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

3.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

3.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

3.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

3.2.   Outras observações:

3.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

3.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

3.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: nacionalismo e internacionalismo à luz do Positivismo

5.1.   O tema deste sermão reveste-se de grande importância atual, na medida em que tanto o nacionalismo quanto o internacionalismo voltaram e estão na pauta política atual

5.1.1. Geralmente, quando tratamos desses temas, eles são abordados de maneira isolada um do outro; mas, tanto devido à conjuntura atual quanto devido às considerações do Positivismo, é importante abordarmos os dois temas em conjunto, ou melhor, em uma única prédica

5.1.2. Como todas as reflexões sobre o ser humano, temos que combinar aqui comentários mais objetivos e outros mais subjetivos, expondo elementos sobre a realidade social, política e moral, da mesma forma que considerando os parâmetros que permitem regular tais aspectos, considerando o estado normal do ser humano

5.1.3. É importante notarmos que o nacionalismo, desde o século XVII (1648), foi afirmando-se e regulando-se, até se estabilizar no século XIX; mas desde fins do século XIX ele desregulou-se e resultou na II Guerra dos 30 Anos (1914-1945); a partir de então, o internacionalismo afirmou-se cada vez mais, impôs-se e passou a regular as relações internacionais; mas a partir de 2016 os dois movimentos ficaram desajustados

5.2.   Comecemos definindo minimamente cada um desses dois termos

5.2.1. O nacionalismo é a concepção que afirma a centralidade política e moral de cada país e que, ao menos em princípio, esse país é a forma suprema de associação humana

5.2.1.1.          A associação política nacional é afirmada em relação (com freqüência em contraposição) a outros países

5.2.1.2.          A afirmação nacionalista é tanto política quanto moral

5.2.1.2.1.              Em termos políticos, a contraposição é necessária para que o próprio país afirme-se, valorize-se e, no limite, exista; a contraposição portanto assume um caráter existencial, no sentido de no mínimo afirmar a independência nacional

5.2.1.2.2.              Em termos morais, afirma-se a correção, o aspecto positivo da existência nacional; essa existência desenvolve um sentimento de adesão, de apoio, que é considerado correto e bom; a adesão à nação é percebida como moralmente superior à adesão a outros vínculos políticos

5.2.1.3.          Podemos considerar que o nacionalismo assume algumas variedades:

5.2.1.3.1.              Em um primeiro caso, ele afirma-se como elo para a independência nacional; dessa forma, o nacionalismo é fator de aglutinação interna e de reação a um outro país, que exerce o controle externo

5.2.1.3.2.              Em um segundo caso, o nacionalismo contrapõe-se não a um país que exerce o controle político externo, mas a um ou a vários países que são encarados como ameaçando a autonomia e a existência do nosso país (trata-se de uma reação defensiva, quer seja real, quer seja percebida assim)

5.2.1.3.3.              Um terceiro caso consiste no nacionalismo como impulso para dominar os outros países; trata-se então de uma justificativa para o imperialismo e/ou o colonialismo

5.2.1.3.4.              Em um quarto caso, o nacionalismo afirma-se não em contraposição a outros países, mas em contraposição ao internacionalismo, entendido este como uma perspectiva e uma prática que enfraquece a realidade nacional

5.2.1.3.5.              Por fim, em um quinto caso, o nacionalismo afirma-se não em relação aos que estão “do seu lado” ou do que estaria “acima”, mas em relação às unidades políticas subnacionais, vistas como tendo excesso de autonomia, ou, então, a respeito de diversos vínculos não políticos (como os de classe, ou de etnia, ou de religião, de profissões, ou, mais recentemente, até de gênero e “raça”!)

5.2.2. O internacionalismo, por outro lado, estabelece que, mais que cada país em particular, o que importa é o respeito e/ou a adesão a vínculos superiores ou mais gerais

5.2.2.1.          Assim como no caso do nacionalismo, o internacionalismo tem um aspecto político e outro moral (bem entendido: ambos estreitamente vinculados)

5.2.2.1.1.              O aspecto moral estabelece que a realidade nacional é muito estreita, muito pequena e, de qualquer maneira, muito egoísta para merecer adesões supremas; de maneira oposta, as realidades extranacionais são percebidas como mais amplas, mais abertas, mais generosas e, daí, como merecedoras de adesões mais intensas

5.2.2.1.2.              O aspecto político do internacionalismo contrapõe as possibilidades extranacionais à nacional; esta última, por sua vez, é enfraquecida e limitada

5.2.2.2.          No âmbito do internacionalismo também podemos ter várias possibilidades:

5.2.2.2.1.              Um primeiro caso de internacionalismo consiste no cosmopolitismo: essa concepção considera que o desprezo aos vínculos nacionais é algo bom e meritório e que ser “cidadão do mundo”, no sentido de não se vincular a nenhum país em particular, em ser potencialmente um apátrida, seria o ideal políticos

5.2.2.2.1.1. Para evitarmos qualquer ambigüidade a respeito: rejeitamos essa forma de internacionalismo, que despreza os vínculos sociais e é típica das pessoas super-ricas

5.2.2.2.2.              Um segundo caso de internacionalismo consiste na adesão a organizações supranacionais (ONU, Igreja Católica, Internacional Socialista, OTAN etc.), que teriam o papel de regular as relações internacionais, seja por meio da coordenação de esforços (como no caso da OTAN), seja por meio do estabelecimento de regras; uma forma de internacionalismo é o federalismo internacional, mais ou menos o que ocorre na União Européia, mais ou menos o que ocorria nos Estados Unidos entre 1776 e 1787 etc.

5.2.2.2.3.              Um terceiro caso de internacionalismo valoriza os vínculos não políticos (cultura, classe, etnia, religião, gênero, “raça” etc.)

5.3.   A intensidade e, no limite, a existência das fronteiras nacionais é um parâmetro central na distinção entre nacionalismo e internacionalismo (e entre os vários tipos de nacionalismos e de internacionalismos)

5.3.1. O que diferencia a política interna, por um lado, da política externa e da política internacional, por outro lado, é a existência das fronteiras nacionais: elas permitem a existência de unidades que são politicamente autônomas umas das outras, no sentido de que no interior de suas fronteiras aplicam-se as leis próprias a cada uma dessas unidades, conforme as decisões tomadas por essas unidades: isso é o que se chama “soberania nacional”

5.3.1.1.          Como o nome sugere, a soberania surgiu da existência antiga de um soberano, que, nos limites de um território, era a autoridade máxima em termos de lei

5.3.1.2.          Vale a pena insistirmos nessa idéia: a existência das fronteiras nacionais, ou da soberania nacional, é o que distingue a política interna da política externa: se não houvesse mais fronteiras, toda a política seria política interna

5.3.1.3.          Separamos a política externa da política internacional: a política externa são as ações tomadas por um país em relação aos outros países e às entidades não nacionais; já a política internacional consiste no conjunto das ações dos vários países, das organizações internacionais etc.

5.4.   Falamos que muito da importância do tema deste sermão deve-se à desregulação contemporânea do nacionalismo e do internacionalismo: de fato, se, desde 1945, havia um certo acordo internacional no sentido de respeitar as soberanias nacionais e, ao mesmo tempo, desenvolver paulatinamente uma governança internacional, a partir de 2016 o internacionalismo no Ocidente passou a ser agressivamente criticado, em favor de um nacionalismo agressivo e ciumento (quando não imperialista)

5.5.   Após termos visto em linhas gerais as possibilidades do nacionalismo e do internacionalismo, devemos tratar da questão seguinte: como o Positivismo entende esses problemas?

5.5.1. Conforme a lei afetiva dos três estados, o Positivismo estabelece que há três níveis sucessivos e complementares de sociabilidade: a família, a pátria e a Humanidade

5.5.2. Cada um desses níveis tem diferentes fundamentos na natureza humana; além disso, suas amplitudes e suas intensidades variam: a família baseia-se nos sentimentos mútuos, é a mais restrita e a mais intensa; a Humanidade baseia-se no compartilhamento de valores e idéias, é a mais ampla e a menos intensa; as pátrias baseiam-se nas atividades práticas e têm graus intermediários de tamanho e de intensidade

5.5.3. Das famílias à Humanidade ocorreu uma evolução histórica: as mais antigas associações humanas baseavam-se na família (estendendo-se às tribos); com o aumento das populações e o aumento da complexidade da divisão do trabalho, organizaram-se as pátrias (com as castas atuando de maneira intermediária); por fim, o ideal e a realidade da Humanidade têm-se desenvolvido nos últimos séculos

5.5.4. É importante notarmos que, ao contrário das outras duas leis dos três estados (da inteligência e da atividade prática), a lei afetiva não acarreta a supressão das fases anteriores pelas fases posteriores: enquanto a positividade sucederá a teologia e a metafísica, que desaparecerão, e a atividade pacífica e produtiva sucederá o militarismo, que desaparecerá, a Humanidade sucede as famílias e as pátrias, mas estas não deixam de existir: elas continuam existindo, mas suas existências são modificadas, ou melhor, são completadas e, daí, reguladas pelas fases posteriores e mais amplas

5.5.4.1.          Em outras palavras, as famílias são completadas e reguladas pelas pátrias e pela Humanidade, da mesma forma que as pátrias são completadas e reguladas pela Humanidade

5.5.4.2.          Aliás, mesmo a noção de Humanidade tem que ser completada e regulada, na medida em que ela desdobra-se em duas formas sucessivas, em que, igualmente, a fase posterior é mais ampla que a anterior: a solidariedade (o presente objetivo) tem que ser completada e regulada pela continuidade (a historicidade subjetiva)

5.5.4.3.          Esses diversos movimentos de completar e regular da lei afetiva dos três estados são acompanhados dos desenvolvimentos das outras duas leis; a plena realização da Humanidade subjetiva como reguladora da Humanidade objetiva, das pátrias e das famílias exige, também, a atividade pacífica e construtiva e o pleno relativismo: sem essas condições concomitantes, a Humanidade não se realiza e permanecemos nas longas e angustiosas transições

5.5.5.  Considerando os níveis das pátrias e da Humanidade, o que o Positivismo estabelece é a afirmação simultânea do “nacionalismo” e do “internacionalismo”

5.5.5.1.          O que propomos é um paralelismo entre pátrias-Humanidade e nacionalismo-internacionalismo

5.5.5.2.          Como as pátrias baseiam-se na atividade prática, sua existência é, em certo sentido, insuperável; em um dado território, a atividade prática tem que ser organizada e mantida por meio de uma pátria, ou seja, de um país

5.5.5.2.1.              É claro que essa organização não é uma questão técnica, mas envolve sentimentos, organização econômica, uma história e uma língua compartilhadas etc.

5.5.6. O problema das pátrias, ou melhor, do nacionalismo consiste na dificuldade em lidar com os valores que são compartilhados para além das próprias pátrias; ou, para simplificar, o problema está no conceito e na prática da soberania absoluta

5.5.6.1.          Indicamos antes que a soberania nacional surgiu vinculada ao poder dos soberanos, isto é, dos reis: esse poder era entendido de maneira absoluta e, além disso, na história do Ocidente, ele desenvolveu-se em contraposição negadora do poder do imperador e do papa, em termos políticos e até militares

5.5.6.2.          O resultado desses aspectos históricos – concepção absoluta e negação política e militar de poderes superiores – é que a soberania foi entendida como a capacidade máxima de criação e imposição das leis em um determinado território, negando e rejeitando influências externas: em outras palavras, a soberania tornou-se sinônima de unidades políticas isoladas umas das outras

5.5.6.2.1.              Essa concepção de soberania foi inicialmente desenvolvida em termos teológicos (pensemos no caso da Igreja Anglicana, cujo particularismo evita as ambigüidades dos países que permaneceram católicos) mas logo se converteu na metafísica (como as obras de Hobbes e, depois e de maneira muito mais clara e intensa, de Rousseau deixam claro)

5.5.6.2.2.              A soberania teológica afirmou-se no conceito de “direito divino dos reis” (em que os reis governavam por mandato das divindades); já a soberania metafísica afirmou-se no conceito de “soberania do povo”, em que todos os atributos da soberania teológica foram reafirmados, com a simples mudança de o mandato ser conferido ao “povo” (ou, o que dá no mesmo, à “vontade popular”) e não mais ao rei

5.5.6.3.          O problema da soberania absoluta não é a autonomia nacional (a necessária capacidade que cada país deve ter de organizar-se internamente conforme seus próprios padrões); o problema da soberania é a rejeição de qualquer vínculo compartilhado com outros países e, a partir daí, a rejeição de valores, práticas, responsabilidades compartilhados

5.5.6.4.          Ora, como vimos, há diversas possibilidades de nacionalismo, sendo que nem todas aproximam-se dessa concepção de soberania; mas dependendo do momento, dos líderes políticos e da orientação da opinião pública, é muito fácil que o nacionalismo descambe para a soberania absoluta

5.5.7. O compartilhamento de valores, responsabilidades, práticas pelos diversos países (portanto, contra o conceito e a prática da soberania absoluta) acarreta a noção e a prática do complemento e da regulação das pátrias pela Humanidade

5.5.7.1.          O que se chama vulgarmente de “internacionalismo” pode ser entendido em termos positivistas como a afirmação da Humanidade: aliás, é exatamente esse entendimento que permite chegarmos a uma solução intelectualmente satisfatória, politicamente factível e afetivamente recompensadora: a noção de Humanidade não nega as pátrias – que, afinal de contas, devem permanecer existindo –, mas, rejeitando a soberania absoluta, afirma o destino comum dos seres humanos, a existência de sentimentos e idéias compartilhados, bem como a necessidade de compartilhar e convergir as atividades

5.5.7.2.          É importante reafirmar mais uma vez a idéia acima: o internacionalismo proposto pelos positivistas afirma o compartilhamento de valores e idéias e, a partir disso, a cooperação prática; isso combate a soberania absoluta, mas não nega as autonomias nacionais e a necessidade de cada país criar e manter suas próprias leis, conforme suas possibilidades e necessidades

5.5.7.3.          Embora não possamos neste momento desenvolver esta idéia, devemos apresentá-la com clareza: a distinção entre o nacionalismo e o internacionalismo, ou melhor, entre as pátrias e a Humanidade exige da mesma forma a separação entre o poder temporal e o poder espiritual

5.5.8. A convergência prática estimula a criação de órgãos internacionais, responsáveis pela cooperação mundial; tanto a convergência quanto a criação de órgãos internacionais podem avançar até mesmo para formas de confederalismo; mas, em todo caso, deve-se rejeitar a concepção de um “super-Estado mundial”: o internacionalismo deve existir de fato, mas tem que se manter inter-nacional

5.5.8.1.          A concepção de um “super-Estado mundial” deve ser abandonada com clareza porque cada país corresponde à organização prática em um determinado território, com uma população que compartilha a história nesse território, bem como valores e sentimentos; embora as particularidades locais não possam nunca ser tomadas como parâmetros supremos de avaliação e de condução na vida, ainda assim elas têm que ser minimamente respeitadas: cada país funda-se e fundamenta-se nesse respeito

5.5.8.2.          Em decorrência do item acima, um “super-Estado mundial” será necessariamente incapaz de respeitar as particularidades locais; o resultado dessa impossibilidade é a tomada de decisões que desconsideram as particularidades locais e tornam-se, dessa forma, inadequadas para essas regiões; daí para a imposição das decisões é um passo e, em seguida, é outro passo para a violência política e social: dessa forma, um “super-Estado mundial” converter-se-á com rapidez em uma fonte de tirania e violência sistemática, o que resultará em seguida em guerra civil

5.5.9. Os problemas contemporâneos apresentados pelo nacionalismo e pelo internacionalismo no Ocidente apresentam justamente os vícios que vimos expondo:

5.5.9.1.          O renovado nacionalismo de vários países (por exemplo, Inglaterra e, ainda mais, Estados Unidos) baseia-se na reafirmação soberania absoluta – que, além dos seus problemas intrínsecos, está profundamente desregulada;

5.5.9.2.          Por outro lado, o internacionalismo tem sido desafiado (na medida em que esse desafio é minimamente aceitável) pelo sentimento de que as decisões aplicadas em determinados territórios locais são tomadas em lugares distantes por grupos e por políticos alheios às realidades locais, indiferentes aos destinos, às necessidades, às preocupações e aos sentimentos das populações locais; assim, tais decisões são injustas, inadequadas e tirânicas: foram esses sentimentos e essas idéias que estiveram na base da vitória do Brexit, em 2016

5.5.10.   Um aspecto adicional que devemos indicar é que as pátrias têm que ser pequenas, sob risco de tornarem-se opressivas e irresponsáveis

5.5.10.1.       Um dos princípios fundamentais da política moderna é a responsabilidade: ora, a responsabilidade exige a proximidade entre os cidadãos, com o conhecimento pessoal uns dos outros, a afirmação das responsabilidades mútuas, a noção de compartilhamento de um destino comum, o compartilhamento de sentimentos e idéias, a formação e a atuação da opinião pública, a fiscalização direta das atividades mútuas; com isso, os laços objetivos e subjetivos tornam-se mais evidentes e mais fortes e o bem-estar coletivo realiza-se de fato

5.5.10.2.       Além disso, a pequena extensão territorial estimula o pacifismo e torna mais simples as relações entre o nacionalismo e o internacionalismo (ou entre as pátrias e a Humanidade), em que cada país entende sua atuação e sua importância para os destinos de todos os países

5.5.10.3.       Aliás, a pequena extensão territorial também facilita as relações entre as famílias e as pátrias, ao tornar mais diretos e claros os vínculos e os destinos comuns e cada cidadão e cada família entende sua atuação e sua importância para os destinos de sua pátria

5.5.10.4.       Inversamente, países de grandes extensões territoriais estimulam o autoritarismo interno, a perda dos vínculos com o exterior (na forma do ensimesmamento) e, a partir disso, também estimulam as formas degradadas de nacionalismo

5.6.   O que comentamos acima pode parecer evidente para alguns, mas tal suposta evidência tem um quê de ilusório: como dissemos, as relações políticas contemporâneas padecem de graves problemas, sendo que não se sabe se e o que há de legítimo no nacionalismo, da mesma forma que não se sabe se e o que há de legítimo no internacionalismo

5.6.1. Como vimos, além de termos que distinguir entre várias modalidades de nacionalismo e internacionalismo, o que devemos notar é que a oposição dura entre ambos é inadequada: o que há e o que deve haver é continuidade entre ambos, a partir de diferentes fundamentos morais, antropológicos e sociais

5.6.2. A continuidade entre as pátrias e a Humanidade pressupõe a permanente existência dos países, a rejeição de propostas de “super-Estado mundial”, o compartilhamento de valores e idéias e a coordenação das atividades práticas

5.6.3. Além da afirmação da continuidade entre nacionalismo e internacionalismo, essa continuidade exige uma série de condições sociais, políticas, intelectuais e afetivas: a redução radical do tamanho dos países, a cessação completa da violência (em particular da violência militar) e a afirmação da paz, a adoção de concepções relativas, o estímulo dos bons sentimentos

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Luís Lagarrigue (franc.), Politique internationale (Paris, Garnier, 1928): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-politica-internacional-franc.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

10 março 2026

Dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada

O jornal carioca Monitor Mercantil publicou em 9.3.2026 o nosso artigo "A dificuldade brasielira de lidar com a existência compartilhada".

O texto está reproduzido abaixo; o original pode ser lido aqui: https://monitormercantil.com.br/a-dificuldade-brasileira-de-lidar-com-a-existencia-compartilhada/.

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A dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada

Entre a submissão ao exterior e o nacionalismo exagerado, os extremos da existência compartilhada. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Cerimônia da troca de bandeiras do Brasil (foto de Fábio Pozzebom, ABr).

Nos anos 1930, Stefan Zweig afirmou que o Brasil seria o “país do futuro”. Ao mesmo tempo, muitos sociólogos e historiadores europeus e brasileiros afirmaram que o Brasil é um país “jovem”. Além disso, sempre ouvimos que o Brasil é um país continental.

A juventude do país pode ser avaliada não apenas pela sua história relativamente curta (a colonização sistemática do território tem apenas cerca de cinco séculos), mas principalmente devido aos desafios de infraestrutura (faltam estradas, falta integração) e de respeito à população (falta instrução, saúde etc.).

Sendo um país continental, o Brasil tem uma tendência fortíssima a concentrar-se em seus problemas internos, preocupando-se com o ambiente externo apenas e no máximo na medida em que esse ambiente externo influencia o interno.

Também temos uma preocupação imensa com as grandes potências de cada momento, em termos político-econômicos e culturais, a ponto de fazermos questão de sermos colonizados intelectual e moralmente. Nossas elites, com gosto, fazem questão de exibir seus gastos em Miami e na Europa, esnobando a produção nacional e dando a entender que quem consome produtos brasileiros vale menos ou que é um tipo pior de pessoa.

Por outro lado, desde os anos 1960, em face da mestiçagem e da miscigenação cultural brasileiras, Darcy Ribeiro propôs que o Brasil seja entendido e realize-se como uma “nova Roma”.

Por fim, em 2018, o prédio do Museu Nacional (que começou a ser construído em 1808), no Rio de Janeiro, sofreu um incêndio que o reduziu quase totalmente às cinzas. Já em 2019 a Catedral de Notre Dame (que começou a ser construído em 1163), em Paris, sofreu um incêndio; entretanto, ela não foi tão danificada quanto o nosso Palácio de São Cristóvão. Houve intelectuais de renome que disseram que a queima do Museu Nacional era muito pior que a de Notre Dame: a cultura nacional seria mais importante – e que os franceses que se danassem!

Os vários casos acima exemplificam diferentes formas de entender-se o Brasil e suas relações com a história e com outros povos. Nessa multiplicidade de situações, o que surge para nós são formas da incapacidade brasileira de lidar com a existência compartilhada – e, em particular, duas formas gerais dessa incapacidade.

A expressão “dificuldade em lidar com existência compartilhada” denota um problema mais facilmente compreensível em termos dos desvios e das degradações do nacionalismo, em que se rejeita o convívio com os outros países (e/ou outros povos, e/ou outras culturas). Mas ele é um problema não somente com os desvios do sentimento nacional, mas também com a sua ausência. Afinal de contas, não valorizar a si mesmo é um problema tão real quanto negar os outros (devido ou não à própria sobrevalorização).

A primeira modalidade, mais própria das elites, é a submissão, ou melhor, o servilismo aos outros países. Por certo que ela se baseia nos valores compartilhados, mas desconsidera, quando não despreza, a preocupação com o próprio país.

Como esse comportamento é mais próprio às elites, e elas têm grande facilidade de trânsito internacional, elas furtam-se às suas responsabilidades coletivas, produzindo resultados bastante negativos. Esta incapacidade de lidar com a existência compartilhada rejeita o próprio país; não se pode falar aí em “existência compartilhada”, na medida em que o compartilhamento pressupõe a existência do próprio país – e este comportamento despreza ou desdenha do próprio país.

A segunda forma de incapacidade de lidar com a existência compartilhada reconhece e afirma o próprio país, mas exagera tal afirmação. É claro que a força do nacionalismo depende da situação de cada país; um povo que lute por sua independência terá um nacionalismo intenso; mas um país que deseje dominar (ou conquistar) outro também será nacionalista.

Nesses casos, o problema não está em afirmar o próprio país, mas em reconhecer como legítimos os outros países (e/ou outros povos, e/ou outras culturas). Enquanto a modalidade cosmopolita de não saber lidar com a existência compartilhada baseia-se na ausência de sentimento nacional, a xenofobia e/ou o imperialismo consiste na degradação do sentimento nacional.

Em reação necessária à irresponsabilidade “cosmopolita” das elites, o nacionalismo afirma os valores e o interesse nacional. Sem tal afirmação, é impossível qualquer projeto efetivo de melhoria no país. A afirmação do sentimento nacional, portanto, é ao mesmo tempo necessária e legítima. Entretanto, com facilidade ele pode degradar-se em rejeição aos outros povos e xenofobia explícitas ou, de outra forma, na pretensão de que seríamos o renascimento da civilização.

A ideia de um país como renascimento da civilização é mais pacífica e mais generosa que a xenofobia; mas, ainda assim, o renascimento da civilização implica também a rejeição das outras sociedades, sejam as que vieram antes, sejam as que agora convivem conosco. Devemos lembrar que, no caso do Brasil, essas concepções têm o elemento adicional do ensimesmamento devido às dimensões continentais.

À primeira vista, a solução para o cínico cosmopolitismo seria o nacionalismo; mas, desenvolvido o sentimento nacional, os problemas próprios a ele com facilidade podem surgir. A solução para ambas as dificuldades para lidar com a existência compartilhada é e deve ser uma única. Aliás, o nome que estamos dando para o problema – dificuldade em lidar com a existência compartilhada – já sugere a solução necessária.

Para lidar com a degradação do sentimento nacional, não faz sentido, nem é possível, negar tal sentimento; o que deve ocorrer é sua modificação. De maneira direta, trata-se de afirmar que nenhum país existe sozinho no mundo e que todos os países do mundo desenvolvem-se ao longo do tempo, em um processo histórico que se iniciou há centenas de milhares de anos.

Em outras palavras, trata-se de afirmar com clareza e vigor a submissão moral (mas não submissão política) dos vários países à noção de Humanidade – e, além disso, da submissão da solidariedade (da existência hoje, no presente) à continuidade (da existência ao longo do tempo, na história, do passado rumo ao futuro).

Em outras palavras, sem negar a importância dos vários países e do sentimento nacional, trata-se de afirmar (em termos morais) que as pátrias não são a forma mais elevada de identidade social e política: sem tal submissão – e, sim, trata-se de uma submissão – o nacionalismo fica sem parâmetros e sujeito às piores degradações.

A noção de Humanidade tem que ser afirmada em termos morais e intelectuais; não faz sentido e não é aceitável sua conversão em uma realidade política, na forma quimérica de um “super-Estado” mundial. Todavia, por outro lado, é claro que a afirmação moral e intelectual da Humanidade tem que ter consequências políticas, a começar pela rejeição de toda violência entre as nações e pelo término de ambições expansionistas dos estados atuais (e começar pelos países que já são gigantescos, como Rússia e Estados Unidos).

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.